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Moda e sustentabilidade: quais são os impactos da indústria da moda no meio ambiente e como reduzi-los
Biosfera
28 mar 2018 | Por Jornalismo Júnior
Por Nathalia Giannetti (nathaliagiannetti@usp.br)

“As indústrias têxteis e de vestuário, juntas, constituem a quarta maior atividade econômica global; concentram 5,7% da produção manufatureira e mais de 14% do emprego mundial”. É o que dizem dados de uma pesquisa realizada pelo instituto UNIETHOS, que oferece consultoria empresarial para planejamento sustentável, no ano de 2013. Em relação ao Brasil, o país é um dos maiores produtores têxteis do mundo, estando em 5° lugar no ranking de produção têxtil e 4° no de confecção. Entretanto, isso tem um lado negativo. Conforme o que é dito pela professora e vice coordenadora do curso de graduação Têxtil e Moda da USP, Francisca Dantas Mendes, “o processo produtivo na cadeia têxtil é altamente impactante. Todas as etapas impactam de alguma forma mais ou menos negativa no meio ambiente”

Imagem: Reprodução

Qual é o impacto de cada etapa?

Tudo começa com a agricultura, em que há o uso excessivo de água e agroquímicos. O cultivo de algodão, principal matéria-prima da indústria têxtil, por exemplo, é o que mais demanda agrotóxicos. Essas substâncias, embora colaborem para o crescimento da plantação, podem contaminar o solo e águas subterrâneas, além de matarem organismos não prejudiciais à lavoura e importantes para o equilíbrio do ecossistema

Em seguida, com os processos de fiação, que transforma a matéria-prima em fios, e tecelagem, a transformação dos fios em tecido, ocorre a geração de resíduos sólidos: partes não aproveitadas da matéria-prima e fios, que acabam por ser descartadas inadequadamente.

O beneficiamento é uma das etapas mais prejudiciais ao meio ambiente. Por tratar-se de um processo que envolve tingimento, alvejamento (branqueamento das fibras) e estamparia de um tecido, há emprego de um grande número de substâncias químicas para que as características do tecido sejam alteradas. Esses procedimentos acabam por resultar nos chamados efluentes líquidos, substâncias poluentes descartadas na natureza e que provêm dos produtos químicos utilizados. Além disso, essa etapa consome enormes quantidades de água.

A talharia corresponde ao corte e produção de peças a serem montadas e costuradas durante os processos de confecção. O principal impacto pelo qual é responsável é a produção de resíduos têxteis, que, em muitos casos, são descartados indevidamente. Outro problema da indústria têxtil é a embalagem, utilizada no comércio dos produtos e que, por ser majoritariamente formada por plástico, tem demorada decomposição

Já em relação a escolha de matérias-primas: “Todas elas terão algum impacto ambiental, seja em sua manutenção, extração ou processamento. Quando de origem natural vegetal, a manutenção da matéria terá maior impacto pelo uso de pesticidas, herbicidas, dentre outros. Quando de origem química sintética, o maior impacto será na extração e processamento, pelo alto gasto energético” diz Welton Zonatti, Professor do Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia do Rio de Janeiro (IFRJ) nas áreas de moda, têxtil e sustentabilidade.

Imagem: Reprodução

 

Os resíduos têxteis

Conforme já foi citado anteriormente, um dos maiores problemas da indústria da moda é quantidade de resíduos têxteis que ela gera, pois esses possuem decomposição demorada. O poliéster, por exemplo, precisa de mais de 200 anos.

No Brasil, de acordo com dados da Associação Brasileira da Indústria Têxtil (ABIT), são estimadas 175 mil toneladas/ano de resíduos têxteis, das quais apenas 36 mil toneladas são reutilizadas para produzir novos produtos como roupas e barbantes. “Em São Paulo, os bairros do Brás e Bom Retiro – grandes polos confeccionistas da América Latina, produzem juntos aproximadamente 30 toneladas diárias de sobras de tecidos. Eles são depositados nas ruas e acabam, majoritariamente, em aterros sanitários.”, conta o professor Welton.

Fast fashion

Engana-se, porém, quem pensa que a culpa reside apenas nas indústrias, já que o consumidor também representa um importante papel em toda essa situação. O fast fashion, de tradução “moda rápida”, é, atualmente, o padrão adotado por grande parte das marcas e redes de varejo. Ele funciona de maneira que a fabricação, consumo e descarte aconteçam rapidamente. São confeccionadas peças inspiradas naquelas que fazem sucesso nas passarelas no momento. Assim, é preciso pressa, pois a qualquer momento poderá surgir uma nova tendência que atrairá o interesse do consumidor. Esse, por sua vez, devido à baixa durabilidade dos tecidos, descarta com frequência as peças de roupa compradas.

 

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Como solucionar esse problema

É possível, dessa maneira, perceber o grande impacto exercido sobre a indústria da moda como um todo no meio ambiente. Precisa-se então reverter a situação e diminuir tais impactos, de modo que se obtenha uma convivência harmoniosa. Para a professora Francisca Mendes, o primeiro passo é apostar no ciclo de vida do produto: “Nós  temos que começar a produzir materiais com maior tempo de vida, maior qualidade, preço mais adequado e o consumo reduzido. Temos que reduzir esse consumo exagerado, com ele a produção fica mais exagerada ainda”. Entretanto, para que isso ocorra, a velocidade do processo produtivo precisa ser reduzida.“Se diminuirmos essa aceleração, nós vamos ter um produto com mais qualidade e com um ciclo de vida maior”.

Outra possível solução apontada por ela é a alternativa de se trabalhar com a reciclagem, ou seja, de “já se desenvolver produtos pensando que eles voltem, dentro de um anel fechado de produção. Após finalizar o uso, o produto volta para a cadeia produtiva, como reciclagem, como remanufatura ou como novo insumo para uma matéria prima. Na hora que for desenvolver o produto, pensar ‘depois que o consumidor utilizar, o que vamos fazer com isso? Nós vamos reaproveitá-lo de que maneira?’ e na hora da geração dos resíduos, trabalhar esse resíduo de forma que ele possa ser utilizado como matéria-prima para um outro novo produto, de forma que ele volte para uma cadeia produtiva, ou na cadeia têxtil ou em outras cadeias produtivas, da construção civil, porque o desfibrado é muito utilizado para fazer isolamento acústico”.

Imagem: Reprodução

A moda sustentável

Nos últimos anos, pode-se perceber que houve um aumento no número de marcas que promovem ações relacionadas a sustentabilidade. Termos como ‘Moda ética’, ‘moda verde’ e ‘ecofashion’ se tornam cada vez mais presentes nesse meio.  Há empresas como a holandesa MUD Jeans, que permite, ao se pagar uma taxa, o aluguel e troca de calças jeans, sendo que, cada vez que uma peça retorna, ela sofre uma nova transformação. Já aquelas que estão muito velhas para serem vestidas, têm suas fibras utilizadas, após um processo de trituração, para confecção de blusas e camisetas. No Brasil, “a empresa Insecta Shoes produz calçados a partir de resíduos de tecidos e plásticos para fazer a sola”, conta a vice-coordenadora do curso Têxtil e Moda da USP.

Mesmo assim, há ainda um longo caminho a percorrer: “Atualmente, é impossível escapar das discussões sobre sustentabilidade. Deste modo, foram criados selos verdes para certificar produtos e processos ambientalmente corretos. Algumas marcas passaram a utilizar, em pequena escala, algodão orgânico. Também surgiram novos estilistas e criadores que reutilizam o material descartado (chamado de UPCYCLING). Todavia, tudo isso é ainda em escala muito pequena se comparar os novos modos de produção e consumo com a situação como um todo.”, diz Welton.

É também importante constatar que a moda sustentável não se restringe apenas ao aspecto ecológico, mas também ao social e econômico. Conforme o que foi dito pelo professor: “Os principais impactos sociais da moda sustentável relacionam-se com o modo digno e respeitoso com os quais são tratados os envolvidos na cadeia de produção, tendo boas condições de trabalho, remuneração justa e reconhecimento pelo serviço feito”. Assim, “não é só pelo fato de utilizar algodão orgânico que já se pode achar sustentável”, comenta Francisca.

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