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O escândalo da seleção americana de ginástica e a necessidade da empatia
CINÉFILOS
17 jul 2019 | Por Maria Luísa Bassan (malugomesdesa@hotmail.com)

Em janeiro de 2018, chegou ao fim o julgamento de um dos maiores escândalos do esporte estadunidense: Larry Nassar, médico da Federação de Ginástica dos Estados Unidos, recebeu pena de 40 a 175 anos de prisão por abusar sexualmente de mais de 150 meninas, incluindo ginastas da seleção americana. Quando o caso chegou à grande mídia, uma série de perguntas tomou conta da cabeça dos espectadores. Por que ele fez isso? Como não só a Federação de Ginástica, mas também o Comitê Olímpico dos Estados Unidos iriam lidar com aquele caso? Se havia vítimas que sofreram com os abusos de Nassar 20 anos atrás, elas o denunciaram? Se sim, por que ninguém fez nada para detê-lo?

O documentário No Coração do Ouro: O Escândalo da Seleção Americana de Ginástica (At the Heart of Gold: Inside the USA Gymnastics Scandal, 2019) traz o caso Larry Nassar exposto desde seu início, mostrando ao público quem era o médico e por que o pesadelo criado por ele durou cerca de vinte anos até ser julgado. Mesmo sendo denunciado mais de uma vez por abuso sexual, Nassar mantinha-se intacto em seu trabalho, sendo encoberto inclusive por treinadores e membros do Comitê Olímpico.

O médico era a típica figura que inspirava simpatia por aqueles que o conheciam: era amigo de todos da comunidade onde morava, realizava trabalhos voluntários, atendia inclusive na Michigan State University e era uma figura confiável para as garotas que treinavam ginástica e sonhavam representar os Estados Unidos nas Olimpíadas. Em um ambiente tão exigente e controlador, Nassar era querido pelas atletas e suas famílias, muitas vezes não atuando somente como médico, mas como amigo disposto a fornecer suporte para que as ginastas não desistissem. Essa confiança foi o elemento principal do médico para que ele se aproveitasse do seu cargo e proximidade das garotas e cometesse os abusos.

Ao longo do documentário, depoimentos de jornalistas, advogados e treinadores ajudam a construir o perfil de Nassar e do esporte em si. Em um ambiente tão competitivo e exigente, problemático por si só, a saúde física e mental das atletas ficava em segundo plano. Treinadores com condutas de exigência desumanas e equipes técnicas que não ouviam as atletas eram apenas alguns dos fatores que contribuíram para a atmosfera que silenciava as ginastas. Nassar era uma figura inquestionável nesse meio: seu nome era conhecido no âmbito esportista, seu atendimento se estendia a membros da Michigan State University e muitas vezes ele era o único suporte das atletas em competições. Como não confiar nele? Como não suspeitar de seus procedimentos, já que ele era um médico reconhecido? Teoricamente, ele não faria nada para machucá-las.

Quando algumas garotas ousaram questionar o tratamento fornecido por Nassar, elas foram desacreditadas por treinadores e membros da Universidade. Os poucos processos que tiveram continuidade não conseguiram chegar muito longe – as investigações, caso não fossem ignoradas, eram desenvolvidas favorecendo Nassar. Ele só passou a ser devidamente questionado e desacreditado no momento em que uma garota, filha de um casal amigo dele, o denunciou. Como ela não estava sendo examinada por ele, não havia como alegar que era “parte de um procedimento médico”.

A juíza Rosemarie Aquilina no julgamento de Larry Nassar [Imagem: Copyright HBO Latin America]

O documentário dá voz à parte central do caso Larry Nassar: as vítimas. Com depoimentos de diversas ginastas e outras garotas que sofreram abusos, o espectador é convidado a ouvi-las e entender quais foram os efeitos do médico na vida delas. Não há espaço para julgamentos; elas contam sobre sua relação com a ginástica, com o médico e, principalmente, como foi difícil assimilar que aquilo que ele fazia com elas era errado. Acusá-lo de abuso sexual significava questionar não só uma figura respeitada no meio, mas toda a estrutura administrativa que o sustentava. E isso pesava muito quando se analisava o que elas poderiam perder caso estivessem equivocadas.

Outra figura de grande destaque do longa é a juíza Rosemarie Aquilina, responsável pelo caso. No início do julgamento, cerca de 88 garotas iriam depor contra o médico. No final da semana, eram 156 garotas. 156 vozes que, apoiadas umas às outras, encontraram forças para se pronunciarem sobre as cicatrizes que Nassar deixou em suas vidas. Cada depoimento, além de aplaudido pelo público, era agradecido pela juíza que as incentivava a não se calarem. Aquilina sabia que as vítimas haviam sido desacreditadas por tempo demais e fazia questão de se posicionar como ouvinte. O tempo de questionamentos havia acabado. O médico precisaria lidar com as consequências de seus atos, e Aquilina fez questão de que ele ouvisse os depoimentos, um a um.

No Coração do Ouro: O Escândalo da Seleção Americana de Ginástica é um documentário tecnicamente simples que mexe com o espectador não só pelo tema, mas principalmente pela abordagem. Em um mundo machista, onde mulheres são constantemente desacreditadas e invalidadas, é necessária muita força para que vítimas de abuso sexual compartilhem suas cicatrizes, de modo a mostrarem que elas, apesar de tudo, sobreviveram e resistem dia após dia. Cabe a nós, como espectadores, mas acima de tudo, como seres humanos, ouvi-las e respeitá-las por sua coragem. Há ódio demais lá fora. Que nós sejamos, então, empatia.

O documentário será exibido na HBO no dia 15 de julho, às 22h. Assista ao trailer aqui:

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