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Life, Animated: a vida em animação
CINÉFILOS
20 fev 2017 | Por Jornalismo Júnior

Uma das categorias mais pesadas do Oscar é a de documentário. Seja por recontar a vida trágica de uma celebridade ou discutir sobre um tema polêmico da esfera política ou social, as indicações raramente trazem um respiro à tristeza que permeia o mundo; e esse ano não foi diferente. Fogo no Mar (Fuocoammare, 2016) foca na questão da imigração dos refugiados para a Europa, A 13ª Emenda (13th, 2016) e Eu Não Sou Seu Negro (I Am Not Your Negro, 2016) falam da problemática racial nos EUA, e O.J.: Made in America (2016) se utiliza desse mesmo plano de fundo para acompanhar a vida de um dos maiores e mais controversos jogadores de futebol americano do mundo. Contrariando essa tendência, no entanto, Life, Animated (2016, disponível no Netflix) nos traz um descanso, contando a história de Owen Suskind, jovem que aos dois anos descobriu ter autismo, conseguindo contorná-lo através das animações da Disney.

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Logo ao começo do filme, o pai do garoto, Ron (que escreveu o livro que inspirou a obra), relata o dia em que Owen, após anos incapaz de dizer uma só palavra compreensível, imita uma frase que Ariel diz em A Pequena Sereia (The Little Mermaid, 1989). Nos anos seguintes, todo seu desenvolvimento cognitivo, pessoal e emocional se daria em torno de fábulas como Peter Pan (1953) e O Rei Leão (The Lion King, 1994). Infelizmente, grande parte da empatia que poderia ser criada em torno da situação é sabotada pela cafonice de algumas cenas, compostas com uma pomposa e incessante trilha sonora, e pela própria figura de Owen reencenando as reações da época diretamente para a câmera – numa tentativa falha de comover.

A montagem, por outro lado, obtém mais sucesso ao construir a narrativa inserindo cenas dos filmes que dialogam com o sentimento do garoto. Assim, se ele precisa, por exemplo, enfrentar a primeira noite em sua nova casa longe dos pais, vemos Bambi chamando pela mãe morta pelos caçadores. Em outra cena, quando sua namorada termina com ele, Ariel chora por ter que se afastar de seu príncipe encantando. A realidade toma então pinceladas de ficção. Aliás, um dos momentos mais complexos e bonitos do filme será justamente desse término, quando o protagonista não só verá seus demônios e inseguranças de mais novo voltarem, como também perceberá que a vida real não é como a de um filme da Disney: “como se diz: ‘garoto ama garota, garoto perde garota, e no fim, reconquista garota’?” – o que por si só prova a importância de filmes como Frozen – Uma Aventura Congelante (Frozen, 2013) e Moana – Um Mar de Aventuras (Moana, 2016) para a desconstrução do papel da mulher na mente de uma criança.

O documentário ainda consegue divertir quando, por exemplo, Owen se dá conta de que o pingente do Mickey dado pela namorada não foi feito por ela (“ela derreteu o metal e fez?”, questiona o pai), ou quando o irmão (Walter) desabafa que não sabe como chegaria ao assunto de sexo com ele (“mostraria pornografia da Disney?”). Guardando ainda um momento tocante em que os dubladores de Aladdin (1992) interpretam seus personagens à frente de uma classe inteira de pessoas com deficiência mental, Life, Animated é excessivo e bonachão em diversos momentos, mas tem seu valor ao tratar seu personagem, e consequentemente, o autismo, de forma respeitosa. Ou como o próprio Owen escreveria em um de seus momentos de tristeza: “eu sou o protetor dos parceiros (referindo-se aos personagens que acompanham os heróis nas aventuras). Nenhum parceiro será deixado para trás”.

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Trailer sem legendas:

por Natan Novelli Tu
natunovelli@gmail.com

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O Cinéfilos é o núcleo da Jornalismo Júnior voltado à sétima arte. Desde 2008, produzimos críticas, coberturas e reportagens que vão do cinema mainstream ao circuito alternativo.
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