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No Coração do Mar: personagens previsíveis e luta pela sobrevivência
CINÉFILOS
02 dez 2015 | Por Jornalismo Júnior

por Luiza Queiroz
luiza.agnol@gmail.com

 

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“Chamai-em Ismael”. É com essa simples sugestão que se inicia um dos romances de literatura inglesa mais famosos de todos os tempos. Um romance sobre o mar e suas criaturas, sobre baleias gigantes e sobre a obsessão de um homem. Não é difícil deduzir que o clássico em questão é o notório Moby Dick. Curiosamente, enquanto a citação inicial desse texto principia o romance, ela acaba por encerrar o filme “No Coração do Mar” – inspirado na história dos eventos reais que levaram Herman Melville a escrever sua obra-prima. Mas, ao contrário do clássico da literatura inglesa, “No Coração do Mar” não diz respeito a baleias gigantes: diz respeito à sobrevivência – e às escolhas que em nome dela são feitas.

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Na trama, Ben Whishaw é o escritor Herman Melville, antes de se tornar o autor de um dos mais famosos romances da literatura norte-americana. Jovem, inseguro e curioso, o estreante vai à procura do último sobrevivente do naufragado navio Essex, Thomas Nickerson (interpretado por Tom Holland, quando jovem, e posteriormente por Brendan Gleeson). O encontro entre ambos é, previsivelmente, nada amistoso no início. Afinal, contar a história daquele naufrágio é um processo dolorido, mas necessário para que cada um dos envolvidos obtenha o que deseja: Melville busca uma história; Thomas busca redenção. E assim, hesitante, Thomas conta a história do navio comandado por George Pollard (Benjamin Walker) e Owen Chase (Chris Hemsworth) – primeiro-imediato do Essex e protagonista do filme.
À primeira vista, tem-se todos os elementos para compor uma obra visualmente atraente, mas previsível: temos Owen, o protagonista de origem humilde, destemido e rebelde; temos George, o capitão nobre e arrogante, colocado no comando devido à sua posição social; e temos Thomas, um jovem coadjuvante que admira o protagonista, e que narra sua história do futuro. Durante a primeira parte do longa, portanto, o roteiro segue a linha tradicional dos blockbusters – os destaques vão para a fotografia, que captura cenas belíssimas em alto mar, e para a crueza das cenas de caça aos animais. De fato, quando se trata de retratar a crueldade humana, “No Coração do Mar” não tem pudores: o longa não hesita em mostrar imagens literalmente viscerais de baleias esfoladas, perfuradas e desmembradas – em suma, exploradas até o último ponto. Mas mesmo tais cenas, que à primeira vista parecem conter uma crítica à truculência dos baleeiros, acabam um tanto ofuscadas pela glorificação da bravura de Owen quando realiza seu trabalho. O resultado é uma mensagem um tanto dúbia, que tende mais para o lado da crítica aos métodos de caça de animais marítimos, mas que o faz de maneira um pouco hesitante.

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Ator Chris Hemsworth interpreta o primeiro-imediato Owen Chase, protagonista do filme

É a partir do encontro com a grande baleia branca e o consequente naufrágio, porém, que o longa surpreende: sem perder a beleza estética, a obra segue retratando todas as privações enfrentadas pela tripulação (o que restou dela, pelo menos). A fome, a ausência de higiene, a ameaça de insanidade, a sede – e sobretudo as escolhas inenarráveis que tiveram de ser feitas em nome da sobreviência. Tudo isso é amarrado ao longo do relato de Thomas, e intercalado a tomadas primorosas do mar aberto.
Se veio à sua mente outro filme com imagens espetaculares sobre um naufrágio (leia-se: As Aventuras de Pi), esqueça: o naufrágio de “No Coração do Mar” pode contar com excelentes efeitos visuais e fotografia, mas tirando isso, não possui nada de belo. Ao contrário, é um relato dos mais violentos sobre o instinto humano de evitar a morte. Aqui merecem elogios, também, a maquiagem e as atuações do filme: Cillian Murphy, ator que interpreta o amigo mais antigo de Owen (e que luta contra o alcoolismo), encena de modo muito verossímil o papel de alguém à beira da morte; e o próprio Hemsworth faz um bom trabalho quando seu personagem enfrenta uma situação semelhante à do amigo. A transformação facial e corporal de ambos impressiona, reforçando o devido elogio à equipe de maquiagem e aos efeitos do longa.
Pode-se dizer que “No Coração do Mar” surpreende, em primeiro lugar, por ser categorizado como mais um blockbuster de ação ou aventura, quando na verdade flerta muito com o drama. Um drama esteticamente admirável, com boas atuações, uma boa produção – e também com alguns elementos (seja de temática, ou de crítica ambiental) que já não são tão comuns ao filmes norte-americanos de sucesso. Não é que o filme seja uma revolução do cinema hollywoodiano – já que ainda se insere na mesma estrutura fixa de personagens um tanto rasos, roteiro sem grandes inovações e um final agradável, dentro do possível. Mas é uma brisa leve de ar novo, que serve para lembrar que mesmo dentro dessa estrutura nada surpreendente, podem ser produzidos resultados apreciáveis – que têm o potencial de ir além de um simples descanso para a mente ou de um simplório agrado para os olhos.

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