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Julieta: Esse estranho ato do desapego
CINÉFILOS
01 jul 2016 | Por Jornalismo Júnior

por Pedro Graminha
graminhaph@gmail.com

Poucos artistas conseguem desenvolver traços que deem autenticidade a suas obras, tornando-as reconhecíveis com um único olhar. Pedro Almodóvar conseguiu isso. Sua marca autoral vibra em todos os seus filmes, em cada quadro – temática e esteticamente – sendo dono de uma paleta de cores inconfundível que flerta com tons primários e de roteiros assinados que recorrentemente voltam nos mesmos assuntos: A questão de gênero, a sexualidade e as relações maternais. Além, claro, das personagens femininas fortes e bem construídas.

Muitos desses aspectos estão presentes em Julieta (Julieta, 2016), filme baseado em três contos da escritora canadense Alice Munro, Destino, Pontos e Silêncio, sendo este último o título originariamente pensado para o longa, porém, para evitar transtornos com o novo filme de Martin Scorsese, Silence, Almodóvar deu ao seu novo filme o nome de sua protagonista. julieta 1 No inicio do filme vemos Julieta (Emma Suarez), já uma mulher madura, envolta em uma veste vermelha que logo salta aos olhos; percebemos ter diante de nós uma mulher elegante, culta – ao ponto de se questionar qual de seus muitos livros levará na viagem que está prestes a fazer com seu namorado, Lorenzo (Dário Grandinéti). Porém, dentro daquele semblante de firmeza, existe uma mágoa e um ressentimento muito fortes, que a abalam profundamente, por mais que tente esconder.

Toda a firmeza de Julieta vai para os ares ao se encontrar com uma amiga de infância de sua filha Antía. No meio da conversa, a amiga relata um encontro que teve com a filha da protagonista, agora uma mãe com três filhos. Acontece que Julieta não sabia nada daquilo. Por 12 anos não recebera qualquer notícias de sua filha que, inexplicavelmente, decidira apagar a mãe de sua vida. A partir deste instante, todas as memórias que Julieta lutara tanto para conter, afloraram violentamente em seu peito.

Julieta empreende um gradual retorno ao seu passado, ao tempo em que ainda tinha a filha perto de si, mudando-se novamente ao prédio em que ainda moravam juntas, na vã esperança de que esta pudesse tentar algum contato com ela, e retomando as memórias da sua juventude, em uma espécie de carta confessional para Antía (ou seria para ela mesma?). A partir daí, o longa abordará os temas da culpa, do destino e, principalmente, dessa estranheza no ato de nos desapegarmos tão facilmente das pessoas que amamos, como se nunca houvéssemos sentido nada.

A personagem é interpretada por duas atrizes: Quando mais jovem, por Adriana Ugarte, e posteriormente por Emma Suarez. As atrizes não representam a personagem apenas em idades diferentes, mas sim em estados psicológicos distintos. A cena em que as atrizes trocam os papeis na história a ser contada é genial e marcante, salta aos olhos no meio do longa. julieta 2 O filme ainda nos mostra que mesmo entre pessoas tão próximas umas das outras, existe uma longa e impalpável camada que as separa. Sentimos tocar o outro mas nos enganamos. Julieta julgava conhecer sua filha e se enganara. Não sabia o que se passava com ela verdadeiramente. Assim como a ninfa Calipso oferecera a Ulisses a imortalidade – como dito em certo momento do filme – Julieta oferecera tudo o que tinha à filha. Mas esta, assim como o herói grego, escolhera o desconhecido, talvez para livrar-se de um sufoco que escondia da mãe, para procurar sua Ítaca em algum outro lugar.

Julieta também guardava seus segredos, mantinha-se distanciada até mesmo do homem que a ama, Lorenzo, que nem sequer sabia da existência de Antía e da longa penúria enfrentada por sua amada. julieta 3 E essa mesma distancia permite que julguemos as escolhas feitas pelos outros? Não se trata aqui de jogar pedras em Antía, mas de perceber que todas as personagens – e todas as pessoas – têm a sua parcela de egoísmo, talvez a maior de suas intimidades. Todos sofrem, todos tem o que merecem, seja obra do destino ou não.

Julieta é um dos melhores filmes de Pedro Almodóvar. É sóbrio, profundo e tocante, apresentando uma personagem feminina complexa (brilhantemente encarnada pelas duas atrizes) cuja maior força talvez esteja em seus sentimentos. Um filme poderoso, que mantém todos os traços que fizeram do diretor espanhol um dos maiores nomes do cinema contemporâneo.

O filme estreia no dia 7 de julho. Confira o trailer:

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O Cinéfilos é o núcleo da Jornalismo Júnior voltado à sétima arte. Desde 2008, produzimos críticas, coberturas e reportagens que vão do cinema mainstream ao circuito alternativo.
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