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Leve e sutil, Me Chame Pelo Seu Nome aborda aprendizado do primeiro amor
CINÉFILOS
17 jan 2018 | Por Jornalismo Júnior

Se você já alcançou uma certa idade, é provável que tenha adquirido o hábito de repensar certos eventos da sua vida e reorganizá-los mentalmente. Hoje, por exemplo, quando você se lembra de determinada amizade da infância, consegue enxergar nela uma importância para sua formação pessoal que, na época, sequer passaria pela cabeça. Talvez, lembrando de um emprego da juventude, compreenda que ele foi essencial para transformar sua visão a respeito de algo. Ou, ainda, recorde uma viagem de família e perceba o quanto ela mudou sua relação com algum parente. É comum olhar com outros olhos esses momentos que representam um antes e um depois na nossa história pessoal. Me Chame Pelo Seu Nome (Call Me By Your Name, 2017), dirigido por Luca Guadagnino e inspirado no livro homônimo de André Aciman, é sobre uma experiência que costuma ser um ponto de virada para muitos: o primeiro grande amor.

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O jovem Elio, interpretado por Timothée Chalamet (Imagem: Divulgação)

No filme, quem passa por essa aventura é Elio (Timothée Chalamet), um jovem de 17 anos que vive com a família numa pequena cidade do norte da Itália. O ano é 1983, e sua vida começa a mudar com a vinda de Oliver (Armie Hammer), de 24 anos, dos Estados Unidos. Aluno de pós graduação, Oliver chega para participar do projeto de verão do pai de Elio, um professor especializado em cultura greco-romana.

Com o passar do tempo, Elio e Oliver se aproximam cada vez mais, até que, como era de esperar, apaixonam-se. No entanto, o que diferencia Me Chame Pelo Seu Nome de outros filmes sobre histórias de amor é a delicadeza com a qual a relação entre os dois é construída. Ambos os personagens vão criando vínculos e demonstrando atração de maneira tão sutil que, assim como eles próprios durante um tempo seguem incertos dos sentimentos um do outro, o espectador menos atento talvez também não perceba-os logo de cara.

Para que essa sutileza funcione, o trabalho dos atores principais, principalmente Timothée Chalamet, é fundamental. O ator consegue, através de poucos olhares ou movimentos do corpo, transparecer toda a complexidade de Elio: um menino convicto sobre seus desejos e ao mesmo tempo inseguro e confuso sobre como lidar com eles. Por outro lado, Armie Hammer dá a Oliver um tom arrogante e inconsequente que é aos poucos desconstruído conforme conhecemos mais sobre o personagem.

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As cores, fotografia e figurino dão um tom de leveza ao filme (Imagem: Divulgação)

Outro elemento fundamental é a atmosfera criada para dar lugar à história. Já logo de início chama a atenção o visual colorido e solar, que dá um clima alegre ao filme antes mesmo de sabermos do que se trata. A câmera de Guadagnino movimenta-se suavemente, e os personagens, sempre usando roupas leves e confortáveis, são mostrados em diversos momentos de pura satisfação e deleite: tomando sol à beira de um rio, jogando vôlei numa tarde ensolarada, colhendo frutas direto das árvores, etc.

Se, ao ler a sinopse, é fácil esperar o drama de um amor impossível, a dinâmica que se estabelece é completamente diferente. Em plenos anos 80, a família e os amigos de Elio são parte de um grupo seleto, uma elite intelectualizada e de mente aberta que não cria tabus em torno de questões sobre sexualidade e afeto. Dessa forma, os personagens se entregam a seus desejos preocupando-se muito pouco com qualquer julgamento vindo de terceiros. O que se entende, então, é que na verdade são também o ambiente e as pessoas em volta o que tornam aquele amor possível, o que faz ele ainda mais especial. Toda essa liberdade mostrada na tela lembra bastante a que aparece em alguns filmes de Bernardo Bertolucci, como Os Sonhadores (The Dreamers, 2003).

Mas, apesar de conseguir entregar uma obra bastante rica em possibilidades de interpretação e subjetividades, é perceptível que o diretor se perde em alguns pontos, o que impede que o filme seja ainda melhor. Para simbolizar questões dos personagens, por exemplo, há várias cenas que introduzem citações e referências “cultas”, que às vezes funcionam bem, outras soam apenas pedantes e desnecessárias. No lugar de algumas delas, talvez teria sido melhor ter mais momentos de interação entre Elio e Oliver na primeira metade do filme, tornando um pouco mais nítida a evolução dos sentimentos de ambos. Outro problema é que, com uma mistura não tão bem organizada de música clássica, canções originais e pop oitentista, há certos momentos em que a trilha sonora parece um tanto deslocada.

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No “paraíso desconstruído” em que se passa o filme, Elio e Oliver encontram o lugar perfeito para que seu amor floresça (Imagem: Divulgação)

No conjunto, porém, Me Chame Pelo Seu Nome é uma obra encantadora, e conforme vai chegando aos momentos finais, essa característica fica cada vez mais evidente. Na espécie de epílogo da narrativa, assim como alguém que algum tempo depois percebe a importância de determinado evento em sua vida, muito do que foi construído a respeito dos personagens durante o filme fica mais claro para o espectador, e ganha uma dimensão surpreendente, que justifica o destaque que a produção tem recebido em premiações e festivais. É aí também que os personagens coadjuvantes, e seus respectivos atores, tornam-se mais interessantes, como o Sr. Perlman (Michael Stuhlbarg), pai de Elio, e a jovem Marzia (Esther Garrel), com quem o garoto também se envolve romanticamente.

Mesmo que se desenvolva a partir da relação de Elio e Oliver, Me Chame Pelo Seu Nome não pode ser reduzido a ela. Mais do que isso, o filme é sobre as descobertas de Elio a respeito da vida e de si mesmo, e a parte boa e ruim de todo esse aprendizado transparecem no personagem o tempo inteiro. No fim, é possível perceber que todo o amor, o medo, felicidade e dor, ficarão marcados. Ele nunca se esquecerá do verão de 1983.

Me Chame Pelo Seu Nome estreia no dia 18 de janeiro. Confira o trailer:

por Matheus Souza
souzamatheusmss@gmail.com

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O Cinéfilos é o núcleo da Jornalismo Júnior voltado à sétima arte. Desde 2008, produzimos críticas, coberturas e reportagens que vão do cinema mainstream ao circuito alternativo.
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