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O Brasil e a zona de sacrifício ambiental em ‘Piedade’
CINÉFILOS
19 maio 2022 | Por Maria Fernanda Barros (nandabarros@usp.br)

Piedade, uma cidade litorânea de Pernambuco, compõe o cenário do quinto longa-metragem do diretor pernambucano Cláudio Assis. Os moradores do município presenciam uma situação recorrente quando se trata do avanço do capitalismo global sobre os recursos naturais da América Latina: a empresa petrolífera PetroGreen expande seu campo de produção na Praia da Saudade e ameaça a sobrevivência do ecossistema e da população. 

O avanço destrutivo do petróleo desequilibrou completamente o cenário natural de Piedade: a poluição inibiu o turismo, destruiu recifes de corais e aumentou a incidência de tubarões na superfície, o que impossibilitou o acesso ao mar. No meio dessa conjuntura conturbada, há uma comunidade que resiste. O bar Paraíso do Mar, gerido pela matriarca Dona Carminha (Fernanda Montenegro) e seu primogênito Omar (Irandhir Santos), simboliza essa resistência local. O estabelecimento, que depende dos recursos naturais para se manter, recebe uma proposta — ou uma ameaça — da corporação predatória PetroGreen. Aurélio (Matheus Nachtergaele), o representante dos interesses multimilionários da empresa, tenta insistentemente convencer a comunidade praieira a entregar o terreno, sua fonte de renda e moradia, em troca de um valor e de um apartamento. As visitas coercitivas de Aurélio mostram a ação incisiva do sistema capitalista, que sobrepõe o lucro à cultura e à natureza em prol do “desenvolvimento”. 

Aurélio intimidando Dona Carminha em cena de Piedade (2019). [Imagem: Divulgação/ArtHouse]

A obra de Cláudio, escrita por Hilton Lacerda, denuncia a conduta de um sistema econômico que faz com que o território de comunidades, consideradas “primitivas”, seja uma grande zona de sacrifício ambiental. Esse conceito, elaborado por movimentos que lutam por justiça ambiental, corresponde às áreas que, por possuírem recursos naturais, são exploradas para gerar benefícios à economia global. O sacrifício é imposto pelas necessidades da burguesia internacional e atinge especialmente populações racializadas e marginalizadas. É como pontua Selene Herculano, integrante do Programa de Pós graduação em Sociologia e Direito da Universidade Federal Fluminense (UFF), em sua definição de Racismo Ambiental: “Conjunto de ideias e práticas das sociedades e seus governos, que aceitam a degradação ambiental e humana com a justificativa da busca do desenvolvimento e com a naturalização implícita da inferioridade de determinados segmentos da população afetados — negros, indígenas, migrantes, extrativistas, pescadores, trabalhadores pobres, que sofrem os impactos negativos do crescimento econômico e a quem é imputado um sacrifício em prol de um benefício para os demais”. 

O povoado da Praia da Saudade é, nesse sentido, visto como sacrificável, não só pela PetroGreen na narrativa criada por Cláudio, mas também fora das telas, pelas grandes potências externas que ditam as regras da política brasileira. A socióloga e comunicadora ecossocialista Sabrina Fernandes, em sua pesquisa Imperialismo Ecológico no Brasil, aponta que os países capitalistas periféricos, como o Brasil, são os mais vulneráveis aos impactos ecológicos. A análise de Sabrina nos mostra que, ao mesmo tempo em que os países do Norte Global promovem nas suas próprias territorialidades o projeto do “Capitalismo Verde” como uma possível solução para a crise ambiental, eles permanecem sugando os recursos naturais das nações marcadas pelo subdesenvolvimento, visando a reprodução do capital. Esse que se concentra nas classes dominantes detentoras das grandes corporações, uma vez que para a comunidade sobrevivente do bar Paraíso do Mar não restará nada, apenas as consequências da destruição em massa do ecossistema. 

Essa conjuntura muito bem representada em Piedade (2019) evidencia que, as comunidades tradicionais, que são a parcela da sociedade que mais preserva a natureza, são também a mais impactada pela superexploração ambiental promovida pelo sistema capitalista, justamente porque compõem essa zona de sacrifício ambiental. O filme nos leva para uma realidade próxima, já que o conflito central da trama possui as mesmas bases da problemática da construção da Usina Hidrelétrica de Belo Monte em Vitória do Xingu, no Pará. Esse projeto, aprovado em 2011 e inaugurado em 2016, custou cerca de 40 bilhões de reais e, segundo o Dossiê Belo Monte, aniquilou direitos de mais de oito mil famílias. Sob o pretexto de “progresso”, as comunidades ribeirinhas que dependiam da pesca no rio Xingu foram compulsoriamente removidas de seus lares para a instalação da usina. Igualmente à comunidade praieira retratada em Piedade, os povos ribeirinhos tiveram seus modos de vida sacrificados em nome dos interesses da burguesia que necessita da devastação do meio ambiente para reproduzir lucros. 

Manifestação dos povos ribeirinhos contra a construção da usina. [Imagem: Reprodução/Acervo Combate Racismo Ambiental]

Piedade é uma produção cinematográfica fundamental para compreender o Brasil e o restante da América Latina como essa zona de sacrifício ambiental que serve para garantir os lucros das grandes economias. Como assinalado por Eduardo Galeano em seu livro As Veias Abertas da América Latina (Editora Paz e Terra, 1979), nosso território configura-se como um criado das potências externas: “Mas a região continua trabalhando como um serviçal. Continua existindo a serviço de necessidades alheias, como fonte e reserva de petróleo e ferro, cobre e carne, frutas e café, matérias primas e alimentos, destinados aos países ricos que ganham, consumindo-os, muito mais do que a América Latina ganha produzindo-os”. E as maiores vítimas desse processo são as comunidades que tiram da terra sua subsistência, perfeitamente representadas no longa-metragem de Cláudio Assis.

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O Cinéfilos é o núcleo da Jornalismo Júnior voltado à sétima arte. Desde 2008, produzimos críticas, coberturas e reportagens que vão do cinema mainstream ao circuito alternativo.
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