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Inteligência animal: somos tão únicos quanto pensamos?

Estudos sobre a inteligência animal indicam que a cognição do ser humano e dos demais animais apresentam uma série de semelhanças em potencial

Biosfera
21 jan 2022 | Por Gabriel Gama Teixeira (gabriel.gama.teixeira@usp.br)

Com certeza você já presenciou essa cena: um cachorro de estimação, ao ver que seu dono está triste ou cansado, faz de tudo para alegrá-lo. E logo surge a indagação: de onde vem essa habilidade? Como ele pode perceber o humor do seu cuidador sem qualquer comunicação direta? Essa situação é um exemplo da inteligência animal.

Mas afinal: o que define a inteligência? Os animais são inteligentes? E como estudar o comportamento dos animais pode ajudar a compreender a própria espécie humana em meio à natureza?

Para entender as respostas dessas e de outras perguntas, o Laboratório conversou com três especialistas no assunto: a cientista cognitiva Laurie Santos, o primatologista Frans de Waal e o professor de psicologia Eduardo Ottoni.

 

O que é inteligência?

Em um primeiro momento, parece uma tarefa fácil definir esse conceito. Como indicado muitas vezes no senso comum, inteligente é uma pessoa que se dá bem em provas difíceis, sabe resolver cálculos complicados de matemática e tem conhecimento sobre vários fenômenos complexos do mundo. Ao estender essa noção para a esfera coletiva, a definição de inteligência envolveria um mundo avançado, com tecnologias inovadoras e capacidade avançada de pensamento.

Ocorre que essa visão sobre a inteligência leva em conta apenas uma espécie: a Homo sapiens – representada, caso não saiba, por mim e por você que está lendo. E todas as outras milhares de espécies que dividem o planeta conosco? Não haveria nenhuma evidência de inteligência entre a imensa diversidade de seres do Reino Animal?

Os especialistas são unânimes em afirmar que há provas concretas de inteligência nos animais. Mas as definições para esse conceito podem variar um pouco.

Laurie Santos, cientista cognitiva e diretora do Laboratório de Cognição Comparada da Universidade de Yale (Estados Unidos), define inteligência como o conjunto de habilidades cognitivas de uma determinada espécie, que frequentemente se apresenta a partir de capacidades relacionadas à solução de problemas, tomada de decisões ou inteligência social, por exemplo.

Já Frans de Waal, primatologista da Universidade de Utrecht (Países Baixos) e autor do livro “Are We Smart Enough To Know How Smart Animals Are?” – ou “somos inteligentes o suficiente para saber quão inteligentes os animais são?”, em tradução livre –, considera a inteligência como a capacidade de resolver problemas novos, ou seja, a possibilidade de produzir novos comportamentos sob novas circunstâncias e encontrar soluções para enfrentar situações adversas.

As duas definições podem ser facilmente aplicadas para os seres do Reino Animal. Os pesquisadores não consideram a inteligência exclusiva de um cérebro humano, mas dependente de habilidades cognitivas e da capacidade de resolver problemas inesperados. Mas como isso pode ser observado nos animais?

 

Animais da terra, da água e do ar

Mamíferos, aves, moluscos e outros seres aquáticos… A inteligência animal pode ser encontrada em várias espécies e em diversos ecossistemas.

Comecemos pelos primatas, o grupo de mamíferos que inclui os seres humanos. Frans, especialista no estudo desses animais, explica que a inteligência vista neles envolve muito mais que a comunicação por gritos e sons. Segundo ele, a percepção de tempo pelos primatas – assim como por muitas espécies fora desse grupo – não se restringe ao presente imediato, por exemplo. “[Nós, cientistas] Costumávamos pensar que os animais estavam presos no tempo presente e que só nós, humanos, olhávamos para além do agora. Mas hoje acreditamos que os animais conseguem pensar em eventos passados e também no futuro”.

Ele cita como exemplo um experimento feito com macacos, em que eram apresentadas duas ferramentas aos animais. Uma delas dava acesso imediato a uma refeição, e a outra fornecia uma refeição melhor do que a primeira, porém somente no dia seguinte. Os macacos tenderam a suprimir o ímpeto de escolher a opção mais imediata para privilegiar a melhor recompensa no futuro. Esse mesmo teste foi realizado também com papagaios e corvos, e os resultados foram similares, de acordo com Frans.

Laurie enfatiza que estudos sobre a cognição motora dos animais – isto é, a inteligência relativa aos movimentos do corpo – indicam que as ferramentas desempenham um papel importante na interação com o mundo. Saber utilizar objetos da natureza e adaptá-los segundo necessidades específicas é um comportamento inteligente, diz a pesquisadora. Um exemplo disso é o polvo, que, ao se sentir ameaçado, usa conchas e pedras encontradas no mar para se proteger – como se vê na imagem 1 da fotomontagem abaixo.

A cultura, que enxergamos tradicionalmente como o conjunto de informações e tradições que moldam nossa sociedade, também se expressa nos animais. O professor Eduardo explica que, para eles, a cultura constitui um processo de aprendizagem socialmente mediado, em que os indivíduos mais novos aprendem com os mais velhos. Segundo o pesquisador, isso não está dissociado da inteligência: a habilidade de absorver ensinamentos e imitar comportamentos dos demais depende de processos cognitivos complexos.

O autorreconhecimento também é um marcador de inteligência nos animais, segundo os especialistas. A noção da própria existência e a percepção dos limites do próprio corpo podem indicar que certos animais possuem esse atributo.

Um teste já realizado com diversos animais envolve colocá-los em frente a um espelho e observar seu comportamento. Na fotomontagem abaixo, é possível ver que animais como elefantes (imagem 2), macacos (3) e golfinhos (4) aparentam sinais de reconhecimento da própria imagem no espelho, o que aponta para a inteligência presente nesses seres.

Fotomontagem com animais em diferentes situações que avaliam inteligência

A utilização de ferramentas e o autorreconhecimento são indicativos importantes de habilidades cognitivas no mundo animal.

 

 

Dificuldades no estudo da inteligência animal e o que ela pode nos ensinar

Apesar dos testes mencionados, a inteligência animal não é algo simples de ser pesquisado. Como afirmam os especialistas, ao estudarmos uma espécie diferente da nossa, é inevitável que haja a imposição de padrões caracteristicamente humanos nas pesquisas.

Por exemplo: o teste do espelho, para averiguar a autopercepção dos animais, privilegia espécies que têm o sentido da visão apurado. Esse teste seria adequado para um cão, cuja capacidade visual é menos desenvolvida que a humana, mas tem olfato muito superior ao nosso?

Além disso, Frans afirma que muitas vezes os animais apresentam comportamentos que nós sequer conhecemos. “Muitos animais têm capacidades distintas das nossas, e nós julgamos e estudamos os animais pelos nossos próprios padrões”.

Laurie complementa: “Nós raramente nos perguntamos sobre as habilidades que os animais têm e nós não temos, pois estamos sempre preocupados em enxergar nossa própria espécie nas demais. Isso traz uma ‘cegueira experimental’ bastante prejudicial”.

Diante desse cenário, estudar os animais pode trazer contribuições importantes para a sociedade, dizem os especialistas. “Entender mais sobre a inteligência animal reduz a distância entre ‘nós’ e ‘eles’, até porque não somos fundamentalmente diferentes”, defende Frans. “Estudar esse tema nos traz modéstia para entendermos que não somos tão diferentes do resto dos animais e também nos insere na natureza como parte indissociável dela”, afirma o pesquisador.

“O estudo da inteligência animal nos faz compreender o quanto nos influenciamos por vieses distorcidos da evolução, o quanto erramos no tratamento dos animais e pode nos ajudar a encontrar soluções para esses problemas”, diz Laurie.

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