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O Brasil tem heróis sim
CINÉFILOS
12 abr 2012 | Por Jornalismo Júnior

Cenas de um Brasil desconhecido por muitos são emolduradas na tela. Imagens aéreas que trazem uma visão completa da Reserva Xingu. Uma câmera faz um movimento de 360º em volta da jangada dos irmãos Villas-Boas. É assim, de maneira descontraída e bonita que o filme Xingu introduz o telespectador aos três irmãos: Orlando (interpretado por Felipe Camargo), Cláudio (João Miguel) e Leonardo (Caio Blat).

A história de como foi criada a Reserva do Xingu é conhecida por poucos. Da mesma forma, não é dada a devida importância aos três irmãos nesse contexto. Daí a relevância adquirida por esse filme nacional, que relembra o grande feito dos irmãos Villas Boas, ao conseguirem manter a salvo diversas tribos indígenas do país até os dias atuais.

Tudo começou em 1943, quando os três irmãos deixam o Rio de Janeiro junto à marcha para o Oeste promovida pelo então presidente, Getúlio Vargas, que visava incentivar o progresso e ocupação da região central do país. Os jovens seguem atrás de aventura por um Brasil desconhecido – para os brancos. Ao fazerem o primeiro contato com os índios, passam da relação de medo para curiosidade, e com o convívio surge então um grande amor.

A cena do primeiro contato entre os brancos e os índios do filme capta muito bem o verdadeiro mito que se tornou este momento histórico. Brancos sem entenderem o idioma dos índios, e estes por sua vez desconfiados das intenções dos brancos. Cao Hamburger, diretor do filme, conta que foram ouvidos muitos relatos, tanto de antropólogos, como dos próprios índios que participaram da história. “Todos contam exatamente igual. Talvez este primeiro encontro tenha sido mais ou menos da forma que o filme apresenta”. O diretor ainda se justifica pela não tradução das falas da cena: “Resolvemos não traduzir as falas por uma questão de lógica. A história é contada do ponto de vista dos Villas Boas e naquele momento eles não entendiam o que estava sendo dito pelos índios”.

Índio ainda é tabu no país

Momentos como este, resgatados pelo filme, com uma fotografia muito bem executada elevam o nível cinematográfico de Xingu. Cao revela também que a intenção é justamente essa, atrair o grande público para a temática dos índios no país produzindo um filme gostoso de ver. “A partir do momento em que percebi que havia uma barreira sobre o assunto ‘ índio’ no país, tive a intenção de quebrá-la. Por isso um filme com aventura, humor, encantamento da paisagem…”.

Diferente de outros filmes que tem como eixo principal o índio, como “Terra Vermelha”, ou “Iracema, uma Transa Amazônica”, Xingu trata o assunto de forma mais leve. A intenção de Cao é atrair a simpatia do público para o tema e sensibilizá-lo. Os outros filmes citados são de grande valor para o cinema nacional, mas são duros, críticos, de difícil assimilação para o grande público. Cao conta desse medo de ser muito forte e acabar aumentando a aversão do público para o tema. “Se conseguir plantar uma semente de reflexão e atrair alguma simpatia do publico, mostrando que índio também é gente e quão rica é sua cultura, já terá valido a pena”.

Desafios

O processo de produção do filme levou cerca de quatro anos. Foram dois anos e meio de pesquisa, duas visitas ao local, conversas com professores que trabalhavam com os Villas Boas, além de seus próprios relatos e muitas conversas com os índios. “Daria pra fazermos mais de quatro filmes”, conta Cao.

Amadurecida a história, foram filmá-la. Ao longo das filmagens não faltaram imprevistos e dificuldades, revela Caio Blat, que na história é Leonardo, o irmão caçula. Porém, conseguiram chegar até o fim graças ao deslumbramento e responsabilidade com os índios. “Ficamos varias vezes perto de desistir, atores que ficaram doentes, dificuldades de transporte, cenário escolhido que queimou… muitas vezes poderíamos ter desistido, o que não teria sido nenhum absurdo. Só chegamos ao final por conta do comprometimento de toda equipe”, conta Cao.

O que fica de Xingu

Quando indagado sobre os aprendizados dessa experiência ao dirigir o filme Xingu, Cao Hamburger diz exatamente isso: “Estamos deixando de aprender muito com os índios”, sendo que para cada um que participou do filme ficou uma marca diferente. Para Felipe Camargo, que interpreta o irmão mais velho, Orlando, seu maior aprendizado nesse processo foi o de descobrir que é possível viver sem ansiedade. Os índios fazem tudo ao seu tempo, sem pensar no amanhã.

Como lição do filme Xingu, propriamente dito, fica a exaltação feita de forma agradável e divertida dos irmãos Villas Boas. Realmente foram essenciais na preservação de diversas tribos indígenas até os dias atuais, graças ao Projeto da reserva Xingu que criaram, foram verdadeiros heróis na história contemporânea do Brasil. Ao mesmo tempo em que o filme evidencia as dificuldades do contato entre brancos e índios persistentes até hoje. Cláudio, o irmão do meio dos Villas Boas, diz no filme: “Nós somos o veneno e o antídoto”, o que leva o público a questionar até que ponto o isolamento total dos índios é possível e saudável.

Em um panorama de um mundo globalizado, com construções de usinas hidrelétricas na Amazônia e no próprio Rio Xingu, novo código florestal, além do crescimento das plantações de soja e da pecuária no país, a preocupação com o futuro dos índios ressurge. Por que continuar com um projeto de progresso retrógrado?

Assim, mesmo com um encerramento teoricamente feliz, no qual os irmãos Villas-Boas conseguiram criar a Reserva Xingu, transmitindo certo alívio para o telespectador, a cena final do filme gera um grande impacto. De maneira forte e bonita, encerra exteriorizando mais uma vez a necessidade de se refletir sobre o futuro dos índios no país. Ainda com um agravante: hoje não temos mais nenhum irmão Vilas Boas para defendê-los.

Por Luiza Guerra
lu7cruz@gmail.com

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O Cinéfilos é o núcleo da Jornalismo Júnior voltado à sétima arte. Desde 2008, produzimos críticas, coberturas e reportagens que vão do cinema mainstream ao circuito alternativo.
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