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MUBI: ‘Matthias e Maxime’ sensibiliza ao revelar o não-dito
CINÉFILOS
10 set 2020 | Por Thiago Gelli (thiago.gelli@usp.br)

Um beijo de cinema. É esse o conflito central de Matthias e Maxime (Matthias et Maxime, 2019), o mais novo filme do célebre cineasta e ator franco-canadense Xavier Dolan. Distribuído mundialmente pela plataforma de streaming MUBI em 28 de agosto, o longa estreia após os trabalhos mais negativamente criticados do diretor — e felizmente surpreende.

Matt (Gabriel D’Almeida Freitas) e Max (Xavier Dolan) são amigos de infância, inseparáveis salvo as diferentes letras que finalizam seus apelidos. O primeiro, um executivo de sucesso, o segundo, um bartender pronto para fazer as malas e partir esperançoso para a Austrália em duas semanas. É uma noite de festa entre amigos que os abala, quando acabam fazendo parte de um curta experimental. “Duas mulheres. Vocês são duas mulheres ou homens. Aí do nada, bam! Vocês estão se beijando. É a única coisa verdadeira” diz Erika (Camille Felton), a diretora — apresentada como motivo de piada por sua prepotência, mas peculiarmente a par dos temas do longa.

O beijo, no entanto, ninguém viu. Nem mesmo os espectadores. Não se sabe se um dos personagens recuou, ou se um avançou mais rapidamente, se foi prolongado ou curto, frio ou apaixonado, não é exposto como eles interagiram logo após o ato ou como foi o resultado final gravado. Matthias e Maxime é um filme que se sustenta sobre antecipação e incerteza, que compõe seu tom como um sussurro trêmulo de amor possivelmente não correspondido. A real protagonista é a ideia assombrosa daquele momento, o resto é ar sendo sugado antes da combustão iminente proposta pelo longa-metragem.

Maxime observa Matthias. [Imagem: Divulgação/ MUBI]

A jornada ao clímax se assenta nas turbulentas repercussões do acontecimento: uma divisa repentina, a desestabilização de preceitos dos personagens e a passagem do tempo que se aproxima à partida de Maxime. Torna-se, então, um filme sobre o não falado, assim como o medo de nunca falar.

É o campo perfeito para que o diretor Xavier Dolan possa explorar suas capacidades visuais e imponentes escolhas estilísticas. Se uma cena se acelera, os amigos permanecem em seu próprio tempo. Os enquadramentos reclusos e o foco divagante turvam o mundo alheio à relação entre os dois, enquanto as escolhas da trilha sonora dão vida à tensa quietude — e poucos filmes podem se orgulhar dos sons de Britney Spears, Arcade Fire e Pet Shop Boys ao longo de suas duas horas.

Dentro do vácuo criado em torno dos homens, é difícil imaginá-los separados. Suas figuras são contrastantes, porém essencialmente fundidas. Tendo amadurecido lado a lado — e, sobretudo, sido a melhor e mais estável parte de suas vidas — Matthias e Maxime desenvolvem suas identidades de maneira difusa e entrelaçada.

Seus corpos são espelhados por camisetas similares, mas de cores opostas no espectro da luz. Suas experiências são as mesmas, mas as memórias não. A vulnerabilidade de Max está sempre exposta através da marca de nascença em seu rosto, referencial de uma criação conturbada, mas Matt se esconde atrás de uma assertividade calculada.

Nessa dinâmica, a relação exposta não cansa em se ressignificar. Configura-se como romance tanto quanto se volta ao amor próprio e à autodepreciação. Pode ser um mero escape das realidades desconfortáveis de ambos, o estágio corpóreo da mescla de personalidades, ou resultado da tormenta da separação que se aproxima com a viagem de Max.

Max e Matt, em seus figurinos contrapostos, horas antes do beijo. [Imagem: Reprodução/Youtube – TriArt Film]

Mesmo assim, no centro dessa multiplicidade de interpretações, repousa o estudo do diretor acerca de amizades entre homens. Xavier subverte a masculinidade normativa, encara o homoerotismo com olhos clínicos e se dedica inteiramente a revelar as camadas de uma afetuosidade resguardada. Sua performance e a de Gabriel manipulam essas emoções belamente em tela, e seus momentos a sós se tornam incendiários e crus, incômodos ao espectador como se espiasse uma intimidade real.

De tal simplicidade explosiva de experiências e amizades verossímeis, Dolan extrai um espetáculo tão desorientador quanto sereno — e especialmente doce. Seu percurso pelos 120 minutos não é sempre homogêneo, mas nunca suspenso da paixão essencial à narrativa.

Matthias e Maxime é um filme vívido, pautado na exploração contemporânea e repaginada de sensibilidades antigas. Em sua riqueza emocional, é certo que evoque múltiplas experiências. Poderia ter sido feito tanto como um romance convencional quanto uma tragédia, mas é bem definido como um catalisador de sentimentos irrestritos.

O longa fica em exibição na MUBI até o final de setembro. Confira o trailer:

*Capa: [Imagem: Divulgação/ MUBI]

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O Cinéfilos é o núcleo da Jornalismo Júnior voltado à sétima arte. Desde 2008, produzimos críticas, coberturas e reportagens que vão do cinema mainstream ao circuito alternativo.
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