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Nada se compara à estranheza de uma laranja mecânica
CINÉFILOS
15 maio 2012 | Por Jornalismo Júnior

Laranja Mecânica é um filme chocante. A violência explícita, o sadismo, o tratamento de choque ao qual Alex, o sádico protagonista do filme, é submetido e a realidade na qual ele está inserido deixam qualquer um com o coração na boca. Mesmo com esse soco no estômago, a adaptação de Stanley Kubrick da obra homônima de Anthony Burgess sempre fez sucesso.

Após ser pego pela polícia e condenado a 14 anos de prisão por seus atos bárbaros, Alex decide se submeter a um tratamento alternativo, implantado experimentalmente pelo governo pra curar a sua violência. Ele é submetido a seções nas quais assiste a cenas de extrema violência ao som da 9ª sinfonia de Beethoven. Com o tratamento, desenvolve repúdio as cenas e também a música, e tem vontade de se matar quando submetido a elas.

Alex é liberado após ser considerado curado, mas o seu passado o persegue. Encontra antigos amigos, companheiros de delinquência, que agora trabalham na polícia e que não pensam duas vezes antes de lhe dar uma lição. Ele é espancado, mas não reage, pois passa mal diante de cenas violentas. O jovem é também rejeitado pelos pais e acaba sendo acolhido na casa de uma antiga vítima, que inicialmente não o reconhece.

Elementos políticos e estéticos
Primeira cobaia desse novo tratamento alternativo, Alex é usado para fins políticos. Forçado a escutar a 9ª sinfonia de Beethoven, ele se joga da janela. Não morre, mas o governo é culpado pelo incidente por tê-lo submetido ao tal tratamento e induzido reações como aquela.

A linguagem usada no filme, com termos próprios, foi um dos elementos trazidos do livro de Burgess. É uma mistura de inglês e russo, línguas que na época da guerra fria eram antagonistas na disputa pela hegemonia mundial. Em meados do século XX, acreditava-se que essas línguas dominariam o mundo em um futuro próximo.

Ao mesmo tempo, alguns dos elementos estéticos do filme foras escolhidos de modo a aumentar a estranheza causada pela narrativa. É o caso das roupas de cricket e dos cílios de Alex. Outro elemento estético fundamental é o uso de dança e animações no lugar de cenas de violência explícita. Segundo o produtor de Kubrick, Jan Harlan, “o que as pessoas pensam vendo aquilo é que produz o efeito violento”.

O livro e o filme
O livro de Burgess foi escrito em 1962 e teve grande influência das histórias que contavam sobre as experiências cirúrgicas nos campos de concentração da Segunda Guerra Mundial e do contexto social da Inglaterra da época. Mostrando instituições perversas, o autor denunciava para onde a seu país estava caminhando.

A recepção da obra não foi a melhor possível. O livro causou estranhamento por conta de seu vocabulário e o filme sofreu tentativas de censura pelo governo inglês. Por causa da reação, Kubrick suspendeu as exibições na Inglaterra, que só voltaram a acontecer depois de sua morte em 1999, 28 anos após a estreia.

Mesmo sendo uma adaptação considerada adequada por muitos, alguns dos elementos que mais chocam no filme foram invenções do próprio Kubrick. É o caso da famosa cena em que Alex estupra uma mulher cantando e dançando Singing in the rain, música que se tornou conhecida com Gene Kelly. Segundo Jan Harlan e Malcolm McDowell, ator que interpreta Alex, a cena foi pura improvisação.

Mesmo assim, tanto o filme como o livro são clássicos. Os dois juntos formam uma composição única que marcou toda uma época e que até os dias de hoje ganha adeptos. Independente da forma que foi narrada, seja pelo cinema ou pela literatura, a história de Alex virou uma referência em nossa sociedade, talvez tão cruel quanto a apresentada por Burgess e Kubrick.

Mariana Zito
marianazito28@gmail.com

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O Cinéfilos é o núcleo da Jornalismo Júnior voltado à sétima arte. Desde 2008, produzimos críticas, coberturas e reportagens que vão do cinema mainstream ao circuito alternativo.
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