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Jesus de Nazaré: O Filho de Deus peca pela edição e roteiro conturbados, em detrimento da mensagem de Cristo
CINÉFILOS
18 abr 2019 | Por Cinéfilos

Por Matheus Zanin
matheuszanin@usp.br

Histórias bíblicas sempre estiveram presentes no mercado audiovisual. Desde o icônico Ben-Hur (1956) até o famoso A Paixão de Cristo (The Passion of The Christ, 2004), o cinema ofereceu diversas versões para a trajetória de Jesus Cristo. Por isso, é difícil imaginar o que Jesus de Nazaré: O Filho de Deus (Jesús de Nazareth, 2017) apresenta de diferente para justificar sua existência. Lançado no Brasil com 2 anos de atraso em relação à estreia espanhola, o longa aborda os últimos momentos da vida de Cristo, interpretado pelo argentino Julián Gil.

Julián Gil interpreta Jesus Cristo [Imagem: Cinépolis]

Com um roteiro problemático, para não dizer preguiçoso, o filme falha ao não estabelecer uma noção de temporalidade precisa, que por sua vez é necessária já que são retratados eventos históricos. Passam-se longos minutos de cenas aleatórias — haja vista a dificuldade do roteiro em estabelecer continuidade entre os acontecimentos principais da trama —, acompanhadas por efeitos excessivos de fade in e fade out (cortes lentos e suaves que evitam uma transição abrupta entre as cenas) a cada 30 segundos.

Os milagres de Jesus, que representam 80% da obra, são abordados de modo medíocre: parece que, durante o processo de elaboração do roteiro, os escritores imaginaram que seria cabível representá-los vagamente. Mais uma vez, o problema de continuidade. Em uma cena, testemunha-se a ressurreição de Lázaro, a qual é interrompida por outro milagre (momentos depois, talvez?). Em seguida, retorna-se à ressurreição. Mais um milagre. Fade out. Outro milagre. E o longa mantém o mesmo ritmo por uma hora. Não há conexão entre os eventos que vemos em tela, estes são apenas “lançados” para o telespectador.

Buscando tentativas de manter alguma linearidade, a película utiliza, ao longo das cenas, um tom expositivo conferido por um narrador onipresente. Em uma passagem, a personagem de Julián Gil, ao demonstrar evidente preocupação em seu rosto, é interrompida pelo narrador que diz algo como: “Jesus Cristo estava preocupado”. Logo, o roteiro duvida da capacidade de compreensão do telespectador, assumindo um teor quase didático.

Além do problema de edição, a obra falha na questão da representatividade. Apesar de integrar um elenco latino composto por atores de diferentes países, tais como Argentina, Brasil, México, Venezuela e Colômbia, a maioria deles é branco, o que contradiz a fidelidade à época e ao ambiente no qual a história se passa. Maria de Nazaré, interpretada pela atriz mexicana Mayrín Villanueva, por exemplo, ao aparecer em cena pela primeira vez, parece que acabara de ter saído de um cabeleireiro. Não obstante, o filme perdeu uma grande oportunidade de diferenciar-se de adaptações anteriores escalando um ator negro, semelhante, de fato, aos judeus do século I.

As qualidades do longa, apesar das questões abordadas acima, são perceptíveis. O diretor, Rafael Lara, faz um belíssimo trabalho ao destacar as paisagens que remetem ao Oriente Médio, acompanhado por uma fotografia neutra, que realça os tons beges do cenário. O figurino das personagens, histórico, também merece destaque. No mais, as atuações são satisfatórias, os atores cumprem bem seu papel, sem grandes destaques. Infelizmente, nem todos as personagens recebem considerável participação em tela, o que dificulta o processo de avaliação. Algumas desaparecem misteriosamente da trama e nunca mais retornam.

O cenário e artefatos utilizados no filme são suas poucas qualidades enquanto obra cinematográfica [Imagem: Europa Filmes]

Por fim, resta o sentimento de dúvida. De fato, a edição e o roteiro são os principais vilões do enredo, e não a figura encapuzada de Satanás — muito semelhante à Morte do filme O Sétimo Selo (Det sjunde inseglet, 1956) —, interpretada por Juan Carlos Montes. Parece que há muito mais material do que de fato acabou ficando na versão final.

A mensagem de Cristo permanece, porém, sob defeitos excessivos. Os interessados deverão gostar da adaptação. Aqueles que assistiram às inúmeras outras, contudo, notarão a inferioridade desta: um pecado por si só.

O longa tem estreia prevista para 18 de abril de 2019. Confira o trailer:

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O Cinéfilos é o núcleo da Jornalismo Júnior voltado à sétima arte. Desde 2008, produzimos críticas, coberturas e reportagens que vão do cinema mainstream ao circuito alternativo.
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