Home Centro de Treinamento Mergulhe no universo dos saltos ornamentais
Mergulhe no universo dos saltos ornamentais
ARQUIBANCADA
24 jul 2019 | Por José Higídio (zehigidio@usp.br)

Pular na água parece uma tarefa simples e sem segredos. É fácil imaginar isso sendo feito de maneira inconsequente em qualquer piscina por aí. Mas já pensou pular de alturas monstruosas, fazendo acrobacias, mantendo uma postura e tentando não espirrar muita água ao final?

Pois é nisso que consiste uma prova de saltos ornamentais. O Arquibancada resolveu entrar de cabeça no universo desse esporte e ir a fundo na sua história, nas suas regras e no deslumbramento que é capaz de provocar.

 

Primeiro impulso: entendendo a modalidade

Um salto é composto de cinco fases elementares: a posição inicial do atleta; a corrida até o final da superfície; a saída, ou seja, o impulso tomado pelo saltador; o voo, momento de realização das acrobacias; e a entrada na água. Cada um desses tópicos é avaliado pelos juízes de acordo com critérios específicos. A posição inicial, por exemplo, precisa seguir uma postura adequada; a entrada é melhor quanto mais vertical for e quanto menos água espirrar a partir do contato, e assim por diante.

O atleta Hugo Parisi explica e exemplifica os grupos de saltos

Ex-atleta e hoje consultor da Confederação Brasileira de Desportos Aquáticos, Ivan Paixão explicou quais atributos o saltador deve desenvolver para obter uma boa performance: “O atleta precisa de flexibilidade, força rápida, coordenação motora, percepção espacial e coragem”.

[Imagem: Letícia Flávia Guedes / Comunicação Visual – Jornalismo Júnior]

As alturas dos saltos podem variar, mas nas principais competições, incluindo os Jogos Olímpicos, existem duas categorias: a plataforma, localizada a uma distância vertical de dez metros da piscina, na qual o atleta é responsável por todo o seu impulso; e o trampolim, a três metros de altura, que é flexível e auxilia na impulsão do saltador.

Nas disputas femininas, são realizados cinco saltos, enquanto na masculina ocorrem seis. Cada salto possui um valor numérico que expressa seu grau de dificuldade, estabelecido pela Federação Internacional de Natação (FINA). Todos os saltos devem estar em conformidade com um boletim, apresentado pelo atleta à bancada de árbitros com no mínimo 24 horas de antecedência. O documento contém especificações da série a ser executada, e será a base para a análise que resultará na nota final.

Competições nacionais e internacionais contam com sete juízes, e as estaduais possuem cinco. No salto sincronizado, o contingente padrão é de 11 árbitros, sendo que um grupo avalia um dos atletas, outro grupo avalia o segundo saltador, e o restante julga a dupla como um todo.

Em todos os casos, cada um deles atribui uma nota de zero a dez para o salto. É aí que entra a matemática: as duas maiores notas, bem como as duas menores, são descartadas, e as restantes são somadas e em seguida multiplicadas pelo grau de dificuldade, resultando na nota do salto. Após todos os saltos da série, somam-se as notas e o vencedor é aquele com a maior soma.

Alguns detalhes e esclarecimentos sobre avaliação e pontuação

 

Salto no tempo: a história do esporte

Apesar da complexidade, as origens dos saltos ornamentais se relacionam com atividades de lazer no litoral da Grécia Antiga. A superação do caráter meramente recreativo se deu apenas no século XIX, na Europa, com provas realizadas em lagos e praias. 

Um dos precursores da modalidade é o mergulho à distância, que fez parte dos Jogos Olímpicos de 1904. Foi substituído logo na edição seguinte pelos saltos ornamentais como os conhecemos hoje, a partir da criação da FINA em 1908. Ainda assim, mulheres só foram incluídas no esporte em 1912.

O sueco Arvid Spångberg, bronze em 1908, saltando da plataforma [Imagem: Wikimedia Commons]

Durante quase todo o século XX, os Estados Unidos detiveram uma hegemonia nas conquistas internacionais, especialmente as olímpicas. Pat McCormick foi uma das principais atletas desta era, chegando a ganhar quatro medalhas de ouro olímpicas. Outro americano, Greg Louganis, posteriormente igualou sua marca e ainda conquistou uma prata.

Entretanto, desde os feitos de Louganis, nos anos 80, até os dias de hoje, essa supremacia passou para a China. Os destaques são Fu Mingxia, que igualou a marca de Louganis; Guo Jingjing, que ultrapassou os dois com uma prata a mais; Wu Minxia, que com cinco ouros, uma prata e um bronze é até hoje a saltadora com maior número de medalhas olímpicas; e Chen Ruolin, que já possui marca igual à de McCormick, mesmo tendo atualmente apenas 26 anos.

 

Um grande salto para a brasilidade: o esporte no nosso país

O Brasil realizou seu primeiro campeonato nacional em 1913 e participa das Olimpíadas desde 1920. No século XXI, atletas brasileiros começaram a conquistar medalhas nos Jogos Pan-Americanos: em 2003, Cassius Duran ganhou a medalha de prata na plataforma de 10 metros, desempenho igual ao de Juliana Veloso, que ainda foi bronze no trampolim de 3 metros. Ela também ficou em terceiro na plataforma em 2007, mesmo ano em que César Castro foi prata no trampolim. Na mesma prova, César obteve o bronze da edição posterior. Já 2015 foi o ano em que a dupla do sincronizado, formada por Ingrid de Oliveira e Giovanna Pedroso, alcançou a prata nos 10 metros.

Segundo Ivan Paixão, entre 2008 e 2016, aproximadamente, o Brasil passou por um período de glória e abundância de verba para os saltos ornamentais. Fora desse intervalo, no entanto, a situação é e sempre foi difícil. “O esporte necessita de muito dinheiro para se investir: competições, preparação dos atletas, bancar viagens, tudo isso demanda um investimento alto. Às vezes faltam recursos para assumir esses custos, então acaba ficando a desejar”, avaliou Paixão.

Juliana Veloso é a brasileira com mais medalhas pan-americanas no esporte [Imagem: Al Bello / Equipa]

Ivan acredita que para o esporte ter mais alcance no país é necessário um programa de habilitação dos técnicos e iniciação de crianças: “O Brasil hoje é um dos países que mais têm piscinas de saltos ornamentais, mas é um dos que têm o menor número de praticantes. Isso é um problema sério. Com treinadores capacitados, consegue-se usar a estrutura que se tem hoje em dia de maneira mais focada em qualidade de vida e bem estar, e não só no alto rendimento. Quando se criar uma massa de praticantes, aí sim nessa quantidade toda vai aparecer a qualidade”, disse.

O ex-saltador também ressalta a dificuldade de muitas pessoas interessadas na modalidade de acesso às piscinas, já que geralmente elas se encontram dentro de clubes, os quais exigem que o usuário seja sócio. Tornar o esporte mais facilmente realizável no país é um dos sonhos de Paixão.

 

Reverenciando a formosura dos saltos

“Os saltos ornamentais têm uma plasticidade muito grande, uma complexidade bacana, e você tem que se prender a muitos detalhes. Esses detalhezinhos são muito legais, e transformá-los em uma combinação finíssima é o que mais me encanta.”

A fala de Paixão mostra bem a mescla entre beleza e dificuldade que a modalidade proporciona. Mas apesar do espetáculo visual, o esporte ainda é pouco apreciado pelo público brasileiro. Agora que você já o conhece bem, talvez seja hora de acompanhá-lo mais e apoiar sua prática no país.

A modalidade é visualmente deslumbrante [Imagem: Clive Rose]

Arquibancada
O Arquibancada é a editoria de esportes da Jornalismo Júnior desde 2015, quando foi criado. Desde então, muito esporte e curiosidades rolam soltos pelo site, sempre duas vezes na semana. Aqui, o melhor de todas as modalidades, de todos os pontos de vista.
VOLTAR PARA HOME
DEIXE SEU COMENTÁRIO
Nome*
E-mail*
Facebook
Comentário*