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Manual de Sobrevivência em Escadas Rolantes
Matéria Escura
06 jul 2018 | Por Jornalismo Júnior
Por Breno Queiroz (breno.rqueiroz@gmail.com)

Maior escada rolante do Brasil – Metrô República

Respeite-as e as trate como merecem. Pois já lhe colocaram para cima, quando você estava para baixo. Escadas rolantes são meio de transporte. E um dos mais seguros, junto com os elevadores — mesmo para você que gosta do perigo e já tentou escorregar pelo corrimão, sentar nos degraus (degraus? degrais? degrau.), ou fazer a famosa barreira humana para testar a paciência de quem vem atrás.

Talvez não estejamos acostumados a pensar no quanto, e no como, essa segurança é garantida. Talvez você tenha reparado, mas nunca tenha encostado, no botão vermelho semi-escondido no início e no fim da escada.

Foto: Escal – Escadas Rolantes e Elevadores

Esse é o botão de parada. Uma trava de emergência para caso as máquinas queiram começar sua revolução, seu tênis esteja desamarrado e o cadarço acabar preso nas engrenagens. Ou para alguém que, no dia tão esperado do seu casamento, tenha o vestido de cauda longa sugado pelos degraus.

Assim é. Nem em escadas rolantes podemos confiar nos dias de hoje. Como tudo, elas eram divertidas no começo. A primeiríssima foi exposta em 1896, pelo inventor Jesse Reno, em um parque de diversões de Nova Iorque, onde as pessoas subiam, desciam e já era alegria suficiente para o final do século 19. Imagine ficar contente subindo as várias escadas do metrô paulistano todo dia.

Foto: Untapped Cities

Tanto costume é pisar nos degraus e ser içado com maestria, tão repetida a ação, que deixamos de nos cuidar. A velocidade pode não passar de dois km/h, mas o equipamento todo chega a pesar até seis toneladas! É de se deduzir que o motor, apesar de despercebido, tem de ser muito forte. As mãos devem estar sempre no corrimão. Nojo de encostar naquilo? Sabe-se lá, vai que a energia acaba no shopping. Em um plano inclinado, caso ocorra uma parada inesperada, não vai ser legal provar da inércia de um movimento tão custoso.

Tudo bem se, depois de todas essas informações, você ainda sente que escadas rolantes são um tanto inúteis. Tudo bem mesmo. Afinal, quem nunca pensou: “escada rolante para quê? As pessoas poderiam ser mais saudáveis e subir sozinhas, gastando menos energia, etc. Ora, ninguém espera de você uma grande reflexão sobre algo tão comum. Mas não só as escadas rolantes, como também os elevadores servem como solução para vários problemas de mobilidade.

Por exemplo, podemos ver nessa excelente tropicada, — dada pelo repórter Fabricio Battaglini, em uma matéria sobre segurança em escadas rolantes para o programa Mais Você — a necessidade do binômio: escada rolante e elevador. Na hora de descer a escada com um carrinho de bebê, tira-se as mãos do corrimão para segurar o carrinho, que já está bem inclinado. Sem as mãos, se por algum motivo o funcionamento da escada for interrompido, não há como resistir à inércia, e você vai acabar jogando um bebê escada abaixo. Recomendação: não é seguro na escada, use o elevador.

As escadas rolantes e elevadores são as ferramentas que garantem às pessoas com deficiência um direito básico previsto em nossa Constituição, que é o direito de ir e vir.” A fala é da deputada federal Mara Gabrilli (PSDB-SP), uma referência no assunto. Já foi até mesmo secretária da Pessoa com Deficiência da Prefeitura da capital paulista. Nossa entrevista teve as perguntas intermediadas pelo seu assessor de imprensa, mas, sendo uma autoridade na área, a deputada mostrou um lado político — e muito negligenciado —  das escadas rolantes.

E não só as pessoas com deficiência precisam desses equipamentos, mas [também] os idosos, uma mãe com um carrinho de bebê, um homem carregando uma mala pesada, por exemplo. O bom funcionamento destes equipamentos é de fundamental importância para garantir a acessibilidade e, consequentemente, o ir e vir de qualquer cidadão.”

Entendeu? Escada rolante não é supérfluo, não é luxo, nem é um sinal da preguiça dos humanos modernos. É a garantia de um direito. Algo que mostra o quanto um Estado se preocupa em ampliar sua estrutura para atender qualquer cidadão, independente da sua condição física. Ou nas palavras de Mara Gabrilli: “Costumo dizer que não são as pessoas que têm deficiência, mas sim as cidades. Quando você dá possibilidades às pessoas, quando as tecnologias assistivas te permitem agir em condição de igualdade com todas as pessoas, a deficiência diminui. Por outro lado, quanto mais falhas, menos acessibilidade. E maior a deficiência.”

Vejamos, então, como é o quadro da acessibilidade em um exemplo prático: o metrô do estado de São Paulo. Em uma matéria do G1, feita no final de 2017, foi apontado que as falhas em escadas rolantes estão em uma curva crescente. A CPTM (Companhia Paulista de Trens Metropolitanos) teve uma média de oito falhas por dia. Enquanto, no metrô, o número de horas de escadas rolantes paradas subiu 14% em relação ao ano de 2016. A assessoria do metrô foi contactada para atualização dos dados, que são do ano passado. Mas nenhuma resposta foi enviada até a data desta publicação.

Se a comunicação do metrô não tem agilidade para dispor os dados e esclarecer a situação; a segunda metade do problema tenta explicar tudo com respostas prontas.

“A Thyssenkrupp é a marca em mobilidade urbana do Metrô de São Paulo, maior e mais movimentado sistema de transporte metroviário do Brasil.” Isso está em um blog alimentado pela própria empresa, e quer dizer que a maior parte dos contratos do metrô, no que diz respeito a escadas rolantes e elevadores, são fechados com a Thyssenkrupp, incluindo uma intensa rotina de manutenção.

As escadas são projetadas para uma vida útil de vários anos, porém a condição de tráfego imposta ao sistema é fator diretamente proporcional à necessidade de intervalos de manutenção.” A entrevista também foi intermediada por uma assessoria de comunicação, só que dessa vez uma agência externa. As perguntas foram alegadamente entregues a Joel Coelho — referido como “Gerente do ITS – International Technical Services da área de negócios Elevator Technology da Thyssenkrupp para o Brasil e América Latina” —, portanto, suposto autor da fala que inicia este parágrafo.

A resposta sobre o número crescente de falhas está reproduzida integralmente, como foram entregues à reportagem:

“As escadas rolantes são equipamentos de uso público e funcionamento contínuo; para prevenir a segurança dos usuários o projeto e construção desses equipamentos devem seguir requisitos definidos por uma norma; no Brasil é definida pela ABNT NBR NM195.

Isso significa que vários dispositivos de segurança devem estar disponíveis para prevenir a operação segura do equipamento, contando com vários sensores, chaves e sistemas de segurança que, por exemplo, paralisam o equipamento em caso de mau uso.”

Existem assessorias e assessores. Quem dera o conteúdo desta matéria precedesse os questionamentos nela mesma contidos. Assim, seria possível para o próprio fabricante das escadas rolantes compreender a dimensão do seu produto, no sentido da garantia de direitos. Ainda mais quando se orgulha de ser um grande parceiro do Estado, e portanto, uma empresa que deve atender aos interesses públicos de transparência e credibilidade.

Talvez eles achem válido a máxima: “escada rolante não quebra, apenas vira uma escada.”

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