Home Multiverso Não consigo acordar
Não consigo acordar
Multiverso
09 out 2019 | Por Karina Tarasiuk (karinatarasiuk@usp.br)

A semana não foi fácil. A morte da minha avó três dias após a separação dos meus pais só complicou as coisas. E para piorar, fiquei sozinho no recreio de novo. Não sei porque não consigo fazer amigos. Isso não era problema quando vovó estava viva. Ela era minha melhor amiga.

A paralisia do sono é uma alteração do sono REM, que se manifesta durante o sono, e é responsável pela fase dos sonhos, a fase mais superficial do sono, que se repete em ciclos. Quando o indivíduo está vulnerável psicologicamente, possui maiores chances de sofrer o sintoma.

Não falei com a minha mãe desde que a vovó faleceu. Eu entendo, ela está em choque, mas eu também estou. Eu também preciso de apoio emocional. Tudo o que eu quero fazer é dormir. Mas não consigo. Fico até tarde olhando fotos da minha família: meus pais juntos e felizes, minha avó viva. Eu sem preocupações. 

Quando vejo as horas, já passa de uma da manhã. Preciso dormir. Demoro para pegar no sono. 

A alteração tem mais chances de acontecer com pessoas que possuem maus hábitos de sono, dormindo menos de 7 horas por dia, sofrem estresse ou estão sob efeito do jet lag, em fusos horários muito longos. Uma boa higiene do sono dificulta o aparecimento desse fenômeno.

Meu sonho começa bonito e feliz: vovó está lá. Ela fez bolo de chocolate pra mim, com aquela cobertura que eu adoro. Mamãe e papai aparecem também, eles estão rindo comigo. Mas, de repente, todos somem. E só resta eu. 

A paralisia do sono não atinge nenhuma região precisa do cérebro. São várias áreas implicadas, como o sistema límbico, onde se processam emoções, o hipotálamo, que cuida das memórias e da responsabilidade do sono, e também o córtex motor.

Estou no meu quarto. Ouço o barulho do jornal que mamãe escuta todas as manhãs. Não estou mais sonhando. Estou aqui, no “mundo real”. Mas por que não consigo acordar? Por que não consigo me mexer?

Quando nós sonhamos, toda a parte muscular do corpo fica em estado de atonia, ou seja, relaxamento total dos músculos. Caso contrário, nós encenaríamos o sonho, faríamos movimentos enquanto sonhamos. No caso da paralisia do sono, a mente desperta, fica consciente, mas o corpo continua em atonia. Assim, esse distúrbio é como se fosse um descompasso do sono REM.

Abro os olhos. Mas logo os fecho novamente. Tento levantar o braço. Mas nada acontece. É como se uma massa de ar estivesse em cima de mim, uma força que me impede de me mexer. Entro em desespero…

Quando a pessoa desperta e está com essa paralisia do sono, ela deve manter a calma, ter consciência de que isso vai durar alguns segundos, ou um minuto, dois no máximo, e vai passar (pode durar entre dois segundos e dois minutos). É importante ressaltar que é um sintoma benigno. Ele pode aparecer em algumas fases da vida e depois desaparecer. Ele não tem importância do ponto de vista de alguma patologia se estiver isolado na vida da pessoa.

Depois de alguns segundos, vejo uma coisa se mexendo. Uma forma humana escura e sem rosto, alongada, balançando para frente e para trás. Tic, tac, tic, tac, tic, tac. Por que esse barulho? A criatura se aproxima, mas eu não consigo me mover. Suas mãos compridas vão em direção ao meu rosto.

As visões que podem ocorrer durante a paralisia do sono são chamadas alucinações hipnagógicas, e também são efeito do sono REM. Quando a pessoa está sonhando e desperta sob o efeito da paralisia do sono, não consegue mover um músculo. No entanto, entre o dormir e o acordar, as imagens, que são produzidas pelo cérebro durante o repouso, continuam, como se fosse um sonho vivido. A pessoa está acordando, mas está tendo a sensação de uma alucinação. Em geral ela vê vultos ou ouve vozes. Esse também é um sintoma de uma alteração do sono REM. Sem mais outras implicações, também é um sintoma benigno, também passa.

E rapidamente eu me levanto. Será que estou mesmo acordado? Será que não estou com a sensação de ter me levantado, mas na verdade continuo paralisado? Corro em direção à sala e abraço mamãe. Parece real. Ela me pergunta porque estou assustado, e eu digo que foi um pesadelo. Mas foi real demais para ser um pesadelo.

A paralisia do sono pode ser sintoma de alguma doença quando junta a mente com alucinações hipnagógicas e quedas de sono, ou seja, uma sonolência excessiva diurna, provocando ataques de sono. Nesses casos, é preciso investigar para ver se não é uma outra doença chamada narcolepsia, a qual exige tratamento e atenção especial. Mas esses sintomas isolados, como a paralisia do sono e as alucinações hipnagógicas, não têm maior relevância para os médicos e para a psicologia como um todo, embora sejam perturbadores para o indivíduo.

Fico o resto do dia pensando nisso. Não quero contar para mamãe, ela já tem preocupações demais. E se ela achar que eu estou ficando louco? E se eu realmente estiver ficando louco?

Muitas vezes as pessoas não relatam os casos para as outras com medo de que seja algo muito grave. Às vezes procuram neurologistas, mas não há medicação. Não há nenhuma cura para esse sintoma.

Não quero que a noite volte. Não quero dormir hoje. E se eu ficar paralisado de novo?

A paralisia do sono, apenas, diferencia-se da narcolepsia, apesar de poder ser um de seus sintomas. A narcolepsia é uma doença do sono que provoca muita sonolência diurna, mesmo a pessoa tendo dormido a noite inteira. O paciente tem ” ataques de sono” durante o dia, e pode ter ou não outros sintomas, como cataplexia, ou seja, queda do tônus muscular parcial ou total diante de emoções, paralisia do sono e alucinações hipnagógicas. Quando o paciente apresenta os quatro sintomas, ele possui a tétrade narcoléptica. A narcolepsia, uma doença neurológica, crônica, ainda não tem cura, mas controle dos sintomas. O tratamento é feito com remédios estimulantes.

***********************************************************************************************************************************

Texto baseado no depoimento de Manuela Moraes, estudante de 17 anos que possui paralisia do sono desde criança, e nas entrevistas com Carmen Alcântara, psicóloga e psicanalista, mestre em Ciências pela Faculdade de Medicina USP e com Larissa Renata Oliveira Bianchi, palestrante e consultora do sono.

Laboratório
O Laboratório é o portal de jornalismo científico da Jornalismo Júnior. Apaixonados por curiosidades, nosso objetivo é levar a informação científica o mais próximo possível do público leigo. Falamos sobre saúde, meio ambiente, tecnologia, ficção científica, história da ciência, escrevemos crônicas, resenhamos livros, cobrimos eventos e muito mais!
VOLTAR PARA HOME
DEIXE SEU COMENTÁRIO
Nome*
E-mail*
Facebook
Comentário*