Home Lançamentos Legalize Já: um filme sobre liberdade
Legalize Já: um filme sobre liberdade
CINÉFILOS
18 out 2018 | Por Jornalismo Júnior

Legalize Já – A amizade nunca morre (2018) é uma produção brasileira, com direção de Johnny Araújo e Gustavo Bonafé, que conta a trajetória de uma banda de rap que abalou os anos 1990: o Planet Hemp, formado no bairro da Lapa, uma das zonas boêmias do Rio de Janeiro. Numa Lapa bem diferente do que se conhece hoje, era um ambiente totalmente marginalizado, que nos anos 90 foi local de refúgio de prostitutas, travestis, e dos apreciadores da vida boêmia.

A obra trata do encontro de Marcelo (Renato Goés) e Skunk (Ícaro Silva). Marcelo, que futuramente teria o D2 junto ao seu nome, vendia camisetas de bandas de rock e rap como ambulante na rua 13 de maio. Já Skunk ganhava a vida vendendo fitas cassetes com músicas que ele mesmo produzia. Os dois tiveram suas histórias de vida entrelaçadas por conta do acaso, e este encontro mudaria o cenário do rap nacional.

(Imagem: Divulgação)

A trama é construída num momento de extrema dificuldade na vida de ambas as personagens. Marcelo D2 passava por dificuldades financeiras, estando literalmente quebrado, seu pai o cobra para que tome seu próprio rumo na vida, exigindo que deixe a casa em que mora. Além disto, há uma questão muito delicada com sua namorada na época, Sônia (Marina Provenzzano), uma gravidez não planejada que envolve o tema do aborto durante o filme. Já Skunk enfrentava outro tipo de situação agravante em sua vida: a aids. Doença que debilitou sua saúde gravemente, retratada de maneira emocionante numa das cenas no hospital. É nesse fervilhar de problemas que a amizade vai sendo construída durante a trama.

No decorrer das cenas fica evidente que Skunk é quem acredita no sucesso da banda, sendo o grande responsável por formar o Planet e também por descobrir o potencial do Marcelo. A personagem de Ícaro Silva é quem sente o rap realmente, enquanto a de Renato Goés é o poeta que cria os versos das letras. Juntos começam a formar o rap do Planet Hemp, que é algo maior que simplesmente cantar uma música. O rap tem uma identidade própria e as palavras têm uma importância na hora que se diz, tem que saber o que está se falando. E Skunk é quem lapida D2, que era muito inseguro e não acreditava em si mesmo, como demonstrado em cenas do filme nas quais Marcelo tenta abandonar o projeto da banda. Bem diferente do Marcelo D2 de hoje, que tem confiança arriscando em grandes trabalhos, como em seu novo disco: Amar é para os Fortes (2018).

Em uma das cenas Skunk afirma: “Não é sobre maconha. É sobre liberdade”.  A construção da banda, encabeçada por Skunk, tem letras que abalaram a cultura dos anos 90. Mexendo com as bases do conservadorismo e moralismo. O Planet foi tratado como um bando de subversivos e maconheiros. No entanto a maconha foi apenas uma forma de ecoar um grito de liberdade e luta. Tentando remar contra a maré da pobreza cultural instalada no período, por conta de músicas comerciais, que não transmitiam mensagem alguma.

(Imagem: Divulgação)

Durante coletiva de imprensa, em 2 de outubro, no Cinemark do Shopping Cidade São Paulo, os diretores comentaram a polêmica em relação à questão da maconha e também no nome Legalize Já. Para Johnny Araújo e Gustavo Bonafé: “Legalize Já não é uma apologia a maconha. O filme é sobre encontros. Sobre amor. O amor entre dois amigos.” Posteriormente, a atriz Marina Provenzzano completou, dizendo: “Legalize Já o amor, a maconha, o aborto, a liberdade, o respeito.”

A respeito da preparação dos atores principais temos aspectos muito diferentes. Renato Goés: “Foi o trabalho mais difícil que fiz em minha vida, mas o mais prazeroso”. Sendo pernambucano, com um sotaque típico da região do nordeste que nasceu, Goés enfrentou problemas no princípio para interpretar um carioca da periferia. Além de nunca ter tido que cantar em papéis anteriores durante sua carreira. Um dos pontos que ajudou foi formar uma banda por conta própria e cantar músicas do Planet por oito meses. Acabou por surpreender positivamente. Já para Ícaro Silva a questão da musicalidade foi um pouco mais fácil, já estando habituado a cantar e atuar. O desafio estava em reconstruir uma personagem que tem pouco registro. Quase não há gravações do Skunk cantando ou dando entrevista. Ícaro comentou uma forma de atenuar o problema: “O Skunk vive nos olhos do Marcelo. Nas falas do Marcelo. E no jeito do Marcelo”.

O cenário do filme é um Rio de Janeiro urbano, com tonalidades de cinza, tomado pelo concreto. E não o Rio de Janeiro conhecido aos olhos do mundo, geralmente retratado nas produções cinematográficas, com a valorização de locais como Ipanema, Baía de Guanabara, Corcovado e Cristo Redentor. Os diretores procuram explorar a realidade vivida por esses jovens da periferia carioca dos anos 90. Demonstrando a repressão policial, o descaso das autoridades com as dificuldades do povo e o preconceito sofrido por esta parte marginalizada da sociedade.

(Imagem: Divulgação)

Uma das cenas mais marcantes em todo o longa está numa das primeiras conversas entre Skunk e D2, em que se pode analisar a realidade em que o filme está inserida e a capacidade que os diretores tiveram em transmitir tudo isso ao público. Nela, Skunk diz para Marcelo: “Eu sou preto. Você é preto”. D2 imediatamente interrompe: “Eu não sou preto”. Skunk já emenda: “Mas eles te tratam como um”.

Após relembrarem a cena, Ícaro Silva foi perguntado sobre a realidade brasileira e seu lugar de fala como negro: “Acho ingênuo perguntar para uma pessoa negra no Brasil se ela já sofreu racismo. A negritude no Brasil está diretamente associada à pobreza. Me identifico com o Skunk. E o Skunk enxergava o Marcelo como negro, mas o Marcelo não entendia isso. Não entendia que era marginalizado, assim como os negros.”

A trilha sonora e a escolha de como seriam as filmagens foram pontos determinantes para compor o resultado final. As músicas passam as influências que atingiram o Planet na época. Além disso, a batida de “Futuro do País”, “A Culpa é de Quem”, “Mantenha o Respeito” e “Legalize Já” presentes no primeiro disco do Planet, Usuário (1995), são muito bem combinadas durante as cenas. O segundo ponto, a filmagem com ausência de cores, numa pegada acinzentada, foi muito bem planejada e executada ,tentando transportar o telespectador para o ambiente da Lapa da década de 1990. Objetivo alcançado com sucesso, mas sem perder a força atemporal dos temas tratados durante o produção cinematográfica, como a busca pela liberdade, a questão da repressão policial, o racismo e a marginalização da sociedade.

Legalize Já – A amizade nunca morre estreia dia 18 de outubro. Confira o trailer:

por Gabriel Cillo
gccillo@usp.br

Cinéfilos
O Cinéfilos é o núcleo da Jornalismo Júnior voltado à sétima arte. Desde 2008, produzimos críticas, coberturas e reportagens que vão do cinema mainstream ao circuito alternativo.
VOLTAR PARA HOME
DEIXE SEU COMENTÁRIO
Nome*
E-mail*
Facebook
Comentário*