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O Bom (mas ruim) Gigante (mas pequeno) Amigo
CINÉFILOS
21 jul 2016 | Por Jornalismo Júnior

por Natan Novelli Tu
natunovelli@gmail.com

Steven Spielberg é não só um dos diretores mais poderosos da indústria, como também um dos mais importantes. Criador de marcos do cinema, como Tubarão (Jaws, 1975), Indiana Jones e os Caçadores da Arca Perdida (Raiders of the Lost Ark, 1981) e E.T. – O Extraterrestre (E.T., 1982), ele seria um dos grandes responsáveis por consolidar os chamados filmes-família. Nos últimos 5 anos, no entanto, talvez como forma de ser visto com seriedade, o diretor tem implementado grandes esforços com a produção de dramas “maduros” que, infelizmente, vem falhando miseravelmente obra após obra; Cavalo de Guerra (War Horse, 2011) é extremamente melodramático, Lincoln (Lincoln, 2012), enfad(ooooo)nho e Ponte dos Espiões (Bridge of Spies, 2015), simplista demais. Mesmo assim, em meio a tantas decepções, Spielberg continuava provando que sua sensibilidade para o fantasioso e lúdico continuava sempre aguçada, como é possível constatar em As Aventuras de Tintin (The Adventures of Tintin, 2011). Diante disso, a expectativa em torno deste O Bom Gigante Amigo (The BFG, 2016), cuja estória é baseada no livro infantil de Roald Dahl, era estrondosa. Lamentavelmente, mais uma vez, ela passa longe de ser cumprida.

The BFG_1

O Bom Gigante Amigo conta a estória de Sophie (Ruby Barnhill) que, após avistar um gigante da janela do orfanato em que vive, é raptada e obrigada a viver o resto de sua vida ao lado do personagem que dá nome ao filme, o Bom Gigante Amigo (BGA, Mark Rylance). No cativeiro, descobrimos que embora BGA não seja o único gigante, ele é de fato o único bom, tendo como função guardar em potes de vidro os sonhos que todas as pessoas têm durante a noite. A dinâmica do filme se dará então através da amizade que surgirá entre os dois, motivada pelo fato de nenhum deles ser aceito socialmente pelo seus meios de origem.

Abrindo com uma sequência bastante expositiva dos pensamentos de Sophie acerca do bicho-papão, o filme não nos dá nem tempo de processar a informação, de sentir o suspense em torno da criatura, já rapidamente nos revelando a identidade do gigante. O grande suspense que havia em Tubarão era justamente não conseguirmos vê-lo. O Bom Gigante Amigo não parece se preocupar com isso, jogando-nos em questão de 10 minutos, sem estabelecer ritmo ou tensão alguma, no mundo do gigantes. Momentos a seguir, o filme mais uma vez sem nenhuma calma, deixa de desenvolver o medo que qualquer criança teria inicialmente de BGA, pulando apressadamente para a amizade dos dois.

Ainda em relação à essa falta de suspense, é curioso reparar que em nenhuma das vezes em que os outros gigantes aparecem, eles surgem como reais ameaças. Em uma cena em específico, após os gigantes vasculharem e destruírem quase todos os pertences de BGA, ele decide espetá-los com uma estaca de ferro em brasa, conseguindo por fim expulsá-los. Mas a pergunta que fica é: como nenhum dos gigantes conseguiu detê-lo, considerando que todos eles tinham o dobro de tamanho? Ou mesmo assim, por que eles não voltaram para concluir o trabalho depois ainda mais furiosos? Em suma, o principal problema de O Bom Gigante Amigo é a falta de urgência. Como tudo parece perfeitamente contornável, o espectador dificilmente sente empatia pelos dilemas e pelas próprias personagens.

The BFG_2

Mas se por um lado, o filme não parece ter tempo de trabalhar arcos que deem um ritmo à trama, ele gasta construindo uma cena inteira, cujo ápice é um grande festival de flatulências (a.k.a. peidos). E pior, mais de uma vez. Curiosamente, em nenhum dos dois momentos, a sala de cinema, repleta de crianças, riu. Problema ainda pior se considerarmos que uma das vezes ocorre justamente na preparação da resolução, que por sinal é bastante artificial se comparado com o que filme se propunha até então.  

Esteticamente, o filme é muito bonito. A sequência inicial nas ruas de Londres tem um design de produção impecável, com contrastes fortes de luz e sombra que remetem muito ao gênero noir. O mundo dos gigantes e principalmente a “árvore dos sonhos” são bastante imaginativas e a captura de movimento dá espaço para que principalmente Rylance imprima reações bastante humanas ao gigante. Assim como a computação gráfica que, quase nunca exagerada, também é bastante funcional para a estória. Por outro lado, a trilha sonora padrão do companheiro de longa data John Williams quase não acrescenta em nada à emoção. Vício este também um pouco presente na fotografia do também parceiro de Spielberg, Janusz Kaminski, que cisma em filmar diversas cenas contra a luz, como se por si só o momento acabasse ficando mais sublime. Por fim, o 3D é totalmente dispensável, uma vez que a profundidade de campo é raramente utilizada como discurso.

The BFG_1

Sem ritmo e sem suspense, mas com alguns vícios técnicos e uma narrativa esquemática e totalmente sem vida, O Bom Gigante Amigo é uma grande decepção à filmografia de um diretor tão prolífico em aventuras fantasiosas. Se E.T. – O Extraterrestre consegue ser genial, é justamente pelos pequenos dramas do amadurecimento darem humanidade e excitação ao enredo, e não como aqui acontece, eles serem sufocados pelo último. Talvez seja hora então de Spielberg abrir mão das câmeras, para que sempre o lembremos como o bom e gigante diretor que um dia foi, e não como aquele amigo que só saudamos timidamente ao passar na rua.

Trailer legendado:

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