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Histórias Assustadoras Para Contar no Escuro é um terror pra ser visto entre amigos
CINÉFILOS
08 ago 2019 | Por Maria Luísa Bassan (malugomesdesa@hotmail.com)

“Histórias machucam. Histórias curam. Se contarmos tempo o suficiente, elas se tornam verdade”. O começo de Histórias Assustadoras Para Contar no Escuro (Scary Stories to Tell in the Dark, 2019) é uma bela apresentação daquilo que se tornou marca de Guillermo del Toro, produtor do longa, em seus trabalhos como diretor: o impacto de boas narrativas de terror, construídas com criaturas fantásticas e com o objetivo de marcarem a imaginação daqueles que as assistem. Baseado no livro homônimo de Alvin Schwartz, o filme impacta positivamente pelos monstros, pelos sustos, mas acima de tudo, pelo poder de uma boa história.

Na cidade de Mill Valley, em 1968, os amigos Stella (Zoe Colletti), Auggie (Gabriel Rush) e Chuck (Austin Zajur) se preparam para o Dia das Bruxas. Eles planejam se vingar de Tommy (Austin Abrams), garoto que vive tirando sarro do grupo, uma vez que Stella virou alvo de comentários e piadas depois que sua mãe foi embora. Como consequência da brincadeira, Stella, Auggie e Chuck fogem de Tommy e seu grupo e, após tentarem despistá-los se escondendo em um cinema drive-in – o que os faz conhecerem Ramón (Michael Garza) e pedirem sua ajuda para acharem um novo esconderijo –, todos eles acabam em uma mansão abandonada muito famosa da cidade.

Aquela residência fora o lar da família Bellows durante o século 19. Muitas histórias giravam em torno dela, mas as mais assustadoras diziam respeito à Sarah (Kathleen Pollard), filha caçula. Reza a lenda que os pais a mantinham trancada em casa e sua única distração era escrever histórias de terror em um livro antigo. Se alguém fosse até a mansão e pedisse para que Sarah contasse uma história, seria possível ouvir sua voz através das paredes.

Depois de se aventurarem pela casa e acharem, inclusive, o cômodo no qual Sarah aparentemente era mantida reclusa, Stella encontra o livro da garota e decide levá-lo pra casa, não sem antes pedir que Sarah contasse uma história a ela. A partir de então, novos contos passam a ocupar as páginas do livro e se tornam, um a um, realidade, tendo como personagens principais as pessoas à volta de Stella.

O filme, à primeira vista, soa como mais do mesmo: uma casa mal assombrada, as lendas que permeiam o imaginário da cidade e um grupo pequeno de amigos que deseja descobrir a história por trás dessas lendas. Nos primeiros vinte minutos, ele realmente não entrega nada demais, porém, a partir do momento que a lenda de Sarah Bellows é apresentada ao público, o enredo ganha uma camada de complexidade que adiciona o diferencial ao longa.

Os amigos Auggie, Chuck, Ramón e Stella, respectivamente, encontram o livro de Sarah Bellows ao visitarem a mansão da família [Imagem: Diamond Films]

O livro no qual Sarah escrevia suas histórias é o elemento principal da narrativa. Como diz Stella em determinado momento: “você não lê o livro, é ele que te lê”. O objeto é não só o elo entre Sarah e o grupo de amigos, mas também uma espécie de espelho que mostra a eles e ao público as lendas urbanas que permeiam seus medos de criança. Aliás, faz sentido que seja um livro, uma vez que Stella também escreve histórias de terror e sonha em publicar uma de sua autoria.

A ambientação também contribui para a atmosfera do longa. As decorações de Dia das Bruxas, as televisões falando sobre a Guerra do Vietnã, o cinema drive-in exibindo A Noite dos Mortos-Vivos (Night of the Living Dead, 1968) e a cena inicial, que tem como trilha a música Season of the Witch, do Donovan, contribuem para o sentimento de que Mill Valley é a cidade perfeita para cenário de histórias de terror. O elenco funciona muito bem junto e a conexão que eles têm com as narrativas da cidade justificam perfeitamente o fato deles serem os “escolhidos” por Sarah para conhecerem seus contos.

O trunfo do longa, com certeza, são as histórias que ganham vida ao terem Stella e seus amigos como protagonistas. É visível – e digno de elogios – o toque de Guillermo del Toro na produção. Os monstros presentes nas lendas não assustam pela aparência, mas pela narrativa da qual fazem parte. Fica claro que a intenção do roteiro não é simplesmente assustar, mas entregar ao público uma história que possa ser passada adiante, afinal, a graça de um bom conto de terror está em poder compartilhá-lo com seus amigos.

Histórias Assustadoras Para Contar no Escuro tem uma atmosfera que se assemelha muito à de It: A Coisa (It, 2017) e  que, unida ao toque fantástico característico do del Toro, constitui um roteiro que entrega algo além do entretenimento. As histórias do livro de Sarah Bellows soam como lendas urbanas revisitadas, conhecidas nos Estados Unidos e Europa, mas com um toque a mais que não as torna clichês ou previsíveis. O destaque da narrativa não são as criaturas em si, mas como as histórias por trás delas – e da própria Sarah Bellows – têm a capacidade de ganhar vida ao ultrapassarem a dimensão oral e escrita e funcionarem como extensão da própria vida dos personagens. O resultado é um filme perfeito para o Dia das Bruxas e para todos aqueles que gostam de uma boa história de terror. 

O filme tem estreia prevista para 8 de agosto no Brasil. Assista ao trailer aqui:

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