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No Coração do Mundo é uma fábula intimista e verdadeira sobre a periferia de Minas Gerais
CINÉFILOS
01 ago 2019 | Por Matheus Zanin (matheus_zanin2001@hotmail.com)

“E esse negócio? No coração do mundo?”, Marcos (Leo Pyrata) pergunta para Selma (Grace Passô). A câmera gira e vemos a gravação da filmagem feita pela personagem. “O coração do mundo… É o próximo lugar, é pra onde a gente quer ir. Melhor, muito melhor”, ela responde.

No Coração do Mundo (2019), escrito e dirigido por Gabriel Martins e Maurílio Martins, é um caso curioso. A sinopse diz tratar-se sobre Marcos, que, ao lado da namorada, Ana (Kelly Crifer), busca solucionar todos seus problemas através de um plano elaborado por Selma: assaltar um condomínio. No fim, são retratados diversos núcleos de personagens e casos que refletem a simplicidade da vida em Jardim Laguna, bairro de Contagem (MG), onde os diretores vivem.

“O filme apresenta uma ambiguidade. Vemos lados diferentes de cada um”, Gabriel Martins comenta [Imagem: Embaúba Filmes]

O longa surgiu a partir de dois curtas pré-existentes: Contagem (2010) e Dona Sônia pediu uma arma para seu vizinho Alcides (2011). Os créditos iniciais sintetizam a essência do filme: ao som de BH é o Texas, de MC Papo, são mostrados adultos e crianças que vivem na região, área periférica. Uma vez exibido o título da obra, os dois cineastas constroem uma teia de personagens relacionadas entre si.

Devido à existência de diferentes núcleos, o roteiro permite maior fluidez e agilidade para os acontecimentos em tela. Em uma cena, Ana troca a fralda de seu pai debilitado. Em outra, a simpática Rose (Barbara Colen) está deixando seu cabeleireiro. Até o início do último ato, acompanhamos esta dinamicidade de retratos. 

“Há uma coisa muito maior ali que causa um certo sentimento em quem está assistindo ao filme, independente da condição da pessoa”, Martins acentua. [Imagem: Reprodução]

A questão duradoura da película é a existência do lugar — assumindo uma interpretação praticamente metafórica para um estado de consciência — que parece conduzir todas as personagens na mesma direção.

“Vou te levar pro coração do mundo”, Marcos diz para a namorada, após ouvir o discurso de Selma. Pyrata interpreta um homem insatisfeito com a própria situação: vivendo entre bicos e crimes, sente-se culpado ao testemunhar o trabalho duro da mãe, que vende produtos de limpeza como fonte de renda. Apesar de estar envolvido no assassinato de um jovem morador local, sua aparência amigável e carismática chega a ser cômica quando o ator necessita impor-se, mostrar-se “durão”. Indo além de um estereótipo de “vagabundo da vizinhança”, é ressaltado seu caráter verossímil. 

Ali, ninguém é bom ou mau, são frutos do meio. Selma sonha em reencontrar sua filha. Ana deseja um emprego melhor. Rose quer tornar-se motorista de Uber. Seu amante, Miro (Robert Frank), deseja ver o irmão fora do mundo do crime. É uma colcha de retalhos, na qual cada um desempenha uma função. O diretor, Gabriel, enfatiza que tais desejos são pautados por algo maior, sem nome, além de condições financeiras.

O longa revela-se como exemplo contrário à defesa recente de Bolsonaro quanto ao financiamento de filmes nacionais. Segundo o presidente, as produções brasileiras deveriam representar “heróis nacionais”. “Os nossos personagens, por terem falhas, se tornam mais interessantes do que aqueles virtuosos”, Gabriel defende, indicando que suas criações passam por transformações e arcos dramáticos. “O heroísmo passa por atos de militarismo ou por atos de bravura e coragem. Mas existe maior ato de bravura do que uma mãe criar seus filhos sozinha numa periferia?”, Maurílio questiona.

As personagens femininas, “sempre em movimento”, como realçado pelos diretores, são os maiores destaques do roteiro. Grace Passô é excepcional, comprovando sua versatilidade ao interpretar alguém tão diferente de sua tímida personagem em Temporada (2018). Selma é perspicaz, sistemática e inteligente. Quem também surpreende é MC Carol de Niterói, que interpreta uma amiga de Marcos. A cantora, em poucos minutos em tela, transmite tamanha naturalidade em suas falas que não parecem serem roteirizadas. 

Os diretores mostram a beleza e a sutileza da periferia de Contagem entre a condição hostil de seus habitantes [Imagem: Embaúba Filmes]

Apesar da fluidez do roteiro, a quantidade de personagens é desfavorável em alguns momentos. Com a junção da adaptação de Dona Sônia pediu uma arma para seu vizinho Alcides, o enredo da mãe vingativa que perdeu o filho parece desconexo, apesar da (novamente) relação existente entre os moradores da região. Desde o início da obra, Dona Sônia (Rute Jeremias) recebe importância gradual. A aparência inofensiva da senhora é ratificada por planos despretensiosos que a mostram caminhando ou visitando uma loja.  Sua conclusão, porém, parece desproporcional à atenção recebida

O último ato — a execução do plano elaborado por Selma — destoa do restante do longa ao assumir tom de suspense. Enquanto anteriormente variados núcleos de personagens possuíam semelhante tempo em tela, os minutos finais do filme concentram-se em Selma, Marcos e Ana, sendo os únicos a apresentarem algum tipo de desfecho. O final é melancólico, ao ponto de incomodar positivamente. Gera-se esperança e certeza, ao mesmo tempo, da condição daquelas figuras do cotidiano. “Esses personagens vão se reinventar, vão encontrar alternativas, assim como minha família e a de Gabriel encontraram”, diz Maurílio. 

“Quanto mais conheço outros espaços, mais Contagem se torna o coração do mundo para mim. Não é idílico, não é nostálgico, não é romântico — porque ele é duro” finaliza Maurílio ao recordar-se do assassinato de um conhecido na região, a quem havia acabado de oferecer um papel num longa [Imagem: Embaúba Filmes]

A maior maestria dos diretores é, através de enquadramentos abertos, mostrar a beleza da periferia de Contagem, reafirmando que, sim, tal ambiente possui espaço no Cinema. Cinema que, no final das contas, é o mais genuíno de todos. 

O longa tem estreia prevista para o dia 1 de agosto no Brasil. Confira o trailer:

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O Cinéfilos é o núcleo da Jornalismo Júnior voltado à sétima arte. Desde 2008, produzimos críticas, coberturas e reportagens que vão do cinema mainstream ao circuito alternativo.
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