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Lazarus: é possível ser herói apenas por um dia
Em Cena
30 set 2019 | Por João Mello (joaovictorm.mello@usp.br)

A peça Lazarus faz uma releitura do filme de 1976, O Homem que Caiu na Terra, à época estrelado por David Bowie. Em 2016, antes de morrer em decorrência de um câncer de fígado, o músico pôde assistir à estreia dessa adaptação criada por ele e por Enda Walsh. Neste ano, a peça chega ao Brasil sob direção de Felipe Hirsch abrindo o espaço cultural do Teatro Unimed.

De maneira incomum e criativa, é oferecido um programa contendo “instruções de uso” antes do começo do espetáculo. São elas: 

  1. “Estar vivo. Não vivo, respirando, porque a maioria das pessoas que respiram não estão realmente vivas. Não estão interessadas em aprofundar-se em nada. Interessadas apenas no que pode vir até elas. No que não as dê trabalho de ir até elas. A maioria das pessoas que respiram neste admirável novo mundo do on demand não estão vivas. Estão apenas existindo.
  2. Tentar lembrar-se da última vez em que foi calculado o seu peso.
  3. Caso você use óculos de grau, os retire. Caso você não use, peça para quem use um emprestado.
  4. Reflita sobre qualquer coisa.
  5. Entenda que você está prestes a ter um encontro com atores, atrizes e músicos que irão morrer. Entender que todo o elenco de Lazarus, por mais jovem que seja, irá morrer. Não hoje. Mas certamente algum dia. É preciso que você entenda que a brevidade deste encontro o torna especial. Em cinema, você pode comprar um DVD e para sempre ver e rever os atores que quiser. Em Teatro, não.”

Essas instruções são a primeira coisa que impressiona o espectador. A história da peça trata de um alienígena perdido na Terra que não consegue voltar para seu planeta natal. O personagem Thomas Jerome Newton, cuja vida lhe foi dada de maneira brilhante pela voz e corpo de Jesuíta Barbosa, tem diversos conflitos envolvendo solidão, isolamento, dificuldade de se relacionar com o outro e abuso do uso de drogas. Tudo isso permeado por belos rearranjos de 18 músicas de David Bowie. 

O enredo em si é bastante confuso. A peça parece um exemplo de “Estratégias Oblíquas”, método utilizado para compor a “Trilogia de Berlim” de Bowie (discos Low, Heroes e Lodges). O método prevê soluções disruptivas: as coisas acontecem do nada, sem origem ou lógica, e montam um mosaico de acontecimentos e diálogos com uma conexão borrada, completamente diferente da lógica linear tradicional. 

Isso não necessariamente é uma falha da peça. O convite que é feito pelas instruções de uso para refletir sobre qualquer coisa é incentivado pela linguagem hermética do espetáculo. Em algumas situações, o que os atores expressam por meio de seus corpos (cabe destacar que todos eles são muito bons nisso)  é mais importante para transmitir sentido do que suas falas. O que talvez seja determinante para dizer como a peça afeta os espectadores depende do quanto cada um decide se entregar para a “viagem” que Lazarus que pode proporcionar. 

[Imagem: Divulgação]

Essa “viagem” é impulsionada pelo próprio palco da peça, um show à parte. Ele se move para cima e para baixo, recebe projeções de luz e se inclina para fazer efeitos com o espelho que se encontra atrás dos atores, duplicando-os como se o espectador estivesse assistindo à mesma cena por duas perspectivas diferentes. Em uma cortina preta vazada que fica na frente do palco, são projetadas as letras das canções de Bowie que estão sendo performadas. Tudo parece estar conectado: as músicas do cantor consagrado, a expressão dos atores, a movimentação do palco e a própria plateia. 

A peça tem, ainda, um caráter elitista devido aos altos preços cobrados pelos ingressos, sua linguagem confusa e pelo fato de todas as letras, essenciais para a imersão, estarem em inglês. Entretanto, para aqueles que possuem a oportunidade de ir ao espaço intimista de 240 lugares do Teatro Unimed, a viagem vale a pena. O espetáculo estará esperando por essas pessoas até o dia 27 de outubro, onde elas poderão se sentir como “heroes just for one day”.

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