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Mito grego à brasileira
CINÉFILOS
08 abr 2013 | Por Jornalismo Júnior

Primeiro filme brasileiro a ganhar a Palma de Ouro em Cannes e único a ganhar o Oscar de Melhor Filme Estrangeiro (apesar de reconhecido pela Academia como produção francesa), Orfeu Negro (Orfeu Nego, 1959) ganhou destaque internacional não só pelas premiações, mas também pelas controvérsias que gerou e pelo lançamento internacional de um estilo brasileiro que se consagrou na década de 60: a Bossa Nova.

Orfeu Negro é uma adaptação realizada pelo diretor Marcel Camus e o roteirista Jacques Viot da peça de teatro Orfeu da Conceição, de Vinícius de Moraes. A peça, escrita em 1954, transporta o mito de Orfeu e Eurídice da mitologia grega para a realidade das favelas cariocas da década de 50 e foi a primeira obra encenada por atores negros no Teatro Municipal do Rio de Janeiro, em 1956. Os cenários foram desenhados por Oscar Niemeyer e a música foi responsabilidade de Tom Jobim, em parceria com Luís Bonfá e Roberto Paiva.

Na mitologia grega, Orfeu era o mais talentoso de todos os poetas, capaz de acalmar animais selvagens, fazer curvar as árvores e parar a corrente dos rios com sua música. Apaixonou-se e casou-se com Eurídice, cuja beleza atraiu Aristeu, um apicultor, que passou a persegui-la após ser rejeitado por ela. Nessa perseguição, Eurídice pisou em uma cobra, que a matou com uma picada. Em desespero, Orfeu desceu ao Mundo dos Mortos e com seu canto comoveu Hades, o rei dos mortos, que permitiu Eurídice voltar ao mundo dos vivos, com a condição de que Orfeu não olhasse para ela até que ela estivesse de volta à luz do Sol.

Saindo do reino dos mortos e alcançando os primeiros raios de Sol, Orfeu virou-se para certificar-se de que Eurídice o estava seguindo. Ao virar, só teve tempo de vislumbrar a sombra de Eurídice ainda cercada de escuridão, a um passo da vida, voltar a ser um fantasma condenado eternamente ao mundo dos mortos. Amargurado, Orfeu passou a desprezar todas as mulheres para não se lembrar da perda de Eurídice. Furiosas pela rejeição, um grupo de mulheres selvagens, as Mênades, alvejaram-no com dardos e o mataram, despedaçando seu corpo e jogando sua cabeça no rio Hebro, da qual se ouviu ainda o canto “Eurídice, Eurídice” enquanto flutuava. Em lamento, as musas reuniram suas partes e o enterraram no Olimpo, permitindo a Orfeu unir-se, na morte, a sua amada Eurídice.

A adaptação para o cinema utiliza a mesma proposta da peça de Vinícius de Moraes ao transformar Orfeu em um condutor de bonde e morador do Morro da Babilônia, favela do Rio de Janeiro. Admirado por seu talento com a música, Orfeu (Breno Mello) demonstra sua paixão pelo samba ao pagar pelo concerto de seu violão em vez de comprar um anel para sua noiva Mira (Lourdes de Oliveira).

No primeiro dia do feriado de Carnaval, Orfeu conhece Eurídice (Marpessa Dawn), moça que fugiu de sua vila, onde estava sendo perseguida por um homem que ela rejeitou, para morar no Rio com sua prima Serafina. Acontece que Serafina (Léa Garcia) é vizinha de Orfeu na Babilônia e o amor entre ele Eurídice é instantâneo e favorecido pelas condições. Na última noite do Carnaval, durante a apresentação da escola de samba da Babilônia, Eurídice é descoberta por Mira dançando com Orfeu e foge. Em seguida, encontra o homem de quem fugira para o Rio e é perseguida morro abaixo. É nessa escapada que Eurídice encontra o seu destino trágico e leva Orfeu a ter que procura-la no mundo dos mortos, um departamento burocrático, na versão carioca do mito.

As vitórias de Orfeu Negro nas três principais premiações de cinema do mundo – também ganhou o Globo de Ouro de Melhor Filme Estrangeiro – geraram tanto elogios quanto críticas. Se por um lado louvava-se seu caráter multicultural, ao trazer os protagonistas e praticamente todo o elenco de atores negros, ao valorizar a cultura de uma população pobre de um país subdesenvolvido e ao manter a adaptação falada em português, por outro se criticava a qualidade técnica da produção e dos atores.

Boa parte dos atores não tinha nenhuma experiência, Breno Mello era um jogador de futebol que nunca havia atuado até ser convidado por Camus e o perseguidor de Eurídice, representante da Morte, foi encenado por Adhemar Ferreira da Silva, atleta bicampeão olímpico de salto triplo (1952 e 1956). Além das atuações bastante contestadas, Marcel Camus não teve uma carreira muito prestigiada pela crítica e Orfeu Negro foi considerado um grande filme muito mais pela realidade que mostrava do que pelo modo como a mostrava.

Se a qualidade técnica do filme foi criticada, sua grande repercussão provocou reconhecimento imediato da qualidade de sua trilha sonora, que tinha composições de Tom Jobim, Luís Bonfá, Antônio Maria e Vinicius de Moraes. A parceria entre Tom Jobim e Luís Bonfá já tinha gerado frutos com a gravação de um LP em 1956 com as sete composições utilizadas na peça de Vinicius de Moraes e expandiu seu sucesso para fora do Brasil com o sucesso do filme. Faixas como Manhã de Carnaval e Felicidade viraram clássicos mundiais instantâneos e alcançaram grande sucesso na Europa, antes mesmo da Bossa Nova estourar nos EUA, no início da década de 60. Mais do que isso, pavimentaram o caminho para outros compositores do gênero apresentarem seu trabalho internacionalmente.

Em 1999, o filme ganhou uma versão dirigida por Cacá Diegues. Orfeu contou com Toni Garrido como protagonista e Patrícia França como Eurídice. A trilha sonora foi produzida por Caetano Veloso.

por Mateus Netzel
mateusnetzel@gmail.com

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