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Ilhas e isolamento: a importância da separação
Biosfera
19 jul 2020 | Por Jaqueline Silva (jack_cristina12@usp.br)

No início da conversa

Uma imensa parcela de mitos acerca da evolução tentam justificar coisas como o porquê de as manchas nas asas das borboletas possuírem diferentes padrões umas das outras ou o porquê de não conseguirmos nos comunicar diretamente por palavras com os outros animais. Paralelamente a isso, há uma história milenar de origem judaica, ouvida por muitas crianças que atreveram-se a perguntar aos pais e professores o porquê da existência de tantos idiomas: foi-lhes apresentada a narrativa da Torre de Babel, em que todos os habitantes falavam a mesma língua e trabalhavam juntos em prol da construção de uma grande torre que pudesse chegar até o céu. Infelizmente, o deus desses homens irritou-se com a ousadia do uso dos métodos não divinos para aquele fim e confundiu as línguas entre eles, promovendo o desentendimento dos mesmos entre si, o que levou ao abandono total das obras da torre e o isolamento entre os indivíduos.

Pintura da Torre de Babel, os hebreus a viam como responsável pela variação linguística no mundo. Imagem: Correio Braziliense.

Pintura da Torre de Babel, os hebreus a viam como responsável pela variação linguística no mundo. Imagem: Correio Braziliense.

O ser humano especula sobre o princípio das próprias origens e dos primórdios de outros animais há milênios e, para explicá-los às suas contemporaneidades, apoiou-se primeiramente em traços da mitologia que definiam elementos e fenômenos da natureza; posteriormente encontrou bases religiosas que mesclavam os mitos e os atribuíam a milagres divinos. Mesmo com a passagem do tempo e a comprovação científica, uma corrente de pensamento não excluiu precisamente as outras, visto que muitas pessoas acreditam em versões que podem combinar hipóteses mitológicas e religiosas a explicações científicas.  

Ainda que essas histórias tenham papel significativo no desenvolvimento de diversas culturas, a maioria delas acabam deixando conglomerados de dúvidas, sendo que a realidade do que aconteceu é bem mais simples. Por conta disso, na modernidade das pesquisas e das tecnologias que as atestam, cientistas de diversos campos de estudo discutem com maior embasamento que o surgimento das múltiplas espécies, assim como as transmissões de características e linguagens, foi resultado de milhares de anos de constantes processos evolutivos causados por barreiras geográficas. O que se estuda é a formação de “ilhas” e os isolamentos propiciados por elas como os principais causadores dessa grande cadeia de separações.

 

Tipos de Isolamento

As barreiras geográficas podem ser causadas pelos oceanos, mas também por porções de terra, como uma cadeia de montanhas que segmenta limites territoriais, um rio que corta uma planície ou um braço de mar que separa ilhas e continentes, ramificando populações pelo isolamento geográfico. Em entrevista, o professor Mario de Pinna, doutor em biologia evolutiva e responsável pelo Museu de Zoologia da Universidade de São Paulo (USP), elucidou que a evolução é um fenômeno de categoria populacional e que o isolamento promoveu a  diversidade e as derivações entre espécies, incluindo as línguas humanas faladas no mundo todo. 

O latim, por exemplo, ao ser a língua utilizada pelo Império Romano na grande porção da Europa que detinha, originou vários outros idiomas, como o francês, o italiano, o espanhol, o português, o romeno e diversos dialetos que derivaram independentemente destes. Visualmente, a representação é similar a uma árvore genealógica em que o grupo chamado de Línguas Latino Românicas se sustenta com múltiplos galhos ramificados. Coincidentemente, a palavra “isolamento” vem de uma ramificação da palavra isola, que em italiano significa ilha e derivou do latim insula, de mesmo sentido. 

Árvore genealógica das línguas indo-europeias. Imagem: The Fools.

Árvore genealógica das línguas indo-europeias. Imagem: The Fools.

A causa mais provável das separações entre espécimes é o mar, já que os seres vivos de ilhas e continentes separados não conseguem ter contato, ou pelo menos, não com regularidade. Como Pinna explicou, o DNA de espécies deriva quando há separações entre elas, dando início às múltiplas especiações que partem de um mesmo ancestral. Quando isso ocorre, dois membros de duas populações outrora correspondentes, podem ser parcialmente ou totalmente impedidos de gerar descendentes férteis, o que estabelece o surgimento de uma nova espécie; o fenômeno recebe o nome de isolamento reprodutivo.

O conjunto dessas possibilidades é chamado de isolamento evolutivo: as cargas genéticas e instrumentais da comunicação entre animais se alteram quando estão longe uns dos outros, evoluindo de maneiras diferentes e adquirindo habilidades e caracteres livremente influenciados pelo ambiente que residem e associações inter-relacionais. Isso pode definir, inclusive, as probabilidades da seleção natural: se tais animais chegarão à vida adulta e perpetuarão ou não suas próprias espécies.

Todas os apontamentos presentes na evolução nasceram pela separação ou pela formação dessas “ilhas” que ocasionaram a divisão original, seja entre primatas que se dividiram independentemente no vale do Grande Rift, na África e iniciaram a evolução da linhagem de humanos ao lado leste e a de chimpanzés ao lado oeste, seja nas especiações que resultaram em três tipos de iguanas que atualmente vivem no Arquipélago de Galápagos e que já possuíram um ancestral em comum, mas hoje tem características divergentes e existem unicamente nessa porção do planeta.

Grupo de ilhas do Arquipélago de Galápagos, no Equador. A separação das ilhas pode gerar o isolamento entre espécies. Imagem: Girassol Viagens.

Grupo de ilhas do Arquipélago de Galápagos, no Equador. A separação das ilhas pode gerar o isolamento entre espécies. Imagem: Girassol Viagens.

Essa cadeia de isolamentos impulsionou a vida de milhares de espécies ao longo de toda a evolução, inclusive a humana, visto que ao se deslocarem para ambientes mais amenos e se assentarem, saíram do estado de sobrevivência propiciada pelo nomadismo. Nesses ambientes, a espécie humana desenvolveu métodos de agricultura, linguagem e trocas; além de construir sociedades compostas por leis, direitos e deveres, contando com as atribuições de cargas culturais singulares, como a língua de um povo e suas expressões étnicas.

 

As separações atuais

Pode parecer que esses tipos de isolamento, sejam eles de ordem geográfica, reprodutiva ou evolutiva, terminaram há muito tempo, nos primórdios da vida, e que servem apenas para contar o que nos trouxe até aqui pelos livros de Biologia, Geografia e História; mas as separações que levam todos os seres a evoluir têm continuidade ativa. Também as bactérias e vírus passam por processos de desenvolvimento e mutações constantes e por conta de recombinações nos genes de um deles, uma variedade do isolamento foi adotada recentemente como medida de separação social entre humanos.

No final de dezembro de 2019, a China confirmou uma patologia atual provocada por um vírus específico do grupo Corona, que recebeu o nome de Covid-19. A disseminação da doença é rápida e possui índices altos de contagiosidade. Com a crise epidêmica causada pelo vírus, um outro tipo de isolamento vem resguardando a vitalidade de milhões de pessoas: o isolamento social foi a tática adotada por autoridades governamentais e especialistas em saúde pública na maioria dos países afetados ao redor do globo. Este tipo de isolamento conta com medidas de separação entre os agrupamentos cotidianos das pessoas em sociedade e a exclusão de eventuais aglomerações populacionais, ao decretar confinamento domiciliar e abandono de uma série de contatos interpessoais entre indivíduos.

Em conversa com a professora e doutora Ester Cerdeira Sabino, médica imunologista e uma das pesquisadoras responsáveis pelo sequenciamento do genoma do Covid-19 em 48 horas no Brasil, o isolamento social é, neste momento, a maior medida e esperança para lidar com a doença, que não ainda possui uma vacina ou medicamento totalmente próprio e eficaz para contenção e imunização. 

Sabino relata que toda a comunidade médica e científica tem conhecimento acerca das dificuldades e do impacto econômico que o coronavírus causa em sociedades, principalmente nas mais instáveis, que além disso, podem sofrer com a disseminação de fake news, promovendo falsidades para a esquiva e contorno das recomendações do isolamento. No entanto, a médica defende que a informação de qualidade junto ao confinamento social é uma importante aliada no combate contra a doença.

Apesar das inúmeras inseguranças causadas pelo vírus, o aumento do incentivo de pesquisas científicas provoca mudanças amplamente benéficas na mentalidade dos indivíduos a respeito das inovações médicas e tecnológicas, o que pode influenciar positivamente nas contribuições e créditos de pesquisa no futuro, bem como alargá-las. Nas palavras da Doutora Sabino, “a ciência é feita de pequenos e inúmeros pedacinhos que, quando agrupados, produzem a superação dos obscurantismos e deficiências”.

Neste panorama, a separação causada pelo isolamento social é de máxima importância e poderá nos salvar antes das formulações devidas de vacinas, assim como os outros tipos de isolamentos que em milhões de anos perpetuaram e perpetuam a espécie humana e outras espécies no planeta, cada uma delas em suas ilhas particulares, até que possamos voltar a interagir dentro da proximidade usual. Pelas palavras do poeta inglês, John Donne, “nenhum homem é uma ilha”.

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