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Nem Sagrado, Nem Profano
CINÉFILOS
01 fev 2014 | Por Jornalismo Júnior

por Marina Castro e Rafael Bahia
marina.castror@gmail.com e rafael.felizatte@gmail.com

A última cena do filme retrata uma mulher sentada no sofá de sua sala, em algum bairro londrino. Com entonação decidida, ela diz em seu sotaque árabe: “Foi uma escolha que eu fiz”. Apesar dessa mesma garota ter passado os dez minutos anteriores em um monólogo intimista, narrando as experiências que a transformaram por fora e por dentro, seu rosto permanece desconhecido do espectador. Por quê? Bem, foi justamente essa a decisão que ela tomou. E tais resoluções são a temática da qual esse filme trata.

Nem sempre me vesti assim (I wasn’t always dressed like this, 2013) é um documentário baseado em depoimentos de três mulheres muçulmanas que moram no Reino Unido. Elas estudam, trabalham, vão ao parque, pegam metrô. Elas são livres. Por isso mesmo, escolheram usar o véu islâmico. Os aproximados 30 minutos de duração do curta-metragem são divididos nessa tripla narrativa, cada história contada por sua própria protagonista e inter-relacionadas apenas pelo fato de compartilharem a fé, a condição feminina e o porte de vestes muçulmanas. As razões que as levaram a se vestirem assim, como o filme tem por objetivo mostrar, são únicas e particulares, intimamente ligadas às vivências, ideias e sentimentos de cada uma delas.

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Idealização

Por trás do projeto, uma brasileira. Betty Martins é formada em Artes Plásticas pelo Centro Universitário Belas Artes e em Filosofia pela Universidade Federal de Ouro Preto. Contratada pelo Museu Britânico, seu primeiro documentário, When the Souls Arrive, foi o prenúncio de um interesse por minorias discriminadas: um filme que circundava ao redor das memórias de duas famílias mexicanas sobre o Dia dos Mortos.

Foi nos corredores do próprio museu que uma outra ideia surgiu. Na época, uma exposição sobre a viagem dos muçulmanos à Meca estava trazendo um público diferente do usual.

“Eu comecei a ver muitas mulheres com o véu. Ficava me perguntando por que elas se vestiam daquele jeito, sendo que não há nenhuma imposição na Europa, muito pelo contrário.”

A pergunta era: por que, após um processo de ocidentalização do Oriente Médio, de repente, o véu voltava com força em países como os EUA e o Reino Unido? Pesquisando, Betty se deparou com o trabalho da egípcia Leila Ahmed, professora da Universidade de Harvard, que estudava o ressurgimento e a ressignificação do lenço islâmico.

Um fato era inegável: tratava-se de mulheres que estavam lutando por sua liberdade, fazendo suas próprias escolhas. Esse grito feminista (e, sobretudo, de libertação) superava a barreira da religião, ecoando no movimento das mulheres ocidentais, que são igualmente julgadas pela maneira com que se vestem.

Produção

Era imperativo, claro, que Nem sempre me vesti assim nascesse com a intenção de quebrar barreiras. Para isso, Betty se afastou da receita tradicional de um documentário. Seria impossível para ela se basear nos discursos circulantes da grande mídia, nos quais o sensacionalismo confunde o islâmico com o terrorista, a muçulmana com a escrava branca de seu marido. Também não poderia se deixar levar por seu entendimento de mundo, já que ela mesma poderia ter uma visão orientalista (ou seja, acabar enxergando a cultura oriental com os olhos do Ocidente). E não queria usar falas de especialistas e acadêmicos, podendo ofuscar o próprio discurso das entrevistadas. Betty queria que elas contassem suas histórias e ponto.

“Todo mundo tem uma opinião formada sobre elas, mas nunca são elas que estão falando. Eu tomei esse cuidado na minha posição como entrevistadora. Algumas perguntas já circulam certo discurso: ‘Por que você usa o véu?’ Elas não têm que se justificar. Isso mata a complexidade. Há uma pluralidade de motivos, únicos para cada uma. ”

O resultado é uma abordagem poética e reflexiva. O filme não procura justificar, responder, definir. A entrevistadora usa uma metodologia que permite às entrevistadas falarem de maneira livre. De fato, é capaz que o espectador até se esqueça que aquilo é um diálogo, e não um monólogo.

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Isso se dá, também, graças à maneira como as três mulheres se abrem para compartilhar de suas próprias vidas. A impressão de quem assiste é de proximidade com elas e não é por simples acaso. Esse efeito foi pensado durante a produção, em que o time era composto por oito pessoas, todas mulheres. A escolha veio da própria diretora e tinha como fim adentrar a intimidade do universo feminino, ainda mais frágil quando se fala de garotas que são alvo de agressões e julgamentos por serem quem são. Por isso, algumas meninas até desistiram de colaborar em meio às filmagens, fazendo com que a produção inteira demorasse um ano para ser concluída.

Todas as experiências apresentadas, aliás, são totalmente femininas. A primeira protagonista explicita isso quando diz que uma das coisas que a fascina no Islã é a forte esfera feminina. No Ocidente, a figura da mulher ainda se espelha na do homem; na Palestina, ela descobriu que as mulheres têm seus próprios parâmetros, alheios aos dos homens. O senso de coletividade feminina das islâmicas é sempre relembrado ao longo dos depoimentos. A segunda garota fala que sua inspiração para usar o véu veio de uma amiga; a terceira se sensibilizou após conhecer a atmosfera de irmandade e coletividade dentro de uma mesquita. Nada tem a ver com homens, muito pelo contrário. Elas foram contra a opinião de seus pais, maridos, irmãos para tomarem posse de seu próprio corpo e vestirem-se como bem entendem.

O que está no centro da discussão é a desconstrução da simbologia do véu islâmico. E isso é evidenciado até na trilha sonora. A música é tocada por uma violinista iraniana, o que desvincula-se do estereótipo de que um documentário sobre árabes precisa de uma música árabe (alguns grupos muçulmanos nem ouvem instrumentos de corda). No entanto, o filme não é sobre uma etnia ou nacionalidade. Os acordes de violino descompassados, então, são uma metáfora. A melodia não se parece com nada: às vezes lembra música clássica; outras, efeitos sonoros; há momentos em que ela parece conversar com o espectador. Em suma, ela complementa a poética do filme, pois é uma ressignificação de si mesma, algo único.

Representação

O próprio modo como as mulheres são mostradas no documentário é importante para compreender sua finalidade.

“Elas fizeram parte do processo de edição. Se alguma coisa as incomodava, eu cortava. O objetivo era retratá-las da maneira como elas quisessem ser vistas, e não da maneira como eu queria vê-las. Na Europa, elas normalmente são representadas como o público as quer: polêmicas.”

Nas cenas da terceira mulher é que se percebe mais claramente o jogo de representação do filme. A garota porta um niqab (veste em que somente os olhos ficam descobertos) com a óbvia finalidade de não mostrar seu corpo. Assim, a câmera não foca em sua figura e não fecha closes desnecessários e intrusivo no seu olhar, como se quisesse espiar por debaixo do manto. Tanto que bons minutos se passam até que seu semblante apareça na tela, envolto em tecido negro. Antes disso, ouve-se apenas sua voz narrando reminiscências e dizendo uma das frases mais marcantes e provocativas do filme:
“Você não precisa ver meu corpo para me conhecer.”

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Ela própria representou, inclusive, um desafio para a diretora. No processo de encontrar entrevistadas, a intenção era trabalhar apenas com o hijab, modalidade do lenço que cobre apenas os cabelos e o pescoço. Quando Betty a encontrou disposta a participar, com contribuições substanciais para a essência do documentário, era impossível dizer não. Além do mais, seu trabalho não tinha obsessão com a verdade, mas com a maneira de representar diversas realidades. A intenção era justamente desafiar a perspectiva de quem assiste. É uma questão de semiótica. O público europeu, por exemplo, têm dificuldade de enxergar através do véu.

“Me perguntaram se que eu queria polemizar ao filmar a menina de niqab no trem, como uma referência ao terrorismo. Não, eu estou apenas mostrando o cotidiano dela. Nas cenas onde ela aparece, o dia está cinzento. Mas é um típico dia londrino! Eu não vou colocá-la em um campo florido, criar um ambiente só para você aceitá-la.”

Longe de querer ser a salvadora branca das muçulmanas oprimidas, Betty, em suas próprias palavras, “não dá voz a elas, mas pede para que elas falem e sejam ouvidas”. No entanto, é inevitável que o filme levantasse bandeiras. A maneira como elas tomam posse de seu corpo em uma sociedade machista, desafiando a condição misógina que coloca as mulheres como objeto de análise dos homens, vai contra o discurso de que elas passam por uma lavagem cerebral religiosa. Não, elas fazem escolhas.

O debate do véu é extremamente válido porque ele pode virar imposição e abrir espaço para abusos, como é o caso das iranianas, obrigadas legalmente a cobrir seus cabelos. Por isso, o filme toma especial cuidado para que não pareça uma propaganda. Ao fim dos trinta e três minutos, um poema paira na tela. Ele lê: “Meu cabelo não é sagrado; ele não vai te salvar se estiver preso ou solto”. Em suma, essa é a ideia central. O corpo de uma mulher é direito seu, e ela pode cobri-lo se bem entender. É necessário entender que dar um passo em direção à espiritualidade não significa recuar em outros aspectos da vida. O véu islâmico também é um ato político, de identidade, que toma diferentes significados para aquelas que o usam. E só cabe a elas a decisão de tornar física uma pequena parte de sua fé.

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Exibições

O documentário já foi exibido no exterior, hospedado por espaços como o Museu de Birmingham, e está em processo de distribuição no Canadá e EUA. No Brasil, sua estreia se dará no dia 3 de fevereiro no Centro Cultural Banco do Brasil, graças a uma parceria com o Instituto de Cultura Árabe.

As exibições seguirão do dia 5 a 9 de fevereiro, às 12h30, com entrada franca.

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O Cinéfilos é o núcleo da Jornalismo Júnior voltado à sétima arte. Desde 2008, produzimos críticas, coberturas e reportagens que vão do cinema mainstream ao circuito alternativo.
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