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Meu Bebê: a “síndrome do ninho vazio” sob um olhar simples e sensível
CINÉFILOS
17 jun 2019 | Por Maria Luísa Bassan (malugomesdesa@hotmail.com)

Uma prova importante. O primeiro relacionamento. Viajar sozinha para outro país. Essas são algumas das situações pelas quais Jade (Thaïs Alessandrin), filha de Heloïse (Sandrine Kiberlain), está passando ao caminhar rumo à independência. A mãe, parceira, ao mesmo tempo em que está orgulhosa das conquistas da filha caçula, sente muito por perceber que o crescimento dela também significa não precisar mais auxiliá-la a cada passo.

Com trama singela e bem escrita, Meu Bebê (Mon Bébé, 2018) é um filme que ganha o coração pela simplicidade. A diretora Lisa Azuelos traz um pouco de sua própria experiência como mãe e filha às telas, sem torná-la pessoal ou distante demais do público. Mãe de três filhos e filha de Marie Laforêt, cantora famosa na França, Lisa lidou com constantes momentos de separação na infância e agora acompanha os filhos trilhando seus próprios caminhos. O enredo do filme também é inspirado em uma situação real: ao ver que a filha Thaïs Alessandrin (que dá vida à Jade no filme) iria se mudar para o Canadá, Lisa começou a gravar diversos momentos dela como forma de registrar memórias e sentir menos a despedida.

Meu Bebê traz a relação de Jade e Heloïse unindo momentos felizes e agridoces, sem tirar a sensibilidade e honestidade do laço entre as duas. O dilema principal que elas enfrentam é a viagem da caçula ao Canadá para continuar seus estudos. A mãe está orgulhosa da filha, porém sensível quanto a ficar sozinha depois de muito tempo, e Jade, mesmo feliz por estar caminhando com as próprias pernas, não quer se separar dos amigos, e principalmente da mãe.

Durante todo esse processo — entre a chegada da carta de aceitação e o exame nacional francês —, as duas passam por uma série de momentos que evidenciam a força da conexão entre elas. Por mais que seja esperado de Heloïse uma postura superprotetora quanto à caçula, ela não limita a filha em nenhuma situação, e esse respeito em relação aos desejos e interesses de Jade é um dos pontos altos do vínculo entre elas. Heloïse não impede que a filha beba, fume ou transe com o menino que gosta, por exemplo, mas procura orientá-la para que ela saiba lidar com decepções e planos não concretizados.

Heloïse e os filhos Théo, Jade e Lola [Imagem: Pathé Distribution]

Ao longo do filme, cenas da infância de Jade e dos irmãos Théo (Victor Belmondo) e Lola (Camille Claris) ajudam a criar o ritmo e a delicadeza da história, cativando o público ao mostrar como Heloïse se apoia nos filhos e como eles, sejam crianças ou adultos, nunca deixaram de se importar com ela, por mais que a mãe diga o contrário. A cena em que o celular de Heloïse some — o aparelho continha diversos registros da rotina dela com Jade — e os filhos se juntam para ajudar na busca traz muito do laço que os quatro criaram, principalmente depois do divórcio da mãe. O roteiro tem destaque não pela riqueza ou peculiaridade das cenas, que poderiam estar facilmente em comédias românticas e filmes adolescentes, mas pela simplicidade presente nos olhares, nos diálogos e nas lembranças construídas entre mãe e filha. Momentos como uma festa de aniversário ou a preparação do café da manhã carregam muito significado sob o olhar da diretora, e esses sentimentos são facilmente transmitidos para o público.

A reflexão sobre maternidade vai muito além da “síndrome do ninho vazio” levantada pelo filme como ponto principal. No papel de Heloïse, Sandrine Kiberlain traz às telas a cobrança constante que as mães sentem quanto a serem perfeitas e não poderem viver além dos filhos — e como essa cobrança pode ser intensificada por elas mesmas. Por Heloïse ser mãe divorciada, é levantada também a dúvida sobre ser ou não apropriado ter outro relacionamento, e lidar com todas essas questões é um processo exaustivo e muitas vezes solitário. O filme não é um guia de como ser mãe, mas uma lente sob a qual a maternidade é mostrada sem julgamentos. Heloïse não é limitada ao papel materno, e essa reflexão traz profundidade à personagem: se agora meus filhos estão crescidos, qual é a minha função? Olhar para si mesma depois de se colocar em segundo plano por tanto tempo é um processo trabalhoso — Heloïse, assim como a filha, precisa passar por uma jornada de autoconhecimento para então começar um novo capítulo em sua vida.

O choque de gerações, ainda que sutil, é bem trabalhado com músicas, filmes e diálogos, e em certos momentos é interessante ver como as idades não parecem corresponder a elas de modo direto. Jade tem o filme O Desprezo (Le Mépris, 1963), de Jean-Luc Godard, como um de seus favoritos, por exemplo, e a mãe apresenta gírias às amigas em uma conversa de bar. Nenhuma delas é resumida ao papel de “mãe” ou “filha”, mas mostradas como mulheres, com seus sentimentos, dúvidas e angústias. O filme é um delicado convite a olhar a relação mãe-filha sem julgamentos ao utilizar uma linguagem simples e verdadeira: o amor.

Meu Bebê está em cartaz no Festival Varilux. Sua estreia nacional está prevista para o dia 25 de julho. Assista ao trailer aqui:

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O Cinéfilos é o núcleo da Jornalismo Júnior voltado à sétima arte. Desde 2008, produzimos críticas, coberturas e reportagens que vão do cinema mainstream ao circuito alternativo.
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