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Luz, câmera, manipulação!
CINÉFILOS
29 set 2014 | Por Jornalismo Júnior

Por Guilherme Fernandes
gfz.desouza@gmail.com

O uso do cinema como plataforma para fins de propaganda e doutrinamento, e também para objetivos pedagógicos, esteve presente, no início do século XX, em diversos países, independentemente da ideologia que pregavam. Nações como Estados Unidos, Alemanha, União Soviética, Inglaterra e França fizeram grande uso destes recursos no cinema.  Já na Primeira Guerra Mundial (1914-1918), inicia-se tal processo, e não somente com as telonas, mas por meio de diferentes meios de comunicação – como o rádio e os jornais impressos. O rápido avanço tecnológico desses meios foi fundamental para a disseminação da propaganda política ao redor do mundo.

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O primeiro documentário da série Why We Fight, “encomendado” pelo governo dos EUA durante a 2ª Guerra Mundial.

No período entreguerras, as campanhas publicitárias passaram a ser sistemáticas e generalizadas, com forte intervenção estatal, tanto nos regimes totalitários, quanto nas “democracias liberais”. Nessa fase, é importante destacar os Estados Unidos e a Alemanha nazista, pois ali surgiram formas sofisticadas da propaganda de massas. Com a 2ª Guerra Mundial, a exaltação ideológica no cinema atinge uma proporção absurda, constituindo um verdadeiro “cinema de guerra”. O conflito mais sangrento da história da humanidade definiu bases e práticas da indústria cinematográfica que vigoram até hoje, sobretudo do ponto de vista ideológico. Mesmo não eliminando diretamente vidas, os meios de comunicação, em especial as imagens em movimento, desempenharam um front de batalha crucial na guerra, culminando na Guerra Fria entre Estados Unidos e União Soviética.

A indústria do cinema antes do Eixo e dos Aliados

       Hollywood, antes da 2ª Guerra Mundial, já era a maior produtora de filmes do mundo, feito alcançado já com o cinema mudo. Havia uma sólida estrutura para a produção cinematográfica, com grandes estúdios, um robusto sistema de estrelas – em que a empatia popular por atores e atrizes era exaustivamente explorada – e enorme arrecadação de bilheteria mundial. Numa ótica industrial-fordista, o sucesso de um filme era medido pelo tamanho da bilheteria alcançada. Visando basicamente o lucro, foi instaurado inclusive um código de censura entre os estúdios, conhecido como Código Hays. É curioso notar que essas regras para a manutenção da “moral e dos bons costumes” no cinema foram acordadas entre os realizadores privados, permitindo concluir que no período pré-Segunda Guerra houve pouca interferência do governo norte-americano em Hollywood.

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Tradução: comparação entre a Betty Boop antes do Código Hays, em Branca de Neve (1933), e depois do Código, em Musical Mountaineers (1939).

Antes da ascensão do Partido Nazista ao poder, em 1933, a Alemanha passava por um momento efusivo em seu cinema. Apesar das produções hollywoodianas serem amplamente distribuídas e alcançarem grande sucesso na Europa, surge na Alemanha um estilo cinematográfico que ficou conhecido como Expressionismo Alemão, com certa referência gótica e fotografia sombria. Afinal, o clima no país, após a Primeira Guerra, era pessimista e decadente, principalmente devido às pesadas sanções dos vencedores. Contando com significativa produção cinematográfica, havia uma notável indústria de cinema na Alemanha, que inclusive exportou tendências para Hollywood, sobretudo no gênero terror. Nos EUA também desembarcaram profissionais que, com o regime de Hitler, foram “expulsos” ou preferiram fugir da Alemanha, por não compactuarem com os ideais arianos (em sua grande maioria, eram judeus) ou por não desejarem servir ao sistema cultural nazista, rapidamente implantado no país.

A 2ª guerra e o uso de imagens para fins políticos

Hitler, já como Führer – líder – do Terceiro Reich, estabeleceu uma espécie de Ministério da Propaganda, sob o comando de Joseph Goebbels. A visão desse fundamental colaborador do regime resume o funcionamento da propaganda política nazista:

“O que for útil ao progresso do partido é verdade. Se coincidir com a verdade real, tanto melhor; se não coincidir, será preciso fazer adaptações. A grande e absoluta verdade é que o Partido e o Führer estão certos. Eles sempre estão certos (…) Tudo interessa no jogo da propaganda: mentiras, calúnias.” Goebbels

Como parte da “nazificação” da sociedade alemã, toda a indústria cinematográfica foi estatizada, e a produção foi centralizada, com ativa intervenção do governo. Durante o regime, foram produzidos filmes de entretenimento, mais sutis, e também filmes de propaganda declarada. Entre eles, estavam produções históricas, que associavam Hitler e seus feitos a grandes personalidades e períodos da história germânica; e filmes “espetaculares”, que exaltavam o Führer e o Terceiro Reich de maneira irrefutável e épica. Dentre esses últimos, estão filmes dirigidos pela queridíssima diretora de Hitler, Leni Riefenstahl.

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Leni Riefenstahl, durante filmagem.

Riefenstahl, diante dos amplos recursos disponibilizados pelos nazistas, introduziu estéticas e experimentou técnicas em seus filmes que impactaram profundamente o cinema, a fotografia e a publicidade. Em O Triunfo da Vontade (1935), o 6º Congresso do Partido Nazista, ocorrido em Nuremberg, ganha contornos monumentais. Todo o Congresso e a movimentação dos soldados foram teatralizados para o espetáculo a ser registrado pelas câmeras. Hitler, em suma, é mostrado como o salvador da nação alemã, assim “recebendo” um fenomenal apoio das massas.

Durante os Jogos Olímpicos de Berlim, em 1936, é filmado por Riefenstahl Olympia (1938). A diretora, por meio de novos enquadramentos, ângulos de câmera e uma fabulosa fotografia, construiu uma obra que hipervaloriza o corpo dos atletas, conforme os padrões greco-romanos de beleza. A superioridade racial ariana também é incessantemente buscada, sobretudo nessa obra.

Com o início da Segunda Guerra, surgem filmes que atacam diretamente os inimigos internos e externos do regime nazista. Tal processo também ocorre entre os aliados, sendo mais evidente nos EUA. O Terceiro Reich criticou os comunistas e as democracias liberais, onde, por exemplo, trabalhadores “faziam greves”. Os judeus foram grandes vítimas dessa fase, a fim de conquistar o apoio da opinião pública para a “solução final”, ou seja, o extermínio em massa de judeus. Assim, o Terceiro Reich, cunhado quase que somente em imagens, convenceu toda uma sociedade de que sua supremacia e progresso só ocorreria com a eliminação de outras raças. Filmes como Jud Süss (1940) e O Eterno Judeu (1940) representam o ápice da campanha antissemita, comparando os judeus a pragas, como o vídeo abaixo mostra. Outros filmes do período também reforçam a necessidade de higiene e limpeza por parte dos arianos, e também reforçam que um dos métodos mais eficazes de se eliminar pragas é por meio de gases tóxicos.

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O fascismo e outros regimes totalitários, como o salazarismo e o franquismo, fizeram uso de procedimentos semelhantes ao nazismo, mas sem atingir o nível de sofisticação destes.  Outro instrumento comum nesses governos eram os cinejornais, que documentavam feitos do Estado e retratavam a guerra como um grande espetáculo bélico. Os mais notáveis foram o Die Deutsche Wochenschau, do lado nazista, e o The March of Time, produzido pelos norte-americanos.

Em Hollywood, a movimentação na Segunda Guerra também foi grande, porém bem mais sutil. Nos doze anos do partido nazista no poder (1933-1945), esteve no comando dos EUA o presidente Franklin D. Roosevelt. Antes do envolvimento do país no conflito, foram feitos poucos filmes anti-nazistas. Devido aos efeitos da crise de 29, produziam-se muitas comédias escapistas. Coube aos estúdios Warner Bros, que dedicavam certa atenção a questões sociais, produzir alguns filmes, e a Charles Chaplin, que fez O Grande Ditador (1940), uma grande sátira ao totalitarismo, e que termina com um inflamado discurso de liberdade e paz. 

<a href="https://www.youtube.com/watch?v=fe7K0zX4KYU">https://www.youtube.com/watch?v=fe7K0zX4KYU</a>

Com o envolvimento no conflito, o governo dos EUA passa a intervir mais diretamente em Hollywood, a fim de mobilizar a sociedade – e, principalmente, a sua consciência – para a luta. São criados órgãos para os filmes de propaganda, como a Secretaria de Informação de Guerra (OWI), voltada a temas relacionados à Europa, e o Escritório do Coordenador de Assuntos Inter-Americanos (OCIAA), a fim de estreitar os laços da “Política da Boa Vizinhança” entre os Estados Unidos e a América Latina.

Por se tratar de uma democracia liberal, Roosevelt não foi exaltado nos filmes ao nível de Hitler. Tratar o líder dessa forma não soaria bem numa democracia. Foi dedicada atenção às obras governamentais de Roosevelt, com ênfase nos benefícios do pacote de medidas do New Deal para a economia dos EUA. A nobreza do trabalho, os valores democráticos e o “American Way of Life” eram também enaltecidos. Assim como ocorreu na Alemanha, com a entrada na Segunda Guerra, Hollywood inicia uma intensa produção antinazista, e também contra os japoneses, em geral mostrados como suicidas. A série de documentários Why We Fight (1942-1945), solicitada pelo governo e dirigida por Frank Capra, aproxima-se do trabalho de Leni Riefenstahl na Alemanha. No campo do entretenimento, destacou-se Walt Disney, com suas animações “didáticas”, que pregavam a ideologia sistêmica capitalista e espalhavam o terror do regime nazista, como em Education for Death (1943). Foi na mesma época que também surgiram clássicos, como Casablanca (1942).

É também singular a mobilização de artistas de Hollywood durante o conflito. Clark Gable se alistou às forças armadas. Marlene Dietrich, “ex-alemã”, cantava para as tropas aliadas. E surgiram as “Cantinas de Hollywood”, que, lideradas por artistas como Bette Davis e John Garfiels, ofereciam diversão e boa comida aos soldados e oficiais. Da experiência das cantinas surgiu até um filme, Um Sonho de Hollywood (1944). Por mais que pertencesse a grupos privados, Hollywood estava plenamente a serviço de Washington.

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A diva Marlene Dietrich canta para soldados das tropas aliadas, em 1944.

A produção soviética do período também é relevante. Após a Revolução de 1917, os bolcheviques tinham plena noção do potencial do cinema para educar e doutrinar as massas. Como afirma o historiador Marc Ferro, que estudou a relação entre cinema e poder na URSS, “o cinema educativo, o cinema científico e de animação ocupam um lugar privilegiado no programa cultural (…) o documentário, o cinema ‘para os camponeses’, o documento-cinema são considerados igualmente como essenciais”. Lênin chegou a mobilizar vagões de trem que levavam sessões de cinema para toda a União Soviética. Grande parte dos filmes mudos do período foram produzidos por Sergei Eisenstein, Alexander Dovzhenko e Dziga Vertov, com fins de propaganda.

Sob o comando de Stálin, surge o Realismo Socialista. A sétima arte foi utilizada para exaltar os ideias bolcheviques e afirmar a supremacia do coletivo. No stalinismo, diversos artistas e profissionais do cinema foram reprimidos e censurados. Alexander Nevsky (1938) é um dos maiores exemplares dessa fase. Já Chapayev – o soldado vermelho (1934), além de tornar-se um modelo para o realismo socialista, influenciou notáveis diretores ocidentais, como Orson Welles. Outros países do bloco soviético também seguiram rigorosos padrões de filmes propagandistas, próximos ao modelo da URSS, como a China.

Guerra Fria e a supremacia estadunidense

    Após a Segunda Guerra Mundial, emerge a bipolaridade mundial em torno de União Soviética e Estados Unidos, respectivas lideranças dos blocos comunista e capitalista, que disputaram cada pedacinho do globo no conflito ideológico conhecido como Guerra Fria. O nazismo e a bomba atômica, contudo, não foram esquecidos, e na maioria das vezes, não foram devidamente lembrados. Hollywood, até hoje, produz filmes em torno dessas temáticas.

    Da parte americana, é praticado o sistemático discurso anticomunista, como em Fui Comunista Para o FBI (1951). Atendo-se a Hollywood, já que a Guerra Fria deixou marcas sangrentas mundo afora – como nas ditaduras militares da América Latina -, houve inclusive a formação de uma lista negra. Profissionais supostamente ligados ao comunismo, como Charles Chaplin e Abraham Polonksy, foram boicotados. Mais tarde, com a “caça às bruxas”, instaurada pelo senador McCarthy, a situação só piorou, sobretudo nos anos 50. Surge o Comitê de Investigação de Atividades Anti-Americanas, com pesada patrulha anticomunista, pondo fim à carreira de diversos trabalhadores da indústria cinematográfica. No entanto, filmes anticomunistas “declarados” não eram muito comuns na época, não causando tanto impacto na sociedade.

Filmes como A Ameaça Vermelha representam a “paranóia” anticomunista dos EUA.

O medo da hecatombe nuclear e dos perigos da radioatividade foram bem explorados, originando obras como Godzilla (1954) e Star Wars (1977). É nítido também um forte pessimismo, que se reflete no cinema, em movimentos como o Cinema Noir e o Neorrealismo Italiano – que vai renovar e modernizar o cinema mundial.É na Guerra Fria também que os EUA aprimoram, com grande sucesso, a hegemonia estadunidense mundo afora.

Neste texto de Leandro Dias, colunista do site Pragmatismo Político, são trazidos exemplos claros e explícitos da sofisticada ideologia que prevalece em grande parte da produção estadunidense. Hollywood está à disposição do governo; quando surge um inimigo a ser combatido, ela não titubeia, massacrando-os em seus blockbusters. Foi assim com os comunistas, e hoje é assim com o Oriente Médio, em especial com o Irã. O filme 300 (2006), por exemplo, denigre os persas por completo.

A intervenção do Pentágono é expressiva. As forças armadas americanas já comissionaram diversos filmes, fazendo sugestões de roteiros e auxiliando os realizadores de cinema com equipamentos e recursos. Top Gun (1986) foi um dos beneficiados com essa prática, e mesmo os filmes da franquia 007 estão neste contexto, reforçando os ideais capitalistas em plena Guerra Fria. A deturpação do uso da bomba atômica também é comum. Em diversos filmes, é ela que salva a humanidade e aniquila o inimigo. IndependenceDay (1996) e Vingadores (2012) evidenciam isso. Em suma, o exército americano é apresentado com uma corporação virtuosa, que age de maneira correta e eficaz, e que busca zelar pela paz.

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Os super-heróis americanos são um dos meios mais eficazes de se afirmar a ideologia sistêmica

Os super-heróis norte-americanos também reforçam valores capitalistas, como muito bem colocado na coluna de Leandro Dias. Em produções recentes, a maioria destes filmes afirmam a vitória da riqueza e do individualismo, em detrimento do coletivo, como nas trilogias de Batman (2005-2012) e de Homem de Ferro (2008-2013). Mesmo atuando em equipe, como em Quarteto Fantástico (2005) e Os Incríveis (2004), é evidente que um pequeno e seleto grupo de super poderosos “está apto” a salvar a humanidade. Neles devemos confiar, sempre.

Hollywood, por meio dessa estrutura, conseguiu montar um sistema de propagação ideológica sem precedentes. Não há órgãos estatais que controlem e censurem a produção, e praticamente tudo se faz de maneira sutil. Na maioria das produções, existe um duplo (ou vários) sentido para aquela narrativa, revelando a sofisticação da ideologia hollywoodiana, quase sempre presente nos blockbusters americanos.

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