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O aumento de intolerâncias e alergias alimentares e o que podemos fazer para ajudar
Corpo e Mente
30 maio 2018 | Por Jornalismo Júnior
Por Marina Faleiro Caiado (marinafcaiado@usp.br)

 

Com certeza você tem um parente, amigo, ou já ouviu falar de alguém que não podia comer algum alimento por possuir uma intolerância ou alergia alimentar. Esses problemas vêm aumentando cada vez mais. Segundo um estudo realizado pela Universidade Northwestern no estado americano de Illinois, nos últimos cinco anos, o número de internações e consultas hospitalares decorrentes de crises alérgicas causadas por alimentos aumentou cerca de 30% ao ano nos Estados Unidos. Apesar de não haver dados sobre esse tipo de aumento no Brasil, sabe-se que ele vem acontecendo no mundo inteiro. A pergunta é: por quê? As respostas podem ser várias, e ainda não estão muito claras, mesmo para os especialistas.

 

Intolerância? Alergia? Não é tudo a mesma coisa?

 

Não! Apesar desses dois problemas serem, na maioria das vezes, tratados com dietas restritivas parecidas, existem diferenças, como explica a Doutora Gina Kimiê Iwamoto, especializada em pediatria pela Universidade Federal de Goiás (UFG) e em alergia e em imunologia pelo Hospital de Base de Brasília. A alergia alimentar é consequente da resposta imunológica anormal após a ingestão ou contato com alimentos, podendo apresentar sintomas gastrointestinais, cutâneos ou até respiratórios. Já a intolerância alimentar geralmente está relacionada com os açúcares, havendo uma ausência total ou parcial das enzimas que fariam sua digestão. Nesse caso, a reação adversa ao alimento não advém de uma resposta imunológica e seus sintomas são quase que exclusivamente gastrointestinais. Ou seja, enquanto um intolerante, na maioria dos casos, sofre apenas com dores abdominais, flatulências, náuseas, diarreia, etc., um alérgico a determinado alimento pode também sofrer com irritações na pele, dificuldade em respirar e desconfortos na garganta, por exemplo, dependendo da manifestação e da gravidade do quadro. Assim, na maioria dos casos, pode-se dizer também que a alergia é mais grave do que a intolerância.

 

Fonte: Nutriangels

 

O que causa esses problemas?

 

Em se tratando de alergias, podemos destacar a predisposição genética como algo muito importante. Segundo o último Consenso sobre Alergia Alimentar, que aconteceu em 2018, um filho de dois pais alérgicos já possui 75% de chance de apresentar alergia alimentar. É o caso da Gaia Gonçalves, de três anos e oito meses, que mora em São Lourenço do Sul (RS). Sua mãe, com dois anos, apresentou sintomas que mais tarde foram diagnosticados como de Alergia à Proteína do Leite de Vaca (APLV), e hoje tem intolerância à lactose, além de ter apresentado problemas com amendoim. O pai de Gaia também possui um tipo de intolerância, a rinite alérgica desencadeada pelo leite. A criança, além de possuir APLV, como sua mãe, na infância, tem alergia às proteínas do ovo e da soja e alergia a tomate, castanhas, morango, banana, beterraba, abacaxi e manga.

Também podemos citar alterações intestinais como facilitadores da alergia alimentar. Por exemplo, as próprias irritações crônicas causadas por uma intolerância a determinado alimento poderiam lesar a mucosa intestinal, facilitando o desenvolvimento de uma alergia.

Outro fato interessante: ainda não se sabe ao certo o porquê, mas alguns alimentos são considerados mais alergênicos, ou seja, têm maior chance de causar sintomas alérgicos nas pessoas. Alguns exemplos são: leite de vaca, ovo, soja, trigo, peixes, frutos do mar, amendoim e castanhas.

Alguns dos principais alimentos causadores de alergias. | Imagem: Blog Alergo Imuno

 

Por que isso está aumentando?

 

Há quem diga que é porque hoje em dia nosso organismo pede socorro frente à uma alimentação demasiadamente industrializada e cheia de “venenos”. Outros falam que tem a ver com parto normal e cesariana. Alguns afirmam que é porque vamos mais ao médico e aumentaram apenas os diagnósticos. Quem está certo?

Não existe ainda uma resposta exata. Esse universo está repleto de dúvidas e hipóteses. Para a Doutora Gina Iwamoto, o fato de as pessoas possuírem hoje mais informação e procurarem os médicos com maior frequência torna possível o aumento do número de diagnósticos. Mas também existem muitos deles que são falsos, os “superdiagnósticos”, pois os testes alérgicos e exames são pedidos em exagero. Dessa forma, são muitas vezes mal interpretados, e levam inclusive a tratamentos desnecessários. Assim, uma pessoa pode ser levada a restringir de sua dieta um alimento sem necessidade.

Em relação ao parto normal e à cesariana, é possível sim afirmar que crianças que nascem de parto normal têm menos chances de desenvolverem alergias. Isso porque existem no canal vaginal bactérias que contribuem para a formação da flora intestinal do bebê, ajudando na imunidade. É como se algumas bactérias da mãe fossem transferidas para a criança durante o parto, aumentando a proteção do neném.

E aquela história de alimentação “artificial” e “cheia de venenos”? Pode parecer um pouco mirabolante, mas é possível que a quantidade de corantes, conservantes e outros aditivos industriais que ingerimos esteja ligada ao desenvolvimento de intolerâncias e alergias a alimentos. Isso ocorre pois essas substâncias poderiam trazer alterações à nossa flora gastrointestinal, e como tudo capaz de fazê-lo, contribuiriam para um desbalanço imunológico em nosso organismo, tornando as reações alérgicas mais fáceis de acontecer.

Também é importante lembrar que o que aumentou foram os diagnósticos, então é possível que no passado muita gente fosse intolerante ou alérgico a algum alimento sem nunca ter descoberto. Além disso, as crianças sofrem mais com esses problemas que os adultos, devido a um mecanismo de sua imunidade. É comum que, até os cinco anos de idade, desenvolvamos alergias que desaparecem após algum tempo, quando passamos a tolerar o alimento e podemos voltar a comê-lo. Dessa forma, precisamos tomar cuidado ao pensar que as restrições alimentares são bem mais comuns na geração de hoje quando vemos várias criancinhas que as possuem. Talvez no futuro essas restrições não sejam mais necessárias. Talvez no passado nossas crianças também possuíssem esses problemas e nós apenas não sabíamos dar os nomes que damos hoje: doença celíaca, APLV, intolerância à lactose, entre outros.

Dentre tantos “talvezes”, a única conclusão à qual podemos chegar aqui é que o aumento desses diagnósticos não pode ser explicado a partir de um só fator. Existe ainda muito a ser analisado e descoberto para que possamos entender melhor o porquê dessa maior incidência de casos de intolerâncias e alergias alimentares.

 

Existe uma maneira de evitar esses problemas?

 

Você talvez já tenha escutado que a partir de uma certa idade é necessário introduzir alergênicos como amendoim e camarão na alimentação da criança, para que ela se “acostume” e tenha menor chance de desenvolver alergias no futuro. Mas a verdade é: não existe uma fórmula mágica e exata capaz de evitar essas condições. O aleitamento materno é com certeza um fator protetor, já que exerce forte influência na flora intestinal da criança, fortalecendo seu sistema imunológico, mas mesmo assim não é uma garantia. Quanto ao restante, não há mais nada que confirme efeito protetor, nem mesmo a introdução precoce de alimentos alergênicos.

 

O que podemos fazer, então?

 

Os pacientes dizem que faltam produtos específicos no mercado e rótulos seguros, mas sobretudo, que falta a informação e o respeito das demais pessoas. Marilyn Teixeira, mãe da Mariana, que tem dois anos e dois meses de idade e alergia às proteínas do ovo, da soja e do leite de vaca, pensa que a dificuldade maior é o apoio das pessoas ao redor que não respeitam a condição da filha. “Acham que é frescura, exagero e não entendem que alergia mata e oferecem alimentos escondido à criança”. E sobre seu dia a dia, acrescenta: “A rotina é bem cansativa e o convívio social muda drasticamente, praticamente somos isolados do mundo”.

 

A imagem mostra Mariana fazendo uma refeição. A mãe explica que a adaptação à nova dieta foi difícil para a menina. No início, Mariana chegou a fazer greve de fome por causa da restrição do leite, seu alimento favorito. | Imagem: Arquivo pessoal

 

Para Elisangela de Jesus Lopes, mãe do Enzo, que tem apenas 12 anos e é alérgico a oleaginosas, amendoim, crustáceos, frutos do mar, corantes e dipirona, o mais difícil é escutar do pai do menino que tudo o que ele tem é “frescura”. Segundo ela, o pai não dá a devida atenção às alergias do filho, o que recentemente resultou em um episódio de edema de glote. Edema de glote é um sintoma que pode surgir em caso de reação alérgica grave, caracterizado por inchaço na garganta. Isso pode obstruir o fluxo de ar nos pulmões, sendo considerado uma emergência médica. Segundo ela, isso resultou em sérias complicações para Enzo.

 

O cartaz do blog “Maternidade Colorida” apela para que as demais pessoas perguntem sempre aos pais da criança antes de oferecer a ela algum alimento | Imagem: Maternidade Colorida

 

O melhor a se fazer, nesse caso, é informar-se sobre o assunto e respeitar os intolerantes e alérgicos. Ninguém escolhe ter uma doença, um distúrbio, um problema psicológico, assim como ninguém escolhe ter uma alergia ou intolerância alimentar. Não é prazeroso não poder comer alguma coisa que você gosta, não é prático ter de produzir em sua própria casa quase todos os alimentos que sua família pode consumir, nem olhar minuciosamente os rótulos de todos os produtos que você compra. Esses problemas ainda trazem muitas perguntas, ainda são um enigma até mesmo para os especialistas, mas algumas coisas estão bem claras: não são “frescuras”, tampouco “doenças da moda”. As reações adversas a alimentos existem, são sérias, e respeitá-las é a maior ajuda que podemos oferecer aos que são obrigados a conviver com elas.

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