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Mostra Internacional de SP: Depois de Tudo
CINÉFILOS
03 nov 2015 | Por Jornalismo Júnior

Por Bianka Vieira
bianka.vieira2@gmail.com

Este filme faz parte da 39ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo. Para conferir a programação completa clique aqui

Revisitar o passado não é uma tarefa simples nem mesmo para os mais desapegados. Os sulcos irrompidos pela passagem do tempo carregam consigo distâncias irrecuperáveis entre aquilo que fomos um dia e aquilo que nos tornamos, trazendo, simultaneamente, a possibilidade do resgate do que ficou para trás. É a partir dessa relação cronológica e de uma amizade silenciada por vinte anos que Ney, vivido pelos atores Marcelo Serrado e Rômulo Estrela (fase jovem), e Marcos, interpretado pelos atores Otávio Muller e César Cardadeiro (fase jovem), reencontram-se com vidas copiosamente opostas, porém unidas em torno de um ponto pungente de suas juventudes: Bebel.

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César Cardadeiro, Maria Casadevall e Rômulo Estrela dão vida a jovens dos anos 80 em Depois de Tudo

A década é a de 1980 e a libertinagem se faz evidente e visceral. O roteiro, uma adaptação do texto de Marcelo Rubens Paiva e Mauro Mendonça Filho criado para a peça de teatro No Retrovisor (peça, essa, referenciada claramente em uma das cenas mais marcantes), é trazido para o longa com uma profunda intensidade e poder de imersão. Enquanto os diálogos entre o Ney e o Marcos do presente dão a impressão de um reencontro imbuído por receios mil, nos é contada a história daqueles dois jovens que tiveram a rotina alterada pela chegada de uma nova vizinha, Bebel (Maria Casadevall/Soraya Ravenle), e pela decisão de abrir um bar.

Depois de Tudo (2015) não tem maiores pudores ao trazer rock, cenas de sexo e alguns baseados, elementos tão típicos de qualquer literatura que aborde aquela que ficou conhecida como a “geração perdida”. Por mais que o filme venha promovido a partir da encenação de um triângulo amoroso, essa característica é bastante sutil, sendo sugerida por alguns enquadramentos que flagram o olhar de Ney sobre Isabel, envolvida com Marcos, até o ponto de peripécia da história onde tudo ganha novos horizontes.

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O personagem de Otávio Muller e César Cardadeiro é reiteradamente marcado pelo desleixo e por ser alguém que não faz grandes planos ou tem grandes preocupações, ao contrário de Ney, agora um cego (possível referência autobiográfica do próprio Rubens Paiva) com traços de alcoolismo e bem-sucedido no ramo musical. Apesar das divergências latentes entre o brega de Ney, o anárquico de Marcos e as cicatrizes que cada um carrega de suas escolhas anteriores, em momento algum é entreposto a dicotômica relação entre o certo e o errado. A todo momento, o espectador aguarda uma lição de moral vinda de um mocinho, mas a verdade é que entre os dois não há rancor duradouro e muito menos julgamentos.  Talvez esse seja um dos pontos elementares do filme dirigido por João Araújo e o contraponto perfeito à herança de uma década de perseguições àquela altura já decadente, tal como fora a da Ditadura Civil-Militar.

Pelo tempo em que a história se passa, a trilha sonora deixa a desejar ao não usufruir do vasto acervo desenvolvido em 80. Por outro lado, Plínio Profeta faz uma escolha acertada ao usar Soldados, música da brasiliense Legião Urbana, como aquela que apareceria em trechos bastante importantes e, sobretudo, marcantes. A atemporalidade de Renato Russo é capaz de envolver dois jovens em um frenesi indescritível ao ouvirem a canção pela primeira vez, assim como embalar as angústias de dois adultos que se veem agora como “soldados pedindo esmola” e com um “será que vamos conseguir vencer?” zunindo em suas cabeças. Certamente, a presença recorrente das composições da banda em filmes nacionais mais recentes tem sido sempre muito bem-vinda.

A estreia de Maria Casadevall nas telonas também é exercida com maestria. Sua atuação traz tamanha atitude e personalidade que Bebel, sua personagem, é capaz de se impor perante os vestígios sexistas contidos no roteiro.

Diferentemente de um grande contingente exibido pela 39ª Mostra Internacional de Cinema, Depois de Tudo não faz críticas sociais incisivas ou desvela temáticas inovadoras. No entanto, seus enquadramentos fechados, a vivacidade dada àquelas lembranças e os dramas particulares são capazes de provocar o riso e de arrebatar de forma leve e relaxante. Ao final da exibição e dada a energia captada pelos atores ao longo do enredo, uma sala inteira de cinema é pega desprevenida e se vê debruçada sobre olhos marejados diante daquele que parecia ser mais um recorte sobre a juventude oitentista.

Assista ao trailer:

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O Cinéfilos é o núcleo da Jornalismo Júnior voltado à sétima arte. Desde 2008, produzimos críticas, coberturas e reportagens que vão do cinema mainstream ao circuito alternativo.
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