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Marvin: entre os traumas e a esperança
CINÉFILOS
06 set 2018 | Por Jornalismo Júnior

(Imagem: Divulgação)

Baseado no livro autobiográfico de Édouard Louis, O Fim de Eddy, Marvin (Marvin ou La Belle Éducation, 2018), filme francês dirigido por Anne Fontaine, é também uma autobiografia: um garoto homossexual que (d)escreve sua própria tragédia na busca por respostas sobre sua sexualidade. Nessa trajetória, o teatro tem um papel fundamental no desenvolvimento do jovem.

A busca por adaptação e superação

Nascido em uma pequena aldeia no campo, o garoto Marvin Bijou cresce em um ambiente hostil, com pais ausentes e alheios às violências que sofria na escola. Ao mesmo tempo, ele nutre desejos sexuais por esses abusadores devido a sua grande confusão com sua sexualidade.

Os abusos físicos, psicológicos e sexuais que o garoto sofre fazem com que ele comece a questionar se foge dos padrões. Marvin é frequentemente colocado à frente de algo que remete à homosexualidade, como em uma cena em que lê “morte aos gays” pichado na parede, e em seguida pergunta ao pai o que significa.

Toda esse caminho de incertezas e dúvidas começa a mudar quando Madeleine Clemente (Catherine Mouchet), diretora do ensino médio, coloca-o em uma aula de teatro. A partir daí, o garoto começa a explorar sua verdade reprimida, apesar de ainda se sentir fora de contexto.

É justamente o teatro que irá amadurecer o personagem e delinear seus futuros passos. A arte é colocada nesse filme como uma maneira de trabalhar os próprios traumas, e é por meio deles que Marvin irá alcançar seu auge profissional e como pessoa esclarecida: um monólogo sobre sua vida encenado por ele e por Isabelle Huppert, que, no filme, é interpretada pela própria Isabelle.

Um refúgio no teatro. (Imagem: Divulgação)

Com uma força mental incrível, o protagonista transpassa os obstáculos colocados pela vida para se transformar no conhecido Martin Clement, seu nome artístico – uma homenagem a sua antiga diretora da escola. Ao mudar de nome, ele tenta se desvincular dos eventos trágicos de sua história e sobrevoa-os.

Há, também, uma questão muito pontual que Anne Fontaine realizou de modo singular, que foi a profundidade humana de todas as personagens. Apesar de mostrar-se intolerante, o pai de Marvin não é de todo violento. O homem interpretado por Grégory Gadebois nunca puniu os filhos fisicamente e tenta uma aproximação com os sonhos do menino ao levá-lo à estação de trem.

Por trás dos conflitos e dos modos ríspidos, existe alguém que se importa com o filho. (Imagem: Divulgação)

 

Uma produção não meramente ilustrativa

Um vai em vem cronológico entre passado e presente é um importante aspecto trabalhado no longa, pois de maneira inteligente demonstra que muito do que alguém vive está altamente relacionado com fatos passados de sua vida, sendo justamente o que ocorre com Marvin.

Esse deslocamento temporal é feito de modo sutil, as épocas se fundem nas imagens e nas vozes de idades distintas. Um movimento constante e fluido entre períodos. Além disso, no momento em que o jovem está escrevendo seu monólogo, há uma projeção das memórias ao fundo do ambiente – um meio de representar o ato de criação, o fazer artístico.

A câmera também tem um papel fundamental e funciona com genialidade. Ela nunca está totalmente imóvel, com o enquadramento levemente deslocado, desfoque e, por vezes, apreciação do segundo plano. O dilema da personagem com relação ao próprio corpo é reforçado pelo fechamento da imagem nos detalhes corporais – costas, rosto, mãos.

Como se não bastasse se alinhar com o script, a filmagem foi capaz de trazer pessoalidade e aproximação. Em alguns diálogos, o balanço da câmera simula a respiração e faz com que o espectador tenha plenamente o ponto de vista de Marvin, como se estivesse vivenciando o mesmo que ele naquele momento.

Distribuído pela Mares/A2 Filmes Marvin é exibido nos cinemas a partir de 6 de setembro.

Por Crisley Santana e Tainah Ramos
crisley.ss@usp.br
tainahramos@usp.br

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O Cinéfilos é o núcleo da Jornalismo Júnior voltado à sétima arte. Desde 2008, produzimos críticas, coberturas e reportagens que vão do cinema mainstream ao circuito alternativo.
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