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Islândia: a novata mais carismática da Copa
ARQUIBANCADA
16 jun 2018 | Por Jornalismo Júnior

Por André Netto e Beatriz Cristina

Em toda Copa do Mundo, temos alguns países que nos surpreendem por terem conseguido a classificação para disputar a maior competição do futebol mundial. Desde que o campeonato passou a ser realizado com 32 times, em 1998 na França, países como Angola, Togo, Trinidad e Tobago, Eslovênia e Equador tiveram a oportunidade de participar. Este ano não será diferente: seleções como Peru e Egito retornam à competição, e Panamá e Islândia fazem sua estreia.

Os islandeses já destacaram-se na última Eurocopa, ao chegar nas quartas de final após eliminar a Inglaterra. Outro fator de destaque durante a competição foi o show dado pela torcida. Confira mais sobre a trajetória dos escandinavos que vão para sua primeira participação na Rússia.

Seleção islandesa nas eliminatórias para a Copa do Mundo, em 2017 (Imagem: FIFA/Site Oficial)

Curiosidades do país

Situada às margens do Círculo Polar Ártico, a Islândia possui uma área territorial menor que o estado brasileiro do Amapá e população menor que Rio Branco (AC), com 60% da população vivendo na capital do país, Reykjavik, a mais setentrional do planeta. Possui uma das democracias mais antigas do mundo, estabelecida no ano de 930. Cerca de 10% dos habitantes já escreveram ou pretendem escrever algum livro e o país também é conhecido por seus músicos, tendo alguns projeção internacional cantando música em língua inglesa, como a cantora Björk e as bandas Of Monsters And Men e Sigur Rós.

Foi o primeiro país a criar uma lei exigindo salários iguais entre os gêneros, a ter uma mulher na presidência (Vigdís Finnbogadóttir, deteve o cargo entre 1980 e 1996) e também o primeiro a eleger uma chefe de estado abertamente homossexual. Casais homossexuais islandeses também têm os mesmos direitos que os heterossexuais desde 1996.

A Islândia é cruzada por uma cordilheira vulcânica, o que torna este país na zona vulcânica mais ativa do mundo, com uma erupção a cada cinco anos, em média. Hoje em dia, o país tem entre 30 e 40 vulcões ativos. As lendas da Islândia atribuem ao vulcão Hekla a entrada direta para o inferno e, por estar situados em altas latitudes, apresenta inverno de noites quase intermináveis e verão de dias longos, com ocorrências de Auroras Boreais e o Sol da Meia-Noite. Não há formigas e mosquitos na ilha devido ao frio. Nos últimos anos foram observadas algumas espécies de formigas vivendo em casas, mas não eram espécies nativas da ilha.

Reykjavik, a capital do país (Imagem: Reprodução/Reddit)

O país possui pouco mais de 330 mil habitantes, e se tornou assim o país com a menor população a disputar uma Copa do Mundo, superando a marca de Trinidad e Tobago, que tem 1,3 milhão de habitantes. Todo esse sucesso foi viabilizado por fortes investimentos na construção de campos indoor para driblar o rigoroso inverno. Somado a isso, a Islândia passou a capacitar técnicos, e hoje possui o maior número de técnicos per capita: há um técnico para cada 360 pessoas.

Trajetória até a Copa

O sucesso do pequeno país europeu não se deve ao acaso. Não é apenas uma boa geração de jogadores, mas sim os frutos de um projeto a longo prazo que visava melhorar o esporte. A construção de campos, a capacitação de treinadores e até mesmo o método educacional do país, com fortes treinos físicos e incentivo para que os jovens pratiquem esportes, foram necessários para o resultado que se tem hoje. O país também teve o incentivo de um programa da FIFA para nações atrasadas no futebol, que injetou 2 milhões de euros nos projetos islandeses.

E em 2014 os resultados começaram a aparecer. Ainda que em um grupo teoricamente mais fácil, composto por Suíça, Eslovênia, Noruega, Albânia e Chipre, a Islândia, até então “saco de pancadas” na competição, fez uma bela campanha com cinco vitórias, dois empates e três derrotas, ficando na segunda posição no grupo, atrás apenas da Suíça. Desta forma, a equipe garantiu vaga para a repescagem, na qual enfrentou a Croácia. No primeiro jogo, o resultado foi apenas um 0 a 0. Já na volta, Modric e Mandzukic marcaram e garantiram a vaga para os croatas.

Após a decepção nas eliminatórias da Copa do Mundo de 2014, o foco passou a ser nas eliminatórias da Euro 2016, que seria realizada na França. A tarefa não seria fácil: em um grupo com Holanda, República Checa, Turquia, Cazaquistão e Letônia, os nórdicos sonhavam com um terceiro lugar e uma vaga na repescagem. Nos primeiros dois jogos, duas grandes vitórias por 3 a 0 contra Turquia e Letônia. Em seguida, veio o grande teste: o jogo contra a Holanda em casa, que havia ficado em 3º lugar na última Copa e era a favorita para liderar o grupo. Os islandeses surpreenderam mais uma vez, ganhando por 2 a 0 e garantindo a primeira posição até então.

Depois disso veio a primeira derrota, 2 a 1 para a República Tcheca. Mas o primeiro tropeço não os desanimou, e a Islândia terminou em segundo no grupo, deixando a favorita Holanda fora da competição e classificando-se para a sua primeira Eurocopa. Aquela edição foi a primeira a ter 24 participantes, o que permitiu que diversas seleções tivessem a oportunidade de participar pela primeira vez, dentre elas a Irlanda do Norte, o País de Gales, a Eslováquia, a Albânia e a própria Islândia.

O sorteio dos grupos colocou os islandeses frente à Portugal, Hungria e Áustria. Logo de cara a maior pedreira: os portugueses liderados por Cristiano Ronaldo. Aos 31 minutos, após bela troca de passes pela direita, Nani só teve o trabalho de empurrar a bola para o fundo das redes, abrindo o placar para Portugal. No segundo tempo, a Islândia veio para cima em busca do empate, e logo aos cinco minutos empatou com Bjarnason, que apareceu livre após cruzamento da direita. O jogo acabou empatado, com os islandeses celebrando muito o resultado, vindo a receber críticas do craque português, que disse que seus adversários tinham uma “mentalidade pequena” e por isso nunca seriam nada no esporte.

No próximo jogo, contra a seleção húngara, a Islândia passou por um extremo anticlímax. A equipe vencia até os 43 do segundo tempo por 1 a 0, depois de Gylfi Sigurdsson converter um pênalti, quando veio um cruzamento rasteiro da direita e o zagueiro Saevarsson acabou mandando a bola para dentro da própria meta. No último jogo contra a seleção da Áustria, os islandeses precisavam de uma vitória para passar diretamente às oitavas sem depender de outros resultados, e a tristeza do jogo anterior foi a alegria do jogo seguinte. O time empatava por 1 a 1 até que, aos 49 do segundo tempo, quando os austríacos se lançavam ao ataque em busca de sua classificação, Bjarnason puxou o contra-ataque e rolou para Traustason selar o placar e garantir a classificação às oitavas.

Nesta altura, a torcida islandesa fazia a festa na França, deslumbrados com a campanha de sua seleção. Quando ficou definido que a adversária nas oitavas seria a Inglaterra, muitos acreditavam que a aventura da Islândia chegava ao fim. E, logo aos 4 minutos de jogo, um pênalti para a Inglaterra, convertido por Wayne Rooney, colocou os ingleses na frente. Porém, dois minutos depois, o zagueiro Ragnar Sigurdsson aproveitou a sobra do escanteio e empatou o jogo, deixando a torcida eufórica. Dez minutos depois o improvável aconteceria: após troca de passes na entrada da área, o atacante Sigthórsson achou espaço para bater e contou com a ajuda do goleiro inglês para virar o jogo. A partir de então, a Islândia se fechou e conseguiu garantir a vitória e a vaga inédita para as quartas de final contra a França.

Islandeses comemoram a vitória sobre a Inglaterra nas oitavas da Eurocopa (Imagem: Tibor Illyes/EFE)

Desta vez o conto de fadas do time comandado por Lars Lagerbäck chegava ao fim. Os donos da casa foram impiedosos e logo no primeiro tempo abriram uma enorme vantagem de 4 a 0 com gols de Giroud, Pogba, Payet e Griezmann. No segundo tempo a Islândia ainda buscou uma reação, mas os dois gols marcados por Sigthórsson e Bjarnason não foram suficientes e a França ainda marcou mais um com Giroud e avançou para as semifinais.

A partir de então a seleção islandesa passou a ser mais reconhecida e respeitada no mundo futebolístico. Assim, a classificação para a Copa do Mundo da Rússia, após terminar em primeiro em seu grupo nas eliminatórias na frente de seleções tradicionais como Croácia, Ucrânia e Turquia não foi nenhuma surpresa, e sim uma confirmação de que o ocorrido, dois anos antes, não havia sido por acaso.

Time e principais jogadores

Seleção islandesa após conquistar a vaga para a Copa do Mundo da Rússia (Imagem: Reprodução/KSI)

A Islândia não possui nenhum time de futebol profissional sendo que todos os atletas que atuam no país são semi-profissionais. Os clubes fornecem uma ajuda de custo para os jogadores, mas esse custeio não é suficiente para os jogadores sobreviverem. A solução para muitos deles são outros empregos além do futebol ou ir jogar em outros países.

Como a Islândia entrou contra a Argentina (Imagem: LineupBuilder)

A principal referência do time comandado pelo técnico (que também é dentista)  Heimir Hallgrímsson é Gylfi Sigurdsson, meia do Everton, da Inglaterra, que foi o jogador com mais gols e mais assistências durante as eliminatórias européias. Outros destaques são o capitão Aron Gunnarson, os meias Bjarnason e Gudmunsson e o atacante Finnbogason.

Taticamente, a Islândia costuma jogar com duas linhas de quatro e dois atacantes, mas muitas vezes acabou jogando com um atacante e um meia mais avançado. Os jogadores convocados costumam ser sempre os mesmos, e às vezes há dificuldade em se reunir 23 jogadores. Como as peças de confiança não são muitas, a preocupação com lesões é grande, sendo que as contusões de Gilfy Sigurdsson e Finnbogason no começo do ano assustaram os torcedores.

A defesa, apesar de mais velha, não possui experiência no futebol internacional e não inspira muita confiança, e o ataque se destaca nas jogadas pelas pontas com Bjarnason e Gudmunsson e na armação de Gylfi Sigurdsson. Ainda assim, não se pode dizer que a Islândia é um time ofensivo, pois seu jogo é mais pautado nas jogadas de bola parada e em cruzamentos pelas laterais. Não é o time com o futebol mais bonito, mas são aplicados taticamente e sabem aproveitar as oportunidades que surgem.

Torcida

O maior destaque é a torcida engajada, onde muitos até choram ao falar sobre o orgulho que eles estão sentindo da estreia de seu país na Copa do Mundo. Na Eurocopa de 2016, 10% da população viajou para a França (o país anfitrião) para acompanhar sua seleção, ficando mundialmente famosos por chamarem atenção nas arquibancadas, com uma coreografia especial, a execução emocionada do hino nacional e o grito de guerra viking “hu!”. O estilo dos fãs do futebol no país virou febre, chegando a ser copiado por outras torcidas mundo afora, contribuindo até para aumentar o interesse turístico pela Islândia.

Torcida islandesa celebra com seu time durante a Eurocopa (Imagem: Reprodução/Globoesporte)

Segundo dados da FIFA, foram solicitados 66 mil ingressos na Islândia, representando ao todo, 20% da população do país. Os dois últimos amistosos da seleção islandesa foram em  Reykjavik, no maior estádio do país, que possui 15 mil assentos. Desde 2013, todos os jogos que aconteceram naquele estádio da seleção islandesa tiveram os ingressos completamente vendidos em poucas semanas.

O que esperar?

Não só a Islândia, como todo o grupo D (formado por Argentina, Croácia, Islândia e Nigéria) pode nos surpreender nos jogos. O Arquibancada conversou com Carina Ávila, correspondente do SporTV na Islândia, que disse que a seleção não é favorita para passar a fase grupo, mesmo assim a chances ainda são altas: “O que dá a esperança é que ano passado, nas Eliminatórias da Copa, a Islândia também estava no grupo da Croácia, mesmo assim foi a líder, na frente da Croácia e das outras seleções, se classificando direto para a Copa do Mundo, enquanto a Croácia foi para a repescagem. É um time que nunca é favorito, não tem jogadores de alto nível, mas que surpreende muito”.

“Na Eurocopa, chegou como estreante, ninguém esperava nada, foi tida como a seleção mais fraca do campeonato mas passou invicta pela fase de grupos e inesperadamente empatou com Portugal de Cristiano Ronaldo, depois eliminou a Inglaterra nas oitavas de final. E porque também, teoricamente, os times mais fortes do grupo D são Argentina e Croácia. A Croácia ficou atrás da Islândia e teve que passar pela repescagem, e a Argentina não tá bem”, completou.

O empate de hoje com a Argentina só comprova o sucesso do projeto futebolístico islandês. A equipe utilizou seu jogo físico e a aplicação tática para se defender muito bem, e soube aproveitar os vacilos da defesa argentina. Os 330 mil islandeses com certeza vão dormir muito felizes com o desempenho do time hoje, e ainda mais esperançosos com uma possível classificação para as oitavas-de-final da Copa do Mundo.

Arquibancada
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