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Judô Brasileiro: 15 anos de uma vitória que ficou para história
ARQUIBANCADA
10 set 2020 | Por Giulia Portelinha (giuliaportelinha@usp.br) e Vinícius Byczkowski (viniciusbyczkowski@usp.br)

No dia 10 de setembro de 2005, o gaúcho João Derly se tornou o primeiro brasileiro a conquistar um campeonato mundial de judô. O judoca derrotou o japonês Masato Uchishiba, que era favorito e havia ganhado os Jogos Olímpicos de 2004 da categoria meio-leve (até 66 kg). 

“Foi quando grandes nomes do judô japonês e mundial estavam dando dicas ao Masato e, no jogo psicológico que o esporte cria, eu pensei: ele ficará nervoso, está com toda pressão. Entrei leve e pude vencer.” 

As regras do judô

O judô é um estilo de luta japonesa inspirado no jiu-jitsu, mas possui uma filosofia diferente. “Ju” significa suavidade, gentileza, e “dô”, caminho. Pode-se dizer, portanto, que o judô segue o caminho da gentileza, ou seja, não é uma contradição afirmar que é uma luta não violenta e um meio para o aperfeiçoamento do indivíduo. Foi com essas ideias em mente que  o professor, ou como diriam os judocas sensei, Jigoro Kano propôs no ano de 1882 uma arte marcial que prezasse tanto pela força física quanto pelo treinamento intelectual e valores morais.

O principal objetivo do judô é realizar um ippon, isto é, derrubar com velocidade e força o oponente de forma com que caia perfeitamente de costas no tatame (tapete quadrado onde a luta acontece). Um ippon é a pontuação máxima e finaliza a luta, enquanto outros golpes possuem menor valor. Caso nenhum participante consiga um ippon dentro de cinco minutos, o tempo máximo da luta, o vencedor será aquele cujos pontos se sobrepõem.

A carreira do campeão

João Derly de Oliveira Nunes Júnior nasceu no dia 2 de junho de 1981 em Porto Alegre (RS). É filho de Vera Lúcia Nunes e João Derly de Oliveira Nunes. “Eu nasci em uma família humilde então tive que vender rifa, pizza, meio frango para seguir meu sonho”, confessa o lutador. Era uma criança elétrica, mas asmática. Seguindo indicações médicas, começou a praticar judô com seis anos na escola.  “Meu primeiro quimono foi presente de uma tia. Enfim, muitas dificuldades, mas que foram essenciais para me formar como atleta e cidadão”.

 Antônio Carlos Pereira, mais conhecido como Kiko, foi o instrutor de João e o acompanhou até o final de sua carreira. Hoje, o nome Kiko tornou-se referência no judô nacional depois de levar a modalidade da Sociedade de Ginástica Porto Alegre (SOGIPA) para o mundo. Foi para lá que Derly transferiu-se depois de um ano e continuou o treinamento. 

Desde o começo, via-se que o jovem tinha um futuro promissor. Já em 1991, conquistou o título brasileiro aos 10 anos. Meia década depois, estaria lutando com adversários bem mais velhos do que ele. Com apenas 15 anos foi campeão brasileiro na categoria adulta. 

Estava claro que o Brasil era pequeno demais para o judoca. Assim, em 1998, viajou até a Itália, onde ganhou mais um ouro no Torneio de Tre Torri. Dois anos depois, conquistou outro título fora do país, o Campeonato Mundial Júnior (sub-20) que aconteceu em Nabeul, na Tunísia. Lá subiu ao pódio para receber a medalha de ouro na categoria Ligeiro (até 60 kg). 

Por volta dessa época, o judoca passou a se dedicar mais ainda ao esporte e, em 2001, entrou no Campeonato Mundial Adulto que aconteceu em Munique. Seguindo um histórico de azar brasileiro em solo alemão no judô, João terminou com o número 7 na classificação. 

Ainda nesse cenário, ele não obteve um bom resultado nos Jogos Pan-Americanos de Santo Domingo, na República Dominicana. Mas isso fez com que tomasse uma importante decisão em sua vida. Passou da categoria Ligeiro para Meio-Leve (até 66 quilos). 

A princípio, Derly teve dificuldades de se adaptar à nova categoria. Em 2004, falhou em conseguir a classificação para os Jogos Olímpicos de Atenas. Mas ele não desistiu do quimono: treinou, ficou mais forte e conseguiu classificar-se para o mundial do Cairo. “Era uma rotina dura, mas até então não havia possibilidade de viver apenas do esporte. Até que veio 2005. Essa conquista mudou tudo.”

 

A luta

No mundial, João Derly entrou como azarão. Após não ter se classificado para as Olimpíadas de 2004, as atenções estavam nos lutadores mais famosos como o campeão olímpico e finalista Masato Uchishiba, o húngaro Miklós Ungvári, multimedalhista da categoria, e o bicampeão mundial iraniano, Arash Miresmaeili. 

A luta entre Derly e Uchishiba, porém, durou menos de um minuto. “Foi tudo muito rápido, ela teve 42 segundos apenas e até hoje me emociona”, disse ao Arquibancada. O judoca brasileiro se mostrou muito concentrado desde o primeiro momento em que entrou no tatame e foi capaz de aplicar um koka, que é quando o adversário cai sentado, ainda nos primeiros segundos. 

Logo depois, Derly aplicou um ippon e finalizou a luta. “Eu lembro do pós, quando veio um filme na cabeça, de todas as renúncias, dos esforços dos meus pais e irmãos para chegar até ali, do empenho do meu técnico, dos meus companheiros de judô já que, sem eles, jamais chegaria lá. É uma sensação indescritível!”

E assim, há exatamente 15 anos, João Derly vibrou junto com o Brasil quando subiu ao pódio para receber o primeiro ouro do país no mundial de judô. 

Depois disso, ganhou reconhecimento e deslanchou em uma onda de vitórias, terminando em primeiro lugar no Grand Slam de Paris e se tornando bicampeão mundial em 2007. 

Devido às lesões, o atleta precisou se aposentar em 2012, se dedicando a outros projetos na política. Porém, ainda hoje Derly é lembrado como um dos melhores judocas que já competiram pelo Brasil.

João Derly

João Derly no Mundial de 2005, no Cairo, Egito [Imagem: Confederação Brasileira de Judô]

O judô nacional depois do ouro

A vitória de João Derly ajudou a abrir as portas para as outras glórias do judô brasileiro. O ouro chamou a atenção para a modalidade e atraiu os olhares de investidores, o que possibilitou a profissionalização da prática no país. Assim que voltou do Egito, Derly assinou contratos de patrocínios tanto pessoais quanto ligados à Sogipa, equipe do judoca. “Tínhamos assinado um contrato de patrocínio com uma empresa estatal antes da disputa do mundial, mas sequer haviam entrado os recursos para CBJ e atletas. Só com a exposição de mídia da semana, que a minha medalha trouxe, todo ele já estava pago”, conta.

Os resultados dos investimentos vieram em forma de títulos: desde 2005, o Brasil acumulou 32 medalhas em mundiais, sendo campeão seis vezes, e outras dez medalhas olímpicas, sendo duas de ouro.

“Sou muito grato por tudo, o aprendizado vindo dos treinos, desta arte marcial maravilhosa, das vitórias e derrotas, por tudo e principalmente a Deus por ter me abençoado tanto.”

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