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‘O Braço Direito’ tenta esconder conteúdo vazio com abordagem obscura
CINÉFILOS
07 out 2020 | Por Thiago Gelli (thiago.gelli@usp.br)

O Braço Direito (2020), mais novo thriller nacional independente, é um filme circundado por certo grau de mistério. Enquanto a sinopse chega a ser detalhada, seu trailer é composto por um minuto e meio de cenas desconexas, amarradas por frases genéricas como “experiencie o dia mais extremo deste homem e desvende sua vida”.

Em tons cinzentos e música agourenta, acompanhada pelo que se assemelha a batimentos cardíacos, a propaganda tenta indicar um sombrio e misterioso suspense – o “primeiro brasileiro a denunciar insider trading” (negociação de informações privilegiadas). O resultado, no entanto, é tão raso quanto diz ser a investigação sobre tal crime.

O longa acompanha Anselmo (Denis Derkian), protagonista carente de qualquer traço de carisma ou personalidade, acometido pela metástase e pelo cargo de capanga que exerce para um magnata da Bovespa, ao passo que a doença evolui junto aos delitos que comete.

Sem vida, vítima de um roteiro inorgânico e escasso de substância, que tenta se disfarçar atrás de silêncios prolongados e planos gerais, Anselmo faz de sua maior crueldade pedir ao espectador que siga suas ações e observe seu olhar nublado repetidamente centrado no enquadramento, como se implorasse a quem o assiste que achasse a significância e humanidade que não lhe foram atribuídas.

Pelo campo da exposição, fica claro que a ambição do diretor e roteirista estreante, Rodrigo Reinhardt, era tecer comentários sócio-políticos pertinentes à contemporaneidade influenciada pelo mercado financeiro. No entanto, a narrativa simplista, mas complicada por infindáveis tentativas frustradas de aprofundamento, não esclarece sua perspectiva.

O arco de redenção de Anselmo é falho, e as linhas entre denúncia e compaixão se turvam sem grande efeito. As observações mais claras são deixadas para frases explicativas estampadas na tela no início e fim da obra, mas tampouco oferecem algo cativante ou específico ao filme.

Anselmo e um parceiro, Laerte (direita), em cena do filme [Imagem: Divulgação/O2 Play]

Particularmente desconfortável é o retrato de Luara (Giovana Santos), jovem de 19 anos aliciada pelo protagonista, que raramente usa mais que lingerie ou fala mais que uma frase. Ela existe apenas como tentativa de humanização do personagem principal, mas o foco constante em seu corpo seminu não oferece muito à narrativa.

De resto, os conflitos são tediosos e a violência narrada e demonstrada é afogada pela trilha sonora repetitiva que força uma tensão que nunca atinge clímax satisfatório. Sobretudo, o choque pretendido se perde quando não há semblante algum de vitalidade no universo construído.

O Braço Direito, como um todo, parece um filme feito apenas em nome da própria existência, um exercício em busca de algo não definido. O longa constrói a fotografia com sucesso, mas perde de vista todo o resto. O punhado de planos embaralhados e o uso de cortes abruptos o aproximam a um vazio filme de arte que negligencia sua intenção política e narratividade.

Depois de toda sua duração, o longa chega a uma conclusão esperada, comum e anticlimática. Trata-se de um encerramento coeso para um estudo de personagem tão difuso. O Braço Direito é uma coletânea de intenções em um pacote exaustivo e cheio de si. O enredo insípido dificilmente repercutirá em audiências contemporâneas, as quais a violência e crime se apresentam através de uma multidão de obras mais pungentes, bem colocadas e merecedoras de seu tempo.

O filme fica disponível nas plataformas digitais a partir do dia 08/10. Confira o trailer:

*Capa: [Imagem: Divulgação/O2 Play]

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O Cinéfilos é o núcleo da Jornalismo Júnior voltado à sétima arte. Desde 2008, produzimos críticas, coberturas e reportagens que vão do cinema mainstream ao circuito alternativo.
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