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Literatura e política: quando os livros ultrapassam a pura ficção

Discussões políticas em obras literárias vão além de estilos óbvios como manifestos e ensaios e podem contribuir para a conscientização da sociedade

Na Estante
03 maio 2022 | Por Bianca Camatta (biancacamatta@usp.br) e Letícia Naome (leticianaome@usp.br)

 

Uma tirinha da Mafalda com teor feminista e poemas de Ferreira Gullar e Paulo Leminski sobre a ditadura civil-militar no Brasil foram alguns dos temas de questões censuradas no Enem de 2019, segundo documento acessado pela revista piauí em novembro de 2021. Em um contexto no qual o governo federal expressa manifestações misóginas e assume posições favoráveis ao período ditatorial, a censura demonstra como a literatura pode incomodar, principalmente obras que trazem abordagens políticas e sociais. 

Para além de histórias fictícias, os livros podem representar debates políticos em suas páginas ou suscitar discussões pela forma como são veiculados ou não, como no caso da censura. Ao estimularem esses debates, as obras literárias de cunho político são essenciais para o questionamento da realidade.

 

Como a política está presente no mundo literário? 

Os ensaios literários e os manifestos não só são os estilos mais recorrentes para se tratar de política, como também os mais fáceis onde identificar essa temática. No entanto, a depender do que o autor busca com sua obra ou do contexto histórico, outras abordagens podem ser adotadas.

“Um manifesto entra numa categoria de panfleto, só que vão existir outras obras que não têm necessariamente essa roupagem estereotipada, mas que são extremamente políticas”, explica Débora Tavares, professora de literatura e doutora pela Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo (FFLCH-USP). Ela cita o exemplo da obra Orgulho e Preconceito, de Jane Austen, que aborda situações relacionadas à vida feminina — o que se esperava de uma mulher na época —, mas de forma extremamente sarcástica.  

Os textos não precisam citar política diretamente para falar do assunto. “Mesmo quando o autor ou a autora se coloca como neutro, isso também é uma escolha política”, ressalta a professora. Ela  completa explicando que tudo o que envolve a vida coletiva diz respeito à política, devido aos papéis sociais de cada um, e não apenas ao que está relacionado a votações, urnas ou Congresso. 

Para além das páginas dos livros, a forma como a literatura é veiculada também traz à tona questões políticas contextuais. Débora dá o exemplo da mulher, que, por muito tempo, precisou escrever com pseudônimos, como as irmãs Brontë em 1847. Essa prática repercute ainda nos dias atuais. J.K. Rowling, autora da série Harry Potter, ocultou o seu primeiro nome como uma sugestão da editora que publicou os livros, a fim de atingir mais leitores meninos. 

A censura também traz característica de refletir contextos, pois impede o acesso à obra — o que em si é uma decisão política, pois defende os interesses de quem está no poder ao limitar o acesso da população a diferentes perspectivas —, como nas questões censuradas no Enem 2019. Na ocasião, a exclusão de certas temáticas buscou evitar uma oposição às ideias conservadoras da Presidência. A restrição a algumas obras ainda pode se apresentar de forma indireta, por exemplo, pela taxação dos livros ou por decisões editoriais.

 

 

Literatura e política: cena cinematográfica de livros em chamas

“Fahrenheit 451” foi adaptado para filme e representa tanto o passado, quando os livros foram queimados na Segunda Guerra Mundial, quanto o presente, momento em que a tecnologia se impõe aos livros. [Imagem: Reprodução/YouTube HBO]


Na literatura, a própria censura é representada em diversas narrativas, principalmente nas
distopias. É o caso de Fahrenheit 451, de Ray Bradbury, que apresenta uma sociedade na qual os livros são queimados, pois são vistos apenas como uma forma de causar confusão ao abordar ideias divergentes.

 

As influências da literatura

As pessoas são influenciadas pelos contextos em que vivem e, na hora de escrever um livro, isso não é diferente. Inclusive, parte da nossa literatura é organizada em escolas literárias — que relacionam as características em comum de diferentes obras a momentos históricos. 

O romantismo brasileiro, por exemplo, ocorreu próximo à independência do país, quando os autores buscavam formar uma identidade nacional. Muitos dos escritos dessa época traziam um teor nacionalista, como o poema Canção do Exílio, de Gonçalves Dias, que demonstra o saudosismo e a superioridade do Brasil para o autor que, quando escreveu os versos, estava em Portugal. 


Minha terra tem palmeiras

Onde canta o Sabiá,

As aves, que aqui gorjeiam,

Não gorjeiam como lá.

Gonçalves Dias,  Canção do Exílio


Já os autores do realismo e do naturalismo brasileiros foram influenciados pelo fim da
escravatura, pela Proclamação da República e por ideias deterministas — as quais tratam o ser humano como fruto do meio. Isso levou a obras com teor crítico social mais evidente. 

No entanto, Débora ressalta que as escolas literárias registram uma escolha ideológica que concorda com os valores da sociedade dominante. “A escola literária é uma fotografia tirada de cima para baixo. A gente vê o que sobreviveu pelo que a tradição diz que vai ser literatura. Mas tem muita coisa que não entra nessa categoria e isso é político também”, afirma. 

A professora exemplifica essas escolhas com a exclusão de Maria Carolina de Jesus, autora negra que retratava sua realidade por meio da literatura e não teve suas obras categorizadas no modernismo brasileiro, apesar de ela ter escrito no mesmo período que Clarice Lispector, uma das escritoras mais reconhecidas da época. Outro caso foi Sherlock Holmes, de Arthur Conan Doyle, que, apesar do sucesso, foi visto como inferior por se tratar de um romance policial e não foi classificado dentro do realismo inglês.

O contexto histórico não é a única influência dos autores. Débora destaca a importância da vida pessoal de cada um, de como o autor se encaixa na realidade, em determinada classe social. Para ela, existe a “perspectiva de quem está no topo e a de quem está sendo explorado”. E, entender isso, pode ser importante na hora de identificar as nuances políticas das diferentes obras.

Um exemplo de livro que para Débora demonstra a importância dessa perspectiva é O Conto da Aia, de Margaret Wood. Na distopia, as mulheres não têm direitos e são dividas em categorias, uma delas a de aia, que existe exclusivamente para procriar. “É uma distopia porque é o ponto de vista da oprimida. Se fosse o conto do comandante, do homem que estupra, seria uma utopia, um mundo perfeito para ele”, explica.

Já a história em quadrinhos Confinada, de Leandro Assis e Triscila Oliveira, é um bom exemplo para mostrar a influência do contexto histórico. Os autores iniciaram a narrativa em publicações no Instagram, a partir da pandemia de Covid-19. Eles contam a relação entre uma influenciadora digital e sua trabalhadora doméstica, que passa a viver em quarentena com a patroa. A história, que já foi publicada em livro, traz uma forte crítica social que espelha um dos traços da atual realidade brasileira.

 


A literatura política como modo de transformar a realidade

Ariel Serafim é estudante de Letras, apaixonada por livros, e usa o Instagram como forma de compartilhar suas leituras e percepções sobre as obras. Ela conta que a literatura ajudou a conscientizá-la sobre os problemas da sociedade ao trazer uma visão prática, o que a levou a entender a importância de lutar pelos seus direitos e pelos dos outros. É isso que a motiva a continuar espalhando as suas leituras pelas redes sociais.

 

Literatura e política: montagem com seis postagens de Instagram dispostas em duas fileiras horizontais com três postagens postagem

Em seu Instagram (@livrosdaariel), a estudante Ariel Serafim  traz tanto indicações de livros, como também resenhas e reflexões sobre o que lê. [Imagem: Reprodução/Instagram]


A estudante considera que os livros podem trazer reflexões sociais devido à possibilidade de identificação, que gera empatia. “É impossível você ler um livro, por exemplo, a biografia do Martin Luther King, que abarca temas políticos, e não se sentir inspirado a mudar, a ajudar, a tentar fazer a diferença”, exemplifica.

Por isso, é essencial o incentivo à leitura. Ariel ressalta que esse é um papel da família, da escola e do Estado. A família é importante para ajudar a estabelecer um hábito, que pode ser mais difícil de se desenvolver na vida adulta. A escola, para estimular as leituras e não apenas dos clássicos, mas também de livros contemporâneos que dialogam com o momento de vida dos jovens. E o Estado, para garantir que os livros sejam acessíveis à população.

Por meio da leitura, também será possível identificar melhor as discussões políticas e sociais dentro da literatura, inclusive as que estão presentes de forma sutil. “Quanto mais treinado está o nosso olhar para isso [literatura], mais você começa a perceber. E isso tem a ver com acesso, com educação, com consciência de classe, com interpretação de texto”, afirma Débora.

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