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Justiça ou chatice? Entenda o árbitro de vídeo no futebol
ARQUIBANCADA
06 jun 2018 | Por Jornalismo Júnior

Por César Costa

Já ouviu falar do polêmico VAR? Sigla, em inglês, de Video Assistant Referee, que seria algo próximo de ‘Árbitro Assistente de Vídeo’. A ideia de auxiliar a arbitragem com a tecnologia dá a impressão de ser simples, mas o esporte mais popular do mundo parece ter alguns preconceitos, justos ou não, com a entrada desse recurso. Neste texto do Arquibancada, vamos justamente desmistificar preconceitos existentes sobre o VAR, positivos ou não, e explicamos exatamente como seria sua atuação no Brasil e no mundo.

Frente a frente com a tecnologia: será que no futebol vai? (Imagem: Getty Images)

Como funciona o VAR?

Para deixar claro, a tecnologia já foi usada em outras ocasiões no esporte, mas não durante sua prática. Para julgamentos de expulsões, por exemplo, é muito comum utilizar as imagens das transmissões televisivas para a definição de penas pelos tribunais esportivos.

É importantíssimo ressaltar que a utilização do VAR não será (e não é!) feita de qualquer maneira. A equipe responsável por esse recurso deve ser formada por três pessoas: um árbitro profissional, aposentado ou não, um auxiliar e alguém responsável pelos replays. A Fifa, entidade responsável pela organização de competições profissionais de futebol, também definiu quatro momentos específicos para a sua utilização:

  • GolsEm situações de bola na rede, cabe ao VAR analisar a jogada e ver se não houve nenhuma infração;
  • PenalidadesPênaltis sempre causam polêmicas, é do jogo. E por oferecerem uma clara chance de fazer o gol, são um tipo de infração extraordinária no futebol. Para marcá-los – ou não –, o árbitro de vídeo poderá auxiliar na decisão do árbitro principal;
  • Cartões vermelhos diretos: Para evitar enganos, o juiz terá o auxílio das imagens para a interpretação de faltas. Pode ser tanto por recomendação dos árbitros de vídeo quanto por solicitação do próprio juiz responsável da partida;
  • Erros de identificação: A última função do VAR seria cuidar de enganos de jogadores. Assim, se o árbitro, por algum motivo, punisse o jogador errado (o que não cometeu a infração), ele poderia voltar atrás e aplicar a punição corretamente.

(Imagem: Shizuo Kambayashi/AP Photo)

O uso ocorre em três etapas. Primeiro, uma das quatro situações acontece: um gol duvidoso, uma possível penalidade, uma situação de expulsão ou dúvida na identificação do atleta. Em segundo lugar, o juiz pode decidir pedir o auxílio do VAR ou o próprio VAR avisa ao juiz sobre alguma irregularidade. Por último, o árbitro principal pode tomar três atitudes: aceitar o conselho do árbitro de vídeo, rever o lance por conta própria ou manter a decisão tomada anteriormente.

Inicialmente, esses seriam os primeiros usos. O VAR segue sendo uma opinião a mais, a decisão final ainda é do juiz. Mais para frente, a regra ainda pode ser alterada, assim como várias outras já foram no futebol. A questão que muitos colocam em discussão: é realmente necessário esse novo recurso?

A prática do VAR no mundo

No Calcio, o VAR já virou rotina (Imagem: Alberto Pizzoli/AFP)

Vale lembrar que são bem recentes as regras existentes sobre o uso da tecnologia. A IFAB (International Football Association Board), entidade responsável pelas regras do futebol, estabeleceu apenas em março de 2018 a oficialização sobre o uso do VAR. Então, muito do que está sendo feito ainda são testes.

Algumas das principais competições do mundo estão usando o recurso, entre elas a Bundesliga (campeonato alemão), MLS (campeonato estadunidense), Serie A TIM (campeonato italiano), Primeira Liga (campeonato português), Copa das Confederações e, como teste, o Mundial de Clubes, sendo os últimos dois competições organizadas exclusivamente pela Fifa.

De acordo com um levantamento feito pela IFAB, este que vem sendo montado desde março de 2016, houve mudanças significativas com uso do recurso de vídeo. Numa amostra de 804 jogos de mais de 20 competições diferentes, vários dados relevantes foram colocados na discussão:

  • Em média, há uma decisão a cada 3 partidas que é considerada um erro “claro e óbvio” e que podia ser corrigido. Com o VAR, passa a ser uma decisão desse tipo a cada 20 partidas;
  • Enquanto a porcentagem de acertos de uma arbitragem sem o VAR é de 93%, com ele é de 98,9%;
  • O VAR teve impacto decisivo em 8% das partidas, influenciando diretamente no resultado final e legitimando-o.

Em termos de tempo:

  • O recurso foi utilizado, em média, menos de 5 vezes por partida;
  • O tempo médio de checagem do VAR é de 20 segundos. No entanto, quando o juiz decide rever o lance, esse tempo sobe para aproximadamente 70 segundos;
  • Em 68,8% dos jogos não houve replays;
  • O tempo gasto pelo VAR representa menos de 1% do tempo total de jogo.

Com esses dados, alguns mitos criados sobre o auxiliar de vídeo ficaram sem embasamento. Um dos argumentos contra o recurso é justamente a perda de tempo, não só pelos minutos perdidos em si, mas também por “esfriar” o jogo e favorecer algum time. Porém, é praticamente insignificante perto de outras situações do próprio futebol que prejudicam ainda mais o andamento da partida.

No Brasil, as disparidades de opiniões continuam presentes. A utilização, ou não, é uma incógnita grande e isso foi visto na primeira tentativa de implementação do árbitro de vídeo.

Vai ter VAR no Brasil?

Árbitro de vídeo sendo utilizado na final do Campeonato Pernambucano de 2017. Por enquanto exceção, não regra (Imagem: Fernando Torres/Divulgação CBF)

Como sempre, no Brasil, nem tudo é tão simples. A adoção do VAR foi cogitada para esta temporada de 2018 no Brasileirão, porém, os clubes da Série A e a Confederação Brasileira de Futebol (CBF), responsável pela organização do campeonato, não chegaram a um acordo, e o uso do recurso foi vetado.

O veto teve dois motivos: o da questão financeira e o momento que seria aplicado. Primeiramente, quanto aos entraves financeiros, a CBF não se dispôs a arcar com os custos da implementação da tecnologia, algo orçado por ela em R$ 1 milhão para cada time (R$ 20 milhões no total somando todos), fazendo com que os clubes desembolsem algo entre R$ 40 mil e R$ 50 mil por partida.

O valor é muito alto ao se comparar com outras ligas no mundo: no Campeonato Italiano, o custo é próximo de R$ 24 mil por jogo; o Campeonato Português tem um dos investimentos mais baratos nessa tecnologia e gasta R$ 7,5 mil por jogo – e quem banca neste caso é a própria Federação Portuguesa. Essa diferença de preço do Brasil para a Europa se dá, de acordo com o jornal AS, da Espanha, devido ao custo do uso da fibra óptica. O fato do Brasil ter dimensões gigantescas comparado com Itália e Portugal (8.515.770 km² contra 301.338 km² e 92.212 km², respectivamente), além de não dispor de uma infraestrutura suficientemente boa como suporte, faz com que seja muito mais caro o uso desta tecnologia.

Em segundo lugar, quanto ao momento de sua implementação, os clubes argumentaram que, se fosse para utilizar da tecnologia, deveria ser usada em todos os jogos desde o primeiro, e não apenas após a realização da Copa do Mundo como a CBF sugeriu.  

A votação que decidiu o não uso foi feita entre os 20 times do Campeonato Brasileiro da primeira divisão, em reunião do Conselho Técnico da competição, realizada no dia 5 de fevereiro. 12 votaram contra o uso e 7 votaram a favor, com uma abstenção. A diferença não foi gritante e as declarações dos dirigentes ao site globoesporte.com mostram como há argumento para defender ou não o uso do VAR já em 2018.

“O Bahia foi favorável mesmo que tivesse que pagar por isso, mesmo que houvesse um custo alto. A gente defendeu o modelo, porque o prejuízo mesmo acontece quando há um erro contra o clube ou contra o futebol”, disse o presidente do Bahia, Guilherme Bellintani.

Já o presidente do Vasco, Alexandre Campello, tem outro ponto de vista: “Vetar foi uma decisão da maioria, pelo custo elevados para os clubes. Para cada clube, (o árbitro de vídeo) custaria R$ 500 mil apenas para o segundo turno, ou R$ 1 milhão para o campeonato inteiro. Decidimos esperar a observação na Copa do Mundo e talvez implantar no Brasileiro do ano que vem”.

Por mais que não tenha o uso do recurso no Brasileiro, uma competição no Brasil irá adotá-lo. A Copa do Brasil de 2018 começará a usar o VAR a partir das quartas de final da competição, com o custo total bancado pela CBF.

Opinião de quem é da área

Árbitros Massimo Busacca, à esquerda, e Marcelo Rogério, à direita (Imagem: Wikipedia e Cesar Greco/Fotoarena)

O ex-árbitro da FPF (Federação Paulista de Futebol), Marcelo Rogério, já chegou a apitar um Corinthians e Palmeiras no Campeonato Paulista de 2012. Atualmente é analista de vídeo da Federação e ainda atua como instrutor de árbitros. Em entrevista concedida para Pedro Ramiro, da Gazeta AM, o especialista deixou clara sua posição: “Sou extremamente a favor do árbitro de vídeo. (…) O árbitro de vídeo ajudaria a arbitragem, no caso, o árbitro, pontuando em situações em que legitimaria um resultado. Tipo, um pênalti mal marcado, agressões, em situações pontuais de extrema relevância para legitimar uma partida de futebol.”

Ele ainda falou sobre a questão da interferência na dinâmica da partida: “Não atrapalharia o andamento porque você só poderia consultá-lo na paralisação da partida. O jogo não seria interrompido.”

Ainda com uma opinião semelhante, o suiço Massimo Busacca, ex-árbitro que atuou por 15 anos e atualmente é diretor de arbitragem da Fifa, fez praticamente um apelo pelo uso do VAR: “Peço que nos deixem usar o VAR nestes momentos (os estabelecidos pelas novas regras) (…) Nossas carreiras e nossas vidas têm que mudar, tem que ser mais justas”.

“Um jogador pode ser muito ruim durante 89 minutos, aí ele marca um gol e de repente é um herói. Um árbitro pode ser o melhor do mundo durante 89 minutos, aí comete um erro e é assassinado”, disse em entrevista concedida para a Reuters.

Copa da Rússia 2018: haverá VAR?

O árbitro Nelson Pitada aguardando o veredito do VAR durante a Copa das Confederações de 2018 (Imagem: Franck Fife/AFP)

Sim. Já foi estabelecido pela Fifa que o recurso de vídeo será usado em todos os jogos da Copa do Mundo. De acordo com o presidente da entidade, Gianni Infantino, pelos testes já feitos e pelos dados já recebidos, era imprescindível o uso nesta edição: “A Fifa, quando tomou essa decisão, foi unânime, o conselho já havia tomado essa decisão. Hoje novamente em unanimidade. Não tomamos essa decisão acordando hoje pela manhã. Estamos realmente estudando isso, eu acho que eu talvez tenha sido o mais cético de tudo. Sem provar, não saberíamos como ia funcionar. Fizemos experimentos”, disse em uma coletiva de imprensa oficial da Fifa em Bogotá, no dia 16 de março.

Ele ainda completa com argumentos semelhantes apresentados pelos árbitros aqui entrevistados: “É uma ajuda de verdade ao árbitro. Vamos ter um futebol mais transparente e mais justo. É o que queremos. O árbitro pode cometer erros, como todos. Se pudermos ajudá-los, é algo bom para o futebol.”

 

 

Arquibancada
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