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Mel, leite, ovo e a construção de um personagem
CINÉFILOS
20 ago 2010 | Por Jornalismo Júnior

Bal, mel em português, mas na tradução que ficou para o título “Um Doce Olhar”, é o último filme de uma trilogia bem sucedida do turco Semih Kaplanoglu. Além de dirigir os três filmes, Semih também é responsável por seus roteiros e produção. Apesar das poucas verbas o filme conquistou o Urso de Ouro de 2010 no Festival de Berlim. Bal conta a história do menino Yusuf, interpretado por Bora Altas. Filho de um apicultor (Erdal Beşikçioğlu) que precisa subir em árvores altíssimas para conseguir mel, pois lá estão as colméias, e de mãe (Tülin Özen) que trabalha no cultivo de plantações. A pequena família vive em um casebre distante de qualquer vilarejo turco. Antes de chegar à escola, a qual vai todos os dias, o menino precisa passar por uma longa estrada de terra lamacenta, mas também por paisagens de tirar o fôlego.

Yusuf está aprendendo a ler e escrever, mas encontra dificuldades. O garoto pouco fala e, quando fala, sussurra, assim como seu pai quando lhe conta histórias incríveis sobre o que lhe aconteceu quando esteve na floresta. Certo dia, o pai percebe que não há mais mel, as abelhas sumiram. Ele então tem a idéia de passar alguns dias fora e recolocar as colméias em um lugar mais distante de seu casebre para ver se a produção volta a crescer. A ausência do pai, a pessoa com quem até então Yusuf mais tinha afinidade, vai provocar mudanças no comportamento já recluso do garoto.

Esse filme vem para explicar porque o Yusuf de Bal virá a se tornar o adulto Yusuf em Yumurta (ovo), o primeiro filme da trilogia. A história desse personagem que na infância tinha dificuldades para ler e na idade adulta se torna um poeta é contada pelos três filmes de forma invertida, começando com o adulto (ovo), indo para o adolescente (Süt – leite) e chegando no menino (mel). Cada um deles explicando uma parte da vida de Yusuf, quem ele é e porque é assim.

A estratégia de começar a trilogia pelo final é interessante, foge ao tradicional e costuma ser divertida. Isso porque se tem um personagem do qual não se sabe nada e ao regressar em sua vida descobre-se porque ele tem certas manias, de onde vem seus traumas, quem ele realmente é. Assistir aos filmes é quase como de fato conhecer Yusuf, pois quando se conhece uma pessoa, não se sabe instantaneamente tudo sobre ela e o que se passou em sua infância e adolescência, mas se vocês se tornarem amigos, poderá saber.

Assistir a Bal antes dos outros é estragar o mistério sobre quem é Yusuf, apesar de, ao pensar cronologicamente, ele ser o primeiro, Semih não o escreveu para que fosse assim. Vendo apenas Bal, você não consegue entender a complexidade do personagem. Mas, mesmo sem ter visto os outros, é fácil se admirar com o lindo trabalho de fotografia, se impressionar com o jeito de Semih de dirigir, como se de fato fosse o “olhar da criança”, às vezes confundindo sonho e realidade, olhando tudo com espanto, como se apenas flashes da história fossem mostrados ao espectador, os fragmentos em que Yusuf esteve presente. Ver Bal é parar para assistir um filme que não tem muita ação, tiroteio ou explosões. É prestar atenção nas sutilezas e não nos efeitos especiais. É um filme para ser sentido, para ser degustado, assim como o mel.

Por Juliana Malacarne

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O Cinéfilos é o núcleo da Jornalismo Júnior voltado à sétima arte. Desde 2008, produzimos críticas, coberturas e reportagens que vão do cinema mainstream ao circuito alternativo.
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