Home Corpo e Mente Implicações éticas da manipulação genética em embriões humanos: teria o ser humano ido longe demais?
Implicações éticas da manipulação genética em embriões humanos: teria o ser humano ido longe demais?
Corpo e Mente
24 jul 2019 | Por Beatriz Azevedo (beatriz.pinto@usp.br)

Recentemente, o mundo assistiu ao cientista chinês He Jiankui anunciar o nascimento de bebês gêmeas modificadas geneticamente para serem resistentes ao vírus HIV. Muito se discute sobre o assunto, algumas pessoas acham que o uso da genética para alteração do curso vital de alguém é algo que não cabe ao ser humano decidir, por outro lado, existem pessoas que acham positivo se for com intenção de melhorar as condições de vida de um indivíduo. Esse debate suscita uma pergunta que já está circundando o mundo há algum tempo: Quais são os limites éticos de se alterar uma vida humana?

O historiador Yuval Noah Harari, em seu livro Homo Deus (2015), nos traz uma perspectiva em relação ao uso desses artifícios. Na obra, o pesquisador alega que, tanto como a energia nuclear foi deturpada e utilizada para causar danos à humanidade, o destino da engenharia genética não seria diferente. Harari prevê que, com a popularização das técnicas utilizadas pela biotecnologia para retirar doenças do genoma humano, pode-se abrir uma brecha para projetos eugenistas que iriam se valer desses procedimentos.

Para ele, pode fazer com que famílias ricas ao redor do mundo se dirijam a centros de reprodução humana e desenhem seus filhos a sua maneira, podendo lhes conceder habilidades como inteligência, aptidão aos esportes, boa capacidade de comunicação e assim por diante, criando, portanto, uma casta de super humanos ricos biologicamente separados da massa pobre que não teria acesso à edição do genoma, trazendo a desigualdade para o nível biológico. 

Entretanto, essa linha de pensamento não encontra respaldo entre cientistas do meio. Em entrevista, Adriana Bos-Mickich, professora da UFRGS (Universidade Federal do Rio Grande do Sul) e Rafael Polidoro, pós doutorando pela universidade de medicina de Harvard, trazem vieses científicos ao assunto. Para Adriana, “[A teoria de Harari] Não é conspiratória, acho que há muita imaginação. Nós não sabemos o que vai acontecer com essa suposta classe de super humanos quanto à saúde deles, porque eles podem ser perfeitos fisicamente falando, mas nós não sabemos como será sua saúde neurológica, essa pessoa pode desenvolver autismo, por exemplo”. Citando um caso mais próximo da realidade, temos os cães que são vendidos, que passam por um processo de seleção genética de pelo, olho, tamanho, etc e, quando expostos a um ambiente estranho, como frio, por exemplo, padecem. Em contraposição, os chamados ‘vira-lata’ vivem por cerca de quinze anos e raramente adoecem.

Rafael segue a mesma linha de pensamento, afirmando que: “Em resumo, um super humano geneticamente [modificado] não existe do ponto de vista evolutivo. Outras ferramentas de tecnologia, inovação em saúde e robótica são milhares de vezes mais eficazes em dar capacidades sobre-humanas”.

O debate sobre o campo do genoma é relativamente novo para quem não está inserido no meio, mas cientistas do mundo inteiro já têm certa familiaridade com técnicas da genética pois sua aplicação é uma realidade há muito tempo. O uso do aconselhamento genético, por exemplo, do qual casais que tenham uma doença que pode ser transmitida geneticamente aos filhos se valem é uma  técnica usada para certificar que haverá a presença do gene na criança e usar a tecnologia para se prevenir disso. Já é algo cotidiano nos consultórios médicos esses pais irem à clínicas de reprodução humana a fim de conceber um certo número de embriões para serem analisados com o propósito de descobrir se há a presença de um gene que seria responsável por doenças genéticas em algum deles e os que têm são eliminados, inserindo no útero da mãe um embrião que não corre riscos de desenvolver tal doença.

Mas nesse caso não há interferência no código de DNA daquele conjunto celular, o que aconteceu no caso das gêmeas chinesas. Existem diferentes tipos de técnicas que operam a edição genômica, mas a que foi aplicada nesse experimento foi a CRISP/CAS 9  “para fazer a técnica de CRISP/CAS 9, usa-se o embrião de um dia, que é quando já aconteceu a penetração do espermatozoide no gameta feminino formando um zigoto humano com material genético materno e paterno. Assim, injeta-se dentro dele uma fita de DNA para aquela característica que se quer modificar que vai reconhecer a parte do DNA que precisa substituir, coloca-se uma enzima que quebra a dupla fita que foi reconhecida, para a nova ser colocada ali”, elucida Adriana.  Essa é a diferença dessa técnica, não é uma quebra ao acaso, e sim bem pontual e específica. Uma boa analogia que pode exemplificar esse processo é o uso do corretivo durante a construção de um texto, o líquido branco é posto em uma parte bem específica da construção textual que se deseja apagar, assim escreve-se por cima a forma correta ou melhorada, dessa mesma forma, basicamente, que funciona essa técnica. 

Apesar de o mundo já ter muita familiaridade com a engenharia genética, a regulamentação desse tipo de atividade não está muito clara internacionalmente. Para Polidoro, “muitos países não possuem legislação alguma e poderiam se tornar ‘paraísos fiscais’ para clínicas deste tipo. Eu acho que isso só tornará as pessoas que tentarem primeiro cobaias sem utilidade, porque não serão seguidas e estudadas de perto. Eu não sei se muita gente vai querer modificar seus bebê a ponto de chegar à escala industrial. Como vai dar errado, logo a moda vai parar e as coisas serão feitas mais corretamente”. Adriana afirma que “já houve um item em uma reunião em um chamado que foi publicado na Nature do dia 19 de março de 2019, feito por 17 cientistas e experts mundiais, chamando para um banimento de tudo que está sendo feito no mundo nesse sentido”. 

O problema que pode ser trazido por isso é que irá  levar essas atividades à irregularidade, fazendo os cientistas as desenvolverem por ‘debaixo dos panos’, o que fará com que não haja regulamentação própria e tornando o mundo na genética em humanos, uma terra sem lei. A OMS (Organização Mundial da Saúde), pediu um comitê internacional  que crie documentos que normatizem clínicas de reprodução humana em todo o mundo, tais regras iriam contar com a boa fé dos cientistas na produção de relatórios de suas pesquisas visto que não há como existir uma comissão de ética em toda clínica pois elas são muitas e existem praticamente em todos os países.

Ao contrário do que se imagina, essa discussão não está distante do contexto brasileiro.Existem inúmeros laboratórios de genética no país, que atuam não apenas em humanos, mas em animais e plantas. Os transgênicos são um bom exemplo, “eu acho que o momento de discutir isso é agora. Estamos formando profissionais que terão que lidar com isso em sua maturidade de carreira, além das crianças que provavelmente poderão conviver com isso quando tiverem filhos.(…) No caso de animais, já precisamos discutir isso ontem”, sustenta Polidoro. O Brasil, por ser grande produtor de carnes já tem estudado formas de  produzir mutações que irão favorecer a indústria agropecuária, então o debate precisa acontecer.

Além disso, a discussão sobre o assunto é importante porque pouco se sabe sobre quais serão as consequências para o ser humano do emprego dessas técnicas em seu genoma. “O maior problema trazido por esse processo é a interferência no processo de seleção natural e evolução. Um ser humano na Idade Média vivia em torno de uns 40 anos, hoje, a expectativa chega ao 80 anos de idade. Progressivamente, a evolução e a seleção natural estão aumentando a expectativa de vida dos seres humanos. Isso não se trata apenas de sabotar um gene para ter uma expectativa de vida mais longa, isso engloba todo um processo evolutivo”, assegura Adriana.

Alterar o genoma humano de maneira tão pretensiosa é algo muito recente na história da humanidade os impactos, se é que haverão, não serão vistos agora, espera-se que não haja malefícios vindo disso. A comunidade científica em geral parece ter ressalvas sobre o caso do Dr. He, por ser algo que foi feito sem maiores preocupações em procurar amparo na comunidade internacional de geneticistas, tanto que os estudos não foram publicados corretamente a fim de gerar discussão ou críticas à metodologia empregada. Na lei europeia e norte americana tal empreitada não seria legal. Assim, as dúvidas e receios ainda abalam pesquisadores, que tentam lidar com isso. As próximas décadas vão nos dizer se foi uma coisa da qual deveríamos nos arrepender ou  agradecer por ter sido feito.

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