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Maria e João: O Conto das Bruxas – A emancipação de Maria
CINÉFILOS
19 fev 2020 | Por Karina Tarasiuk (karinatarasiuk@usp.br)

Maria e João: O Conto das Bruxas (Gretel & Hansel, 2020) é baseado na história original dos irmãos Grimm, publicada em 1812. No entanto, possui uma diferença já explícita no título: o aparecimento do nome de Maria (Sophia Lillis) antes do de seu irmão. Ela é a protagonista. A trama é focada em seu psicológico, seus medos e responsabilidades, e sua descoberta com um lado até então oculto de sua vida.

A trama é simples e consiste em poucas personagens. Inicia-se com a lenda de uma garota que, ao ser curada de uma doença por uma feiticeira, foi amaldiçoada. Possuía o dom de prever a morte das pessoas e, inclusive, causá-la. Com medo, sua mãe a abandonou na floresta. A história é conhecida pelos irmãos, e sua moral é que “nenhum presente é de graça”, algo que Maria sempre tem em mente.

Maria, além de protagonista, é também narradora, e comenta que seu irmão pequeno, João (Sammy Leakey), sempre está por perto. Com o pai morto e a mãe ausente, Maria se tornou uma segunda mãe de João, forçada a amadurecer papel muitas vezes inevitável a irmãs mais velhas. 

Logo no início, está à procura de emprego e é assediada pelo futuro patrão. A cena é breve e sutil, mas não perde sua importância e mensagem, visto a frequência com que patrões desejam unir sua superioridade social à suposta superioridade de gênero, de forma a se aproveitarem das empregadas. Mesmo necessitada do emprego, Maria recusa a proposta – o que, infelizmente, não é uma possibilidade a muitas garotas em situação vulnerável.

A mãe das crianças, sabendo da recusa do emprego, se enfurece e expulsa os filhos de casa, pois não aguenta mais sustentá-los e, se eles não fugirem, irá matá-los. É a partir daí que a história continua como todos a conhecem. Sem nada além das próprias roupas, Maria e João devem buscar uma nova vida.

Vão para a floresta, onde conhecem um caçador (Charles Babalola) que os recomenda irem a uma vila. Continuam sua viagem, mas perdem as forças por estarem famintos. Durante todo o caminho, Maria vê e ouve coisas estranhas e misteriosas, as quais seu irmão não percebe. Em determinado momento, encontram uma casa com um banquete servido – mas sem sinal de habitantes. A cabana escura e, aparentemente, abandonada é muito mais realista e sombria que a “casa de doces” da versão conhecida.

A casa da bruxa é mais assustadora e realista do que a original “casa de doces” [Imagem: ORION Pictures]

É aí que surge a bruxa (Alice Krige). Logo de início, a personagem tem um ar assustador, no qual já não se pode confiar. Porém a fome, o desespero e o abandono não possibilitam uma segunda alternativa. Os irmãos se hospedam no local. João, como qualquer criança pequena, se encanta com os banquetes e não malicia o risco de ficar em um lugar desconhecido. Maria, mais velha e mais esperta, torna-se atenta. E todas as noites tem pesadelos que não parecem apenas pesadelos.

A partir disso, desenvolve-se um mistério sobre quem é a bruxa e o que é aquele local, com uma possível relação com a menina da história. A trama se torna cada vez mais macabra, com elementos perturbadores que, embora poucas pessoas saibam, aparecem na história original. As adaptações infantis tornaram a história mais sutil, um pouco diferente da versão dos irmãos Grimm, e o filme soube recuperar esses elementos. A paleta de cores auxilia nesse processo: as imagens são baseadas em tonalidades frias, geralmente cinzas e marrons, com exceção de momentos em que cores quentes, do Sol e do fogo, sobressaem-se na tela. 

A sequência de cenas traz vários sustos, além de uma ansiedade agonizante sobre o segredo que a bruxa esconde e o futuro dos irmãos. O sentimento de que algo está errado prevalece. Entre o medo e o mistério, um sentimento garante a esperança: o amor fraterno. Mas, na tentativa de salvar seu irmão, Maria amadurece o suficiente para saber que nada é de graça e que alguns sacrifícios devem ser feitos.

A paleta de cores reforça a atmosfera de terror e suspense [Imagem: ORION Pictures]

A atuação de Sophia Lillis é surpreendente. A atriz consegue representar bem a evolução psicológica da personagem diante dos acontecimentos e das descobertas que mudarão sua vida. Alice Krige também chama atenção à interpretação que fez da vilã, mas o elogio não é só seu: grande parte da expressão do papel da bruxa se deve à equipe de maquiagem, que conseguiu deixá-la assustadora e misteriosa.

O desfecho é inacabado e divergente do original, gerando curiosidade a quem assiste. Com uma versão mais séria, porém ainda fantasiosa, a narrativa mostra que nem todos os contos de fada têm um final totalmente feliz.

O filme não decepciona, mas também não surpreende. Por ser uma adaptação de uma história bem conhecida e explorada, dificulta-se inovar no enredo. O destaque dado a Maria, no entanto, é um ponto positivo que faz valer a pena assistir.

O longa estará disponível nos cinemas a partir do dia 20 de fevereiro. Confira o trailer

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O Cinéfilos é o núcleo da Jornalismo Júnior voltado à sétima arte. Desde 2008, produzimos críticas, coberturas e reportagens que vão do cinema mainstream ao circuito alternativo.
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