Home I'm Sorry, Dave O legado da humanidade e o que nós deixamos para o futuro
O legado da humanidade e o que nós deixamos para o futuro
I'm Sorry, Dave
27 jan 2021 | Por Vinícius Byczkowski (viniciusbyczkowski@usp.br)

A humanidade deixou sua marca na Terra. O ser humano colonizou o planeta, construiu monumentos e alterou a paisagem por onde passou. Raros são os lugares em que não se encontra algum vestígio que acuse a presença humana e, se alguma espécie extraterrestre visitasse a Terra hoje, não demoraria muito para se deparar com uma de nossas pegadas. Mas e se a humanidade, por algum motivo, deixasse de existir? Quais seriam os vestígios que nós deixaríamos para trás? Quanto tempo levaria para que a nossa história fosse apagada e a existência da nossa espécie esquecida? Neste texto do Laboratório, você confere o legado da humanidade enviado para o espaço e as mensagens que deixamos para o futuro. 

 

Espaço – o quintal da Terra

Os primeiros vestígios de vida humana que podem ser vistos no espaço são os satélites artificiais. A órbita terrestre possui milhares de satélites criados por humanos, que são evidências da existência da espécie. Alguns deles, porém, carregam consigo ainda mais informações, como  o LAGEOS-1, um dos satélites lançados na missão LAGEOS, em 1976.

Ele tem uma particularidade: entre suas funções, o satélite funciona como uma cápsula do tempo. Isso porque LAGEOS-1 carrega consigo uma placa, desenvolvida pelo cientista Carl Sagan, em que se têm escritos os números de um a dez em linguagem binária e três representações da disposição dos continentes do planeta Terra em diferentes momentos da história: como era há 250 milhões de anos, como é hoje e a estimativa da Ciência para daqui 8.4 milhões de anos. Este intervalo não é aleatório: estima-se que, por conta do campo gravitacional da Terra e da proximidade do satélite, LAGEOS-1 será atraído de volta para a superfície terrestre nesse prazo e, assim que voltar, servirá como uma mensagem para os humanos do futuro, ou para qualquer outra espécie inteligente que estiver habitando o planeta.

Placa acoplada no satélite LAGEOS-1. [Imagem: Carl Sagan/Wikimedia Commons]

Placa acoplada no satélite LAGEOS-1. [Imagem: Carl Sagan/Wikimedia Commons]

Outros satélites, porém, como os de comunicação, encontram-se nas órbitas geoestacionárias. Enquanto LAGEOS-1 fica a uma altitude de 5900 quilômetros de altura em relação à superfície terrestre, os satélites geoestacionários estão a cerca de 36 mil. Por conta disso, estes satélites estão muito menos sujeitos a serem atraídos pela Terra nos próximos milhões de anos e, portanto, devem perpetuar o legado da humanidade por muito mais tempo. 

Além dos satélites artificiais, a humanidade também deixou sua pegada no satélite natural da Terra, a Lua. A icônica pegada de Neil Armstrong não deve durar muito, por conta do grande volume de meteoritos que atingem a superfície lunar. As missões humanas à Lua, porém, deixaram outros vestígios por lá, desde pedaços de naves e sondas até bandeiras, bonecos e fotos.

Placa em homenagem aos astronautas que faleceram em nome da exploração espacial e arte em alumínio chamada “Astronauta Caído” [Imagem: NASA/Wikimedia Commons]

Placa em homenagem aos astronautas que faleceram em nome da exploração espacial e arte em alumínio chamada “Astronauta Caído”. [Imagem: NASA/Wikimedia Commons]

 

Legado Interestelar 

As mensagens apresentadas até agora encontram-se fora da Terra, mas, ainda assim, dentro do nosso sistema solar. Por mais que as distâncias entre o planeta e os satélites lançados, ou então a Lua, sejam expressivas para o parâmetro humano, uma viagem de centenas de milhares de quilômetros é irrelevante em comparação à imensidão do Universo. A presença humana, porém, vai além das fronteiras do Sistema Solar. O lançamento de sondas aumentou significativamente o nosso conhecimento a respeito do Universo e, consequentemente, o alcance dos vestígios que acusam a nossa existência. Atualmente, existem cinco sondas diferentes seguindo suas trajetórias fora do Sistema Solar: Pioneer 10, Pioneer 11, Voyager 1, Voyager 2 e New Horizons

As sondas Pioneer 10 e 11, lançadas há quase 50 anos, carregam consigo, assim como o satélite LAGEOS-1, placas com informações sobre a Terra e a espécie humana. As placas das sondas são mais complexas e trazem um diagrama que aponta a localização do Sistema Solar e representações de um homem e de uma mulher. Se interceptada por alguma outra espécie inteligente, as sondas poderiam se tornar a primeira mensagem enviada pela humanidade para uma espécie extraterrestre.

Placa encontrada nas sondas Pioneer 10 e Pioneer 11. [Imagem: NASA/Wikimedia Commons]

Placa encontrada nas sondas Pioneer 10 e Pioneer 11. [Imagem: NASA/Wikimedia Commons]

 

Talvez os extraterrestres não saibam ler

Entretanto, as placas das sondas Pioneer e do satélite LAGEOS-1 podem não ser  tão eficientes. Suponhamos que, em algum momento, uma outra espécie entre em contato com um dos nossos recados. O que garante que estes indivíduos entenderão o conteúdo da mensagem? Além disso, o que garante que essa espécie em questão vá conseguir enxergar da forma como nós enxergamos? Talvez o material das sondas seja nocivo a estes extraterrestres, ou então destruído pela presença deles. Talvez as nossas sondas sejam grandes demais ou pequenas demais para estas espécies, o que inviabilizaria a sua recepção e interpretação. O envio de placas para o espaço é, na verdade, um tiro no escuro. É uma tentativa de contato apoiada na possibilidade de existência de outras espécies como a nossa. 

Algumas mensagens, entretanto, são mais direcionadas. O Mensagens a Extraterrestres Inteligentes (METI) é uma organização destinada ao envio de mensagens para as zonas habitáveis, regiões em que a temperatura viabiliza a existência de água e, consequentemente, a existência de vida como conhecemos em nosso planeta. Além de ter um destino calculado, as mensagens enviadas pelo METI possuem outra vantagem: são enviadas através de ondas de rádio, portanto, viajam mais rápido no espaço. Também vale ressaltar que o envio de ondas de rádio não compromete o ambiente dos planetas destinatários, nem coloca quaisquer possíveis espécies em risco. Segundo Eder Molina, doutor em Geofísica pelo Instituto de Astronomia, Geofísica e Ciências Atmosféricas da USP (IAG-USP), grande parte da comunidade científica entende que não comprometer a estabilidade do ambiente estudado é um dos principais preceitos da ética na exploração humana.

Em outubro de 2017, a organização enviou da Noruega uma mensagem de rádio durante três dias seguidos em direção ao planeta GJ 237b, que possui características similares às da Terra. A mensagem é composta por informações ligadas à matemática, já que se acredita que as leis das ciências exatas se mantêm as mesmas em qualquer lugar do Universo.

 

A resposta das mensagens enviadas para o espaço

É claro que o envio de mensagens para o espaço é uma tentativa humana de tentar encontrar vida inteligente fora da Terra e talvez, assim, esclarecer mais dúvidas a respeito do Universo, mas, de toda forma, tudo que já foi produzido e enviado para o espaço conta um pouco sobre o que nós somos. Caso, algum dia, outra espécie encontre alguma das mensagens, quem sabe a humanidade conheça a vida fora da Terra. Se, por outro lado, a humanidade já tiver sido extinta, ou então a Terra ou o Sistema Solar todo tiver se desintegrado, aquilo que foi enviado para o espaço será a última lembrança da história da espécie. 

Laboratório
O Laboratório é o portal de jornalismo científico da Jornalismo Júnior. Apaixonados por curiosidades, nosso objetivo é levar a informação científica o mais próximo possível do público leigo. Falamos sobre saúde, meio ambiente, tecnologia, ficção científica, história da ciência, escrevemos crônicas, resenhamos livros, cobrimos eventos e muito mais!
VOLTAR PARA HOME
DEIXE SEU COMENTÁRIO
Nome*
E-mail*
Facebook
Comentário*