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21 out 2016 | Por Jornalismo Júnior

O que se pode encontrar no Atlas Fotográfico de São Paulo e Arredores?

Nota: Para que o texto seja mais proveitoso acompanhe as fotos neste site. Digite o número da foto mencionada ou o nome do local na barra de busca para acessar a imagem. Confira também o site de Tuca Vieira com mais detalhes e materiais sobre a exposição.

Nunca vi luvas guardadas nos porta-luvas dos carros. Quando criança, o que normalmente eu encontrava ali era um livro enorme, cheio de mapas e nomes de ruas. Eu não conseguia entender o Guia de Ruas de São Paulo e achava mágico que meus pais pudessem chegar a qualquer lugar usando aquilo. Na verdade, acho que eles só sacavam o Guia quando se perdiam. Logo, ver o livro era um sinal de que algo não andava bem.

Junto com as listas telefônicas e as Barsas, o Guia é mais um exemplar da categoria de livros que ficam em pé que hoje perderam seu sentido. Quer dizer, até que o fotógrafo Tuca Vieira decidiu realizar o Atlas Fotográfico da Cidade de São Paulo e arredores, colocando o livrão de volta no mapa.

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Foto: Raphael Concli

O trabalho parece fruto de um aluno excêntrico saído da escola de cartografia de que conta Jorge Luis Borges, onde os cartógrafos eram tão precisos que produziam mapas do tamanho das cidades e impérios que retratavam: o fotógrafo foi a cada um dos 203 quadrantes que no guia dividem a cidade de São Paulo e seus arredores – abrangendo municípios como Mauá, Santo André, Taboão da Serra, Caieiras, entre outros – para tirar uma única fotografia de cada um deles.

Com este motivo simples, mas que demanda imenso trabalho, a proposta de Tuca se mostra como uma espécie de brincadeira desafiadora à própria ideia de um Atlas e aos limites da representação na fotografia.

Dada a extensão territorial que cada foto simboliza (cerca de 9km²), a ideia de que ela possa representar aquele quadrante como um todo é uma ilusão. Para isso Tuca poderia ter feito grandes imagens aéreas, enquadramentos panorâmicos de pontos de observação elevados. Mas ele se coloca dentro da cidade, com os pés e câmera no chão, para fazer suas imagens deliberadamente parciais.

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Foto: Raphael Concli

Não se pode esperar que todos os moradores de Pirituba sintam-se representados pela igreja que domina a foto 033. Ou que a loja Pernambucanas traduza o jardim Zaira em 140. Mas igreja e loja estão de fato nestas regiões, dizem algo sobre elas. Talvez sejam simplesmente locais que se destacam e se impõe ao olhar, seja pelo contraste com as moradias, pelo colorido dos vitrais ou pelo berrante do amarelo publicitário. Quantas vezes na cidade nossa percepção não é atraída por um único prédio que se destaca por razões as mais diversas?

A abordagem de Tuca talvez possa ser ilustrada em contraste com outra célebre foto dele mesmo, o icônico mostra  a favela de Paraisópolis ao lado de um condomínio de luxo. Tuca retorna à região no Atlas (117) e agora opta por observá-la de dentro. Os mesmos locais estão lá: a favela e os condomínios. O fotógrafo, entretanto, opta por retratar agora apenas um cruzamento de Paraisópolis. A simbologia da desigualdade dá lugar a do cotidiano.É uma imagem aparentemente banal, cotidiana, mas mostra que esta parte da cidade pode ser dita desta maneira. Esta é a experiência de quem está aqui. Pensando no que a imagem não mostra, é curioso notar como é possível estar nesta parte da cidade e sequer notarmos os condomínios de luxo vizinhos. Para quem não sabe que eles estão ali, novamente a foto mostra como é possível ignorá-los.

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Foto: Raphael Concli

Podemos então pensar em um aspecto fundamental do Atlas fotográfico: ser representativo não significa dizer ou conter tudo sobre algo; o representativo pode ser algo muito parcial, mas mesmo assim dizer algo sobre o objeto de que fala (cada quadrante) e sobre o todo em que se insere (a cidade).

Se abandonarmos a expectativa de que as imagens devam representar ou uma totalidade ou algo que nos seja familiar, ficamos livres para prestar atenção à estética própria de cada foto. É aí que se encontra a justificativa de cada imagem em particular e o diálogo com as outras que a cercam. Este jogo entre parte e todo é amarrado pela própria estrutura de mapa, que fundamenta a exposição.

O Atlas se constrói pelo esforço subjetivo de se compreender a cidade que cada cidadão faz todo dia em seus trajetos. Cada um de nós cria um mapa pessoal, constrói uma iconografia própria para identificar os lugares por onde passamos e vivemos, imagens que traduzem e representam a cidade para nós. O que Tuca apresenta, afinal, parece ser sobretudo um mapa de percepções

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Foto: Raphael Concli

Diversos jogos de percepção são propostos ao longo das imagens, como o paralelismo dos muros e galpões ou das pilastras de construção em 25 e 26. Ou o contraste que o prédio cinza de linhas definidas estabelece com os outros ao fundo em 138.

Se vamos do Ipiranga à Vila Alpina cruzando São Caetano, outro jogo de contraste se faz. Passamos de um imenso prédio que ocupa o quadro quase todo a um sobrado simples, pichado e grafitado passando no meio por um descampado cheio de mato, com uma imensa chaminé abandonada no centro. Em 70, Sé, é a imposição do volume de prédios que preenche todo o enquadramento, tal como se preenche a visão de quem anda pelas galerias do centro. Em outros momentos somos levados ao transitório (até quando o brinquedo kamikaze irá marcar aquele trecho de Guaianazes, 076?) ou ao bizarro (casa verde, 052).

Mas em meio a estas inúmeras percepções sobre a cidade, um senhor passa com suas duas filhas e diz “só tira foto de prédio, só!”. Ele vê as fotos sem parar o passo, sempre de olho nas meninas. Logo em seguida algo lhe chama a atenção e ele emenda: “Olha, ele tirou uma foto de uma casa rachada ao meio!”. Sua forma de perceber à exposição é análoga a uma forma de se perceber à cidade. Assim como o Atlas de Tuca, creio que as breves observações deste senhor também dizem muito sobre a cidade.

Por Raphael Concli
raphconcli@gmail.com

 

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