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O ator que você não vê
CINÉFILOS
14 jan 2013 | Por Jornalismo Júnior

Desde o início do cinema, é recorrente a prática de substituição de um ator por outro em determinados tipos de cenas; esse é o trabalho do dublê. Quando a filmagem de uma cena oferece perigo, grande constrangimento ou necessita de habilidades que o ator principal não possui, ele entra em ação. Essa alternativa faz com que o andamento das filmagens não seja interrompido, caso algum imprevisto aconteça, e também acaba sendo mais barata, o que a torna a tentadora.

Diferentemente do que se pode deduzir, o uso de dublês não começou em filmes de ação, mas na comédia de pastelão, gênero mais antigo. Na verdade, o fator mais relevante para a escolha era encontrar alguém suficientemente desesperado para fazer o que lhe era pedido –  jogar-se de uma grande altura, por exemplo. Não havia nenhum tipo de treinamento e, por isso, as mortes eram frequentes.

Bill Hickman, perseguições de carros e coordenação de cenas de ação
Poucos são os dublês que conseguem ficar em um mesmo trabalho durante muito tempo. Geralmente, começa-se em uma área específica e transforma-se em uma espécie de “faz tudo”. Bill Hickman é exceção a essa regra: foi um dos poucos que ficou conhecido pela habilidade singular de lidar com carros.

Ele participou da cena vangloriada como a melhor perseguição de carro do mundo do cinema, a do filme Bullitt (Bullitt 1968). Nela, os recursos tecnológicos praticamente não existiram: os sete minutos de perseguição foram filmados em velocidade normal, sem partes editadas, o que impressiona pelo realismo. Hickman integrou também duas tentativas marcantes, e bem sucedidas, de alcançar a “caça automobilística” que ocorre em Bullitt, que estão nos longas Operação França (The French Connection, 1971) e Esquadrão Implacável (The Seven-Ups, 1973).

Além de ator, Hickman foi também coordenador de cenas de ação, que é o profissional que contrata os dublês mais adequados, planeja as cenas em que eles atuarão planeja e também se encarrega de checar os protocolos de segurança. Dificilmente essas cenas envolvem os atores principais; por isso, elas ocorrem em locações separadas, podendo ser gravadas, inclusive, no mesmo momento que as que não necessitam de dublê estão ocorrendo. Portanto, o diretor do filme, poucas vezes está presente na gravação dessas cenas e quem as dirige é o chamado diretor de segunda unidade.

O carro dirigido por Bill Hickman

A entrada do digital e os riscos da profissão
Diferentemente do que ocorria no passado, para ser dublê hoje em dia é preciso ter horas de trabalho especializado. No mundo inteiro existem escolas destinadas a formá-los e a mais conhecida delas é a dirigida pela União dos Dublês (United Stuntments Associations), que dá palestras ao redor do mundo.

Com a evolução dos efeitos digitais e sua entrada no cinema, as novas técnicas também foram incorporadas no trabalho de dublês. No filme Cisne Negro (Black Swan, 2010), por exemplo, as cenas que eram necessários conhecimentos profissionais de ballet, inseriu-se digitalmente o rosto de Natalie Portman em sua dublê, a bailarina Sarah Lane.

Um exemplo ainda mais emblemático é do filme O Corvo (The Crow, 1994), em que o ator principal, Brandon Lee, morreu no meio das filmagens ao ser atingido, acidentalmente, por uma bala de festim. O diretor, seu pai – Bruce Lee – e famíliares insistiram para que o filme fosse terminado e assim o fizeram. As cenas restantes foram gravadas com um dublê e o rosto de Brandon foi inserido digitalmente.

Nos filmes antigos, as técnicas de filmagem compensavam a computação gráfica ainda em gestação: havia mais cuidado para que o rosto do dublê não fosse exibido ou focalizado, passando a ilusão de que o ator principal quem fez toda a cena. Hoje em dia, apesar da possibilidade de se utilizar artifícios como reposição de faces, o cuidado na filmagem ainda é bastante utilizado por costume, pelo custo menor e produção mais rápida.

É importante ressaltar que, mesmo com todo o melhoramento que o mercado de dublês sofreu desde que começou a existir no cinema, a profissão não deixou de ser perigosa. Em 2011, na gravação do filme Os Mercenários 2 (The Expendables 2 – Back For War, 2012), o dublê Kiu Liu morreu durante as filmagens de uma explosão em um lago, na Bulgária. Na mesma cena, outro dublê, Nuo Sun, ficou seriamente ferido, chegando a processar a equipe do filme.

Preocupada com esses imprevistos, a Fundação Taurus World Stunt Awards oferece suporte aos dublês que sofreram ferimentos durante o trabalho e também faz uma premiação destinada ao trabalho desses profissionais, afinal os dublês são fundamentais para que a magia do cinema aconteça.

Efeito usado no filme Cisne Negro, em que a cabeça da dublê é substituída pela da atriz principal

Por Luiza Fernandes
luizafc00@gmail.com

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