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O Anjo: por que amamos psicopatas?
CINÉFILOS
17 abr 2019 | Por Cinéfilos

Por Isabel Magalhães Teles
isabel.teles@usp.br

“O mundo é dos ladrões e dos artistas”. Carlos, interpretado com maestria pelo estreante Lorenzo Ferro, escuta esta frase de seu parceiro Ramón (Chino Darín), em uma das primeiras ações que articulam juntos. O ano é 1971, evidente nos cabelos, roupas, casas e automóveis do universo construído pelo diretor Luis Ortega no filme O Anjo (El Ángel, 2018), exibido no festival de Cannes.

O longa é inspirado na história de Carlos Eduardo Robledo Puch, o criminoso mais famoso da Argentina, condenado à prisão perpétua e encarcerado até hoje. Mas não se trata de uma biografia. Em entrevista, Ortega revelou que quis contar sua própria história, não narrar com precisão os fatos da vida do assassino. Por isso, a obra se distancia do tom didático de filmes históricos e se aproxima de do romance policial, envolvendo o espectador do início ao fim.

Produzido por Pedro e Agustín Almodóvar, a história tem sangue e fôlego latino, com imagens surreais, que remetem ao universo fantástico, como a cena em que Carlos observa um velho amputado que tem uma ovelha de estimação. A presença do regime militar no filme também aparece de forma extraordinária na cena em que Carlos liga para sua mãe e a sala de sua casa está repleta de dezenas de policiais escutando a ligação.

O rapaz de cabelos loiros, que não gosta de ser chamado de rubio (loiro em espanhol), e sim de Carlitos, foi apelidado pela imprensa argentina de anjo da morte, justamente em referência a seus claros cabelos cacheados e à sua aparência infantil e  inocente. Na época dos crimes, entre 1971 e 1972, ele tinha 19 anos, sendo considerado menor de idade, conforme as leis que vigoravam no país. Robledo Puch foi condenado por 11 assassinatos, mais de quarenta roubos, sequestros, estupro de mulheres e insexto.

Cena do filme em que Carlos é preso e imagem real de sua prisão em 1972  [Imagem: Europa Press]

Carlitos vem de uma família “decente”, como ele mesmo ressalta e fica evidente pela preocupação de seus pais, mas sempre gostou de roubar. Ele o faz simplesmente porque é bom nisso, um verdadeiro artista. Em determinado momento, o personagem aprende que seu nome, de origem germânica, significa “homem livre”. Por isso sente-se tão à vontade para fazer o que faz, como se estivesse no exercício de um direito, sendo alguém que não precisa conter suas vontades.

Carlos é um rebelde. Já passou por reformatórios, fugiu de casa, e ainda assim consegue ser bem visto e bem quisto por todos que o rodeiam. Como todo psicopata, ele é fascinante. Usa não apenas sua aparência física, e o reconhecido poder de sedução, como também jogos psicológicos para envolver sua família, parceiros de crime, policiais e mais ainda, o espectador.

Impossível não esboçar um sorriso com as tiradas sarcásticas de Carlitos e com os closes em seu rosto, mostrando os olhos profundos e sua boca sempre rosada. Em diversas cenas, ele coloca música e dança despreocupado, passando sensação de ser seguro de si e desligado do mundo exterior –efeito obtido graças ao excelente trabalho de montagem do filme e da trilha sonora envolvente.

Cenas de Carlos dançando sozinho em casas que não são suas, marcam o longa do início ao fim, sugerindo que ele vive uma realidade própria e que sua vida é cíclica, sendo o recorte do filme apenas uma passagem de algo muito maior. De fato, quando o espectador é apresentado ao protagonista, ele já invade casas e pratica furtos. O que Ortega permite acompanhar é como Carlitos passou de ladrão à assassino em série.

A produção sugere que a aproximação com seu novo colega de escola e futuro parceiro no crime, Ramón Peralta, que fora das telas se chamava Jorge Ibanés, é a responsável. Isso porque Ramón faz parte de uma família de criminosos que ensinam Carlos a atirar e o envolvem em roubos maiores. Evidentemente, o personagem principal não se tornaria um assassino a sangue frio pelo simples contato com uma arma, sua crueldade provavelmente já se manifestava antes, mas o filme sugere que o desejo de impressionar e seduzir o parceiro desencadeia isso. A tensão sexual entre os dois ao longo da trama contribui para torná-la ainda mais instigante.

Carlos e Ramón  praticam roubos juntos  [Imagem: Adoro Cinema]

1971, ano em que Carlos conhece Ramón, também é o ano de lançamento do longa Laranja Mecânica. Os protagonistas dos filmes tem muito em comum. Ambos são filhos únicos de famílias estruturadas e gostam de praticar furtos e se divertem invadindo casas milionárias com suas gangues, além de terem uma paixão intrigante por música clássica, Carlos toca piano e Alex (Malcolm McDowell) é aficionado por Ludwig van Beethoven.  

O filme de Ortega faz diversas referências a Kubrick, não apenas pela história semelhante dos personagens –que talvez tenha mais a ver com traços da psicopatia do que com um tributo em si –, mas sobretudo por meio de referências fotográficas. A inspiração fica evidente tanto nos enquadramentos e closes no rosto do protagonista quanto nos planos sequenciais, como quando a gangue de Carlos rouba um caminhão leiteiro e sai com garrafas para comemorar da mesma forma que Alex e sua turma fazem no início de Laranja Mecânica.

Nas duas tramas, há um paralelo entre o tratamento para buscar entender, no caso de Carlos, e corrigir, no caso de Alex, a maldade dos protagonistas. Em referência à famosa cena em que Alex é forçado a manter os olhos abertos para assistir cenas violentas, Carlitos tem eletrodos presos à sua cabeça e na cena seguinte, seus pais assistem ao noticiário na televisão, em uma alusão à sequência de Kubrick.

O Anjo tem potencial para se tornar um clássico do mesmo nível de Laranja Mecânica, sendo ao mesmo tempo um filme de arte e uma narrativa contada com maestria e inteligência para entreter o espectador e levá-lo ao extremo de se apaixonar por um psicopata.

O longa chega aos cinemas brasileiros no dia 18 de abril. Veja o trailer:

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O Cinéfilos é o núcleo da Jornalismo Júnior voltado à sétima arte. Desde 2008, produzimos críticas, coberturas e reportagens que vão do cinema mainstream ao circuito alternativo.
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