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Mademoiselle Paradis e a cegueira seletiva
CINÉFILOS
01 maio 2019 | Por Cinéfilos

Por Isabel Teles e Naomi Tarumoto
isabel.teles@usp.br e na.tarumoto@gmail.com

A cena inicial de Mademoiselle Paradis (Licht, 2017) provoca desconforto. Ao longo do filme, o incômodo permanece e aumenta à medida em que a inquietação da protagonista é transmitida para o espectador.

O longa conta a história de Marie Therèse Paradis (Maria Dragus), uma jovem pianista apreciada pela nobreza vienense do século XVIII. Seu talento, exibido com orgulho por seus pais, causa admiração curiosa nos ouvintes por conta de um detalhe que não passa despercebido: a senhorita Paradis é cega.

Enquanto toca piano, ela, inconsciente de seus movimentos, mantém os olhos claros abertos e em movimento desordenado, como se estivesse em uma espécie de transe. Por não ter referências nas quais se espelhar, não sabe como controlar seu corpo, precisando de sua mãe Rosa (Katja Kolm) para lembrá-la de que ela nunca sabe quando está sendo observada e, por isso, deve se atentar para sua postura, mantendo a boca fechada durante sua performance.

Conforme apontado pela diretora Barbara Albert, o filme está longe de ser mais um longa-metragem de exaltação dos luxos de séculos passados, de uma mera inserção do espectador na realidade nobre europeia pré Revolução Francesa. O longa baseia-se no livro “Mesmerized”, de Alissa Walser, que conta a história de Marie Thèrese e a relação o médico Franz Mesmer (Devid Striesow), com quem tratou-se de sua cegueira.

Trata-se da utilização de uma história verídica que, apesar de ocorrida em remoto momento histórico, é capaz de comprovar a persistente luta de alguns impasses sociais e questões humanas altamente debatidos no século XXI, como a compreensão da mulher enquanto indivíduo autônomo e não propriedade de outrem, o entendimento do valor do ser humano e a sociedade de aparências e padrões que limitam o sujeito em sua existência.

Mlle. Paradis é filha de Joseph, um conselheiro imperial (Lukas Miko) que, usando sua influência política, consegue que ela receba generosa pensão da por invalidez. Rosa se orgulha de tê-la conseguido fazer estudar piano e até mesmo dançar. No entanto, a protagonista é manipulada por quem mais confia, uma vez que seus pais a exibem como animal adestrado. As pessoas ao seu redor fazem com que ela encare a habilidade musical como compensação pela falta de visão, o que faz com que ela se sinta resignada com sua condição.

Apesar de a cegueira não comprometer seu desempenho musical e ainda contribuir como fonte de renda, seus genitores investem em tratamentos que possam reverter o estado, já que ela “não nasceu com defeito, mas simplesmente acordou um dia sem ver e começou a bater nas coisas”, como explica sua mãe.

Os tratamentos são decididos sem considerar a vontade da protagonista, como se sua deficiência visual comprometesse sua audição e compreensão de seu estado, além da autonomia de decidir sobre seu futuro.

Depois de testar métodos que prejudicaram sua saúde, a pianista começa a se tratar o dr.  Mesmer, que à época dos acontecimentos, testava sua teoria sobre o magnetismo animal. Em uma casa dedicada ao cuidado de pacientes impossíveis, Marie Therèse é submetida à terapia com o fluido invisível de Mesmer, e passa a se comportar com maior liberdade, longe do controle de sua família e círculo social.

Mesmer e Paradis faziam exibições públicas para demonstrar o progresso no tratamento [Foto: Divulgação A2 Filmes]

É nesse novo meio em que a Mademoiselle Paradis, tendo contato mais próximo com indivíduos de estamentos sociais diferentes e estando sujeita a novas situações, incluindo as que compõem o tratamento terapêutico,  passa a descobrir-se. Desde os relacionamentos interpessoais até a relação com a música, observa-se o crescimento da personagem, à medida que avançam os resultados do tratamento.

De início hostil, o desenvolvimento da amizade com a criada Agnes lhe abre os horizontes para um olhar alternativo, o olhar do plebeu, o olhar das conexões humanas mais profundas. Ambos não haviam sido, jamais, explorados tanto por um encastelamento no meio nobre, quanto pela frieza e superficialidade do meio por onde corre o sangue azul. Tais perspectivas expandem-se com a gradativa cura da cegueira: Marie Therèse passa a perceber e admirar visualmente o mundo antes incompleto; Agnes, considerada feia pelas colegas nobres de Paradis, é descrita como a pessoa mais bela pela protagonista. A singularidade de cada tronco de árvore é notada. A beleza das coisas mais triviais, tais como o excremento, recebe o vislumbre dos olhos despertados.

O universo melódico também sofre transformações ao longo desse processo: o piano, lugar onde a protagonista dizia sentir-se uma “general” a dominar a música, torna-se um locus desconhecido ao qual ela é subordinada, o que se manifesta nos erros de notas e pesa na coerção do público que, anteriormente, a admirava.

Mademoiselle Paradis é uma personagem histórica que criou uma escola de música para cegos [Foto: Divulgação A2 Filmes]

“Ver é tão bonito quanto tocar piano”; uma vivência visual vai tomando espaço de uma musical. A situação é explorada não somente no íntimo de Marie Therèse, como também no conflito de interesses que a cercam: o sucesso de Mesmer no meio acadêmico ou a manutenção do prestígio dos pais por terem uma filha habilidosa ? Objeto de estudo ou bichano educado? Pelas duas vias, a condição da protagonista não se alteraria: indivíduo altamente dependente de outros, propriedade de senhores, sem valor humano intrínseco e constante, mas sim fluido e variável de acordo com sua serventia para determinados interesses.

O longa tem estreia prevista para 2 de maio, confira o trailer:

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