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Em Midway, visão parcial da guerra entre EUA e Japão é destaque
CINÉFILOS
21 nov 2019 | Por Karina Tarasiuk (karinatarasiuk@usp.br)

Midway – Batalha em Alto Mar (Midway, 2019) retrata o conflito entre Japão e Estados Unidos durante a Segunda Guerra Mundial, após o ataque japonês a Pearl Harbor, base naval estadunidense. O filme mostra, detalhadamente, os eventos que prosseguiram ao acontecimento, sob o ponto de vista norte-americano. Porém, duas questões incomodam: a visão quase idealizada dos soldados americanos e a baixa participação feminina.

O nome do filme é referência a um plano militar japonês durante a guerra, que visava invadir o porto estadunidense de Midway, localizado no Pacífico. A batalha ocorreu em junho de 1942, e foi vencida pelos Estados Unidos devido à Inteligência da Marinha, que decodificou mensagens japonesas e conseguiu identificar a localização das tropas inimigas e o horário previsto para o ataque. A batalha foi decisiva para o fim da guerra.

A época é bem retratada a partir das roupas, músicas e tradições, como a delegação de funções domésticas exclusivas à mulher – nada mais do que mãe, esposa e dona de casa. Isso inquieta quem assiste. Por mais que mulheres, de fato, tivessem um papel quase insignificante na sociedade dos anos 1940, o filme não faz questão de mostrar além. Poucas mulheres aparecem na trama, e quase nenhuma possui nome. 

As personagens do filme são, em sua maioria, homens brancos [Imagem: Reprodução]

Talvez a personagem feminina com maior destaque seja Anne Best (Mandy Moore), esposa do protagonista Dick (Ed Skrein), piloto que ajuda a vencer a batalha. Em determinada cena, ela demonstra indignação quanto ao cargo de seu marido, que poderia, segundo ela, ser mais elevado. O acontecimento gera uma expectativa de que ela será mais do que mãe e esposa, mas isso não acontece. A personagem se restringe a esperar pelo marido e torcer para tudo dar certo, presa a um papel aparentemente passivo.

Anne Best, com a pequena rebeldia demonstrada em uma cena, teria potencial para ser uma personagem mais marcante. Mas seu papel se restringe a esposa e mãe [Imagem: Reprodução]

Além disso, não há nenhuma personagem negra. Todos os membros da Marinha norte-americana eram brancos. Devido à baixa quantidade de informações sobre a presença de militares negros nos Estados Unidos durante a Segunda Guerra Mundial, não  se pode saber se o filme apenas foi fiel à história ou se simplesmente não se preocupou com a representatividade.

A história traz personagens reais, que, no final, são homenageados com um breve resumo dos seus feitos. Alguns deles são o piloto Dick Best, cuja despreocupação com missões de risco ajudou na vitória da batalha, o tenente McClusky (Luke Evans), o Oficial de Inteligência Layton (Patrick Wilson), o Almirante Nimitz (Woody Harrelson) e o Almirante Yamamoto (Etsushi Toyokawa), o único homenageado japonês. Embora no final se comente que o filme é uma homenagem a soldados estadunidenses e japoneses, está claro quem são os verdadeiros homenageados. 

Dick sente pela morte de seu amigo, Roy Pearce [Imagem: Reprodução]

É preciso lembrar que, embora o Japão tenha realizado um ataque surpresa a Pearl Harbor em 1941, os Estados Unidos soltaram bombas nucleares em duas cidades japonesas, Hiroshima e Nagasaki, em 1945, sob o pressuposto de que seria a única maneira de acabar com a guerra e a ameaça nipônica.

Os efeitos especiais das bombas e dos explosivos são bons, porém em alguns momentos parecem falsos e excessivos. Não é possível saber se por exagero, na tentativa de atribuir maior ação à narrativa, ou se por mero equívoco da produção.

Ao trazer o ponto de vista heroico norte-americano, o filme faz questionar sobre a bipolaridade das guerras, sobretudo no que se refere ao modo tendencioso de analisar os inimigos. De maneira maniqueísta, os japoneses sempre são tratados como vilões, mostrando, inclusive, a dominação japonesa sobre a China, enquanto as norte-americanos são todos heróis, como se também não exercessem qualquer forma de soberania sobre outros povos.

O ponto de vista japonês foi pouco explorado no filme, o que dificultou uma compreensão mais ampla da batalha de Midway [Imagem: Reprodução]

A narrativa faz refletir sobre a necessidade da existência de guerras. Sempre há dois – ou mais – lados envolvidos, e nenhum deles é totalmente bom ou totalmente mal, pois têm motivos para proteger seu país – mas a que custo? Sempre há mortos em uma batalha, e isso foi bem retratado no filme. 

É claro que o lado trágico da morte só era retratado quando as vítimas eram os estadunidenses, mas foi possível pensar sobre as consequências de uma guerra. O inimigo não pode ser visto apenas como vilão, é preciso entendê-lo para se chegar a um acordo. O questionamento sobre a profundidade de uma guerra vem à mente de quem assiste, embora não seja o objetivo do filme.

Apesar dos problemas mencionados, é um filme a que compensa ser assistido, mesmo que para questionar.

Estreia nos cinemas no dia 21 de novembro. Confira o trailer

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O Cinéfilos é o núcleo da Jornalismo Júnior voltado à sétima arte. Desde 2008, produzimos críticas, coberturas e reportagens que vão do cinema mainstream ao circuito alternativo.
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