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Lanterninhas: os seguranças da sétima arte
CINÉFILOS
17 out 2020 | Por Pedro Guilherme Costa (pedro.massa@usp.br)

Minha história de lanterninha 

Há alguns anos popularizou-se uma matéria sobre um pepino encontrado após uma sessão de 50 Tons Mais Escuros (Fifty Shades Darker, 2017), na Austrália. Esse acontecimento faz relembrar uma grande figura do cinema: o lanterninha. Quase invisível hoje em dia, esse profissional é, no entanto, o ator e atriz que mais entrou em cena na sétima arte. Muito além de uma profissão, é também um espírito. Conto agora minha relação com ele.

Era a estreia de Capitã Marvel. Minha namorada na época, amando toda a carga que o filme representava para ela, não ia deixar que o casal na nossa frente continuasse com os sons estridentes que com certeza não faziam parte daquele filme, talvez de um erótico. Encarnando o espírito do lanterninha, ela decidiu por si só combater a maior instituição dos cinemas, o ruído. Eu ficava pálido e ela falava que finalmente tinha a conhecido naquele dia, enquanto o casal ia embora.

A nostalgia alheia de tempos antigos finalmente se instaurou naquela cena e eu pude me perguntar: onde está a clássica figura do lanterninha? Com esse choque entre temporalidades percebi que o uma vez segurança da sétima arte deixava um vazio. Mas a verdade é que ele está sempre lá, direta ou indiretamente. Essa matéria do Cinéfilos vai embarcar nesse paralelo entre histórias presentes e passadas da profissão.

 

Confusões além da tela

O moderno “lanterninha” de cinema se apaga atrás de grandes símbolos dos blockbusters. [Imagem:Foto por Rashid Sadykov/Unsplash]

Com a trágica quase extinção do cinema de rua, substituído pelos grandes multiplex, os cinemas de shopping, o que estava no antigo teve que se adaptar ao novo. É nesse momento que o lanterninha possui um desafio: ressuscitar.

Entrando no quarto escuro do velho projetor,  vendo as cortinas fecharem, ele é convidado a despir-se do vestuário da belle époque cinematográfica. Observa lentamente o traje vermelho com ornamentos dourados desvanecer e teme seu próprio desvanecimento, quando é puxado novamente para o claro, mas está multifacetado.

É assim que o lanterninha sobrevive: flexibilizado. Ao trabalhar em um multiplex, Aline Caroline conta como não podemos simplesmente imaginar o lanterninha como íntegro de somente uma função atualmente. Nesse sentido, ela diz: “normalmente quem trabalha em cinema não tem só uma função”, ao contar como foi contratada para bombonière mas teve que aprender a bilheteria, portaria e cuidar das salas durante os filmes.

No entanto, um elemento une o fantasma vermelho (do cinema) com sua fragmentação moderna: a característica do guardião não se perdeu. Imagino os contos que grandes guardiões da mitologia tinham para contar. O que já tentou passar por Heimdall para chegar a Asgard ou por Cerberus para chegar a Hades. Porém, tive a sorte de ouvir os guardiões de uma outra mitologia, a cinematográfica.

Começando pelos modernos, Aline compartilha as histórias peculiares que lhe ocorreram no trabalho. Na tendência do motel-cinema, ela conta: “sexo quase todo dia pegávamos” e que os funcionários faziam sorteio para ver quem iria limpar a sala das grandes estreias de terror. O que chama a atenção (alerta de quebra da inocência!) é saber que muitas vezes os casais iam para salas com filmes infantis, já que estas geralmente possuem menor movimento.

É 1975, Tubarão (Jaws) de Steven Spielberg estreia nos cinemas e consagra-se como o pai dos blockbusters, ou “arrasa-quarteirão” no Brasil. Nesta volta no tempo, lanterninhas correm para lidar com os lugares não marcados na festa escura dos degraus não iluminados. Desde então, outros longas com grande apelo comercial para as massas se instauraram, enquanto os grandes organizadores do público iam embora. Mas parcialmente.

Em 2019, Vingadores: Ultimato (Avengers, Endgame) torna-se o maior blockbuster da indústria cinematográfica. Em meio a brigas por conta de pessoas que davam spoilers, muitos lanterninhas também viram um embate nesta nova perspectiva de “arrasa-quarteirão”, mas contra a flexibilização. Aline revezava entre limpar 10 salas, controlar acesso e atender na bilheteria. Esse panorama evidencia a evolução na capacidade de público da sétima arte, mas a involução das condições de trabalho.

 

A Era de Ouro

Os tradicionais ushers, nome do profissional na língua inglesa, trajados em frente ao Teatro Kentucky. [Imagem: Arquivos da Universidade de Kentucky]

Todo fantasma um dia já teve sua forma corpórea. O corpo do lanterninha viveu em meio ao glamour da sétima arte. Mas não só desta, estendia sua existência para a quinta arte, o teatro, antes de transmutar-se e deixar só alguns exemplos originais, beirando a extinção. O meteoro só não chegou para esses remanescentes por uma questão de preservação do clássico, perante os custos crescentes que visam por um profissional, como dito anteriormente, flexibilizado.

Tão extinto que tornou-se difícil encontrar um fio condutor que me levasse a um como era conhecido por boa parte do século passado, no auge dos sonhos hollywoodianos. Porém, é possível reconstruí-lo de outra forma: pela nostalgia. Com a onda crescente de cinemas drive-in, a memória cinematográfica sentimental dos Baby boomers e da Geração X despertou. Com lembranças dessa época, os observados descrevem o observador.

Ilza Viegas, amante de longa data da sétima arte, assistia aos filmes desde a época de O Gordo e o Magro (Laurel and Hardy) e ainda possui uma visão clara dessa figura trajada, mesmo no escuro: “quando chegava no cinema e o filme já estava passando era um breu, então o lanterninha ia com a gente, nos guiando até o lugar vazio para sentar”.

Imagine em meio à escuridão, iluminada somente por uma lanterna, ver um rei, ainda sem coroa? Os visitantes do Loew’s State Theatre, em Memphis, Estados Unidos, poderiam se deparar com Elvis Aaron Presley os levando para seus lugares, os guiando até o banheiro ou até o bombonière. Em 1948, o primeiro emprego do jovem rebelde era o sonho de outros adolescentes da época, já que possuía um salário acima dos outros trabalhos disponíveis para essa faixa etária. Em uma quebra temporal, o jovem Elvis poderia ver seus próprios filmes brilharem diante de seus olhos, no mesmo cinema.

Simone Costa, pertencente a Geração X, foi com um grupo de amigos assistir a Bete Balanço, em 1984, e fala que, como “estava uma bagunça, o lanterninha vinha toda hora brigar com a gente, mas estava com uma roupa normal ”. O detalhe para a mudança na vestimenta já indicava um desprendimento ao original. Mas além disso, uma outra perspectiva. Com um papel de inspetor, não eram raras as vezes em que interrompia pés nas poltronas, casais e falatório. Karl Marx diria que o lanterninha se repete.

O que Aline e um predecessor da profissão conversariam? Os dois detêm suas visões de como o cinema floresce no indivíduo, como os hábitos de ver filmes mudaram de lá para cá. Como viajantes no tempo, Aline poderia introduzir ao lanterninha antigo o cinema novo, com luz nas escadas substituindo seu aparelho de mão e personagens nus sem seu vermelho característico. Por um outro lado, ela seria jogada em um breu, observaria, pelos flashes de lanternas, profissionais que não comunicam-se com rádios, e sim com sinais de mão.

 

A magia dos lanterninhas morreu? 

O lanterninha se torna uma estátua no cinema antigo, mas vive uma existência dúbia com o novo. [Imagem: Mr.Screen, de Vincent Browne/Domínio Público]

Um elemento é perceptível: existem muitos outros longas acontecendo a todo momento em uma sala de cinema. O vagalume uniformizado possui a sua frente filmes coloridos, de cada espectador, porém mudos em essência.

Abrangendo todos os gêneros, esse tipo de obra é o ver cinema, que nós, na condição de espectadores, só conseguimos sentir. E a parte restante, a de ver? Essa cabe ao lanterninha, que possui a capacidade de observar essas cenas e reações únicas, o cinema sendo formado nas pessoas, mesmo que nos pequenos instantes de inspetoria.

Se eles deixam falta? Pode-se dizer que no universo fílmico da sala de cinema, seu mágico papel filosófico de observador não pode ser instaurado por outra figura. A multifuncionalidade atual de um profissional de cinema, por algumas vezes, pode lhe dar esse papel, mas é perene.

O permanente, no entanto, é a capacidade de seu espírito continuar a existir. Guardando o cinema, o legado dele continua nas pessoas que, inspiradas por este espectro rubro, por um momento colocam seu velho uniforme para garantir que outros filmes não atrapalhem os seus, como fez minha namorada.

Cinéfilos
O Cinéfilos é o núcleo da Jornalismo Júnior voltado à sétima arte. Desde 2008, produzimos críticas, coberturas e reportagens que vão do cinema mainstream ao circuito alternativo.
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COMENTÁRIOS
Arnaldo Augusto t.m
MT bem colocadas suas palavras de um personagem.q fez parte da minha infância e adolescência. E de minha maturidade.ja q faço 60 anos e vivi a evolução das salas de cinema, esse personagens sol lanterninhas sempre nos guardarão. Nos orientação é mts vcs até nós educação quando passávamos do ponto, bela descrição desse personagem.q sobrevivi até hoje! Parabéns pelas palavras e a discrição de figura tão marcante. O lanterninha!
18 out 2020
 
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