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O Caravaggio Roubado: excelência na forma, carência no conteúdo
CINÉFILOS
23 maio 2019 | Por João Mello (joaovictorm.mello@usp.br)

A câmera foca em um tênis. Ela vai subindo, percorrendo devagar o que se revela uma figura masculina em frente a um prédio e de costas para o espectador. O homem entra pela porta e os ângulos vão mudando para mostrá-lo como um personagem popular que cumprimenta várias pessoas no seu caminho. Ele sobe escadas, fala com uma secretária, entrega-a dinheiro e entra em uma sala onde vai falar com outro homem.

É assim que começa O Caravaggio Roubado (Una Storia Senza Nome, 2018), filme do diretor italiano Roberto Andò. Pode não parecer à primeira vista, mas essa talvez seja a melhor cena de todo o longa. O homem é Alessandro Gassman (Alessandro Gassman), um famoso roteirista de cinema, mas ele não é o personagem principal. A protagonista é, na realidade, Valeria (Micaela Ramazzotti), a secretária a quem Gassman entregou o dinheiro e que secretamente escreve os roteiros para ele. A prática de ghostwriting é retratada aqui por meio de uma sinestesia entre forma e conteúdo: acontece tanto na trama quando pela maneira como essa primeira cena é dirigida ao focar em Alessandro. É uma pena que o restante do filme não faça jus ao seu início.

[Reprodução]

O enredo se desenvolve a partir do momento em que um ex-policial (Renato Carpentieri) entra em contato com Valeria para que ela escreva sobre a verdadeira história do que teria acontecido ao “Caravaggio roubado”. Trata-se de um evento que realmente aconteceu, quando a máfia italiana roubou o quadro “Natività”, do pintor barroco Caravaggio, em 1969. O FBI classifica esse roubo como sendo um dos 10 maiores crimes de arte da história. A pintura, avaliada em 30 milhões de euros (R$120 milhões), até hoje não foi encontrada. O propósito do filme é justamente preencher os vácuos dessa narrativa sobre a qual ninguém tem certeza.

A impressão que passa é que nem mesmo os roteiristas tinham certeza de sua própria narrativa. Os envolvidos na produção do roteiro começam a ser perseguidos pela máfia, que não quer que a verdade venha à tona. A partir disso, desenvolve-se um suspense não muito diferente de qualquer filme hollywoodiano sobre espiões com clichês, furos e coincidências. A máfia está em contato profundo com a produção de filmes por motivos desconhecidos, as personagens obtêm informações quase que magicamente, há revelações aleatórias e desnecessárias e os maiores criminosos da Itália parecem caricaturas indefesas diante de uma escritora tímida e de um policial aposentado.

A “escritora tímida” e o “policial aposentado” são apenas dois dos personagens que não cativam. Em geral, não se pode dizer que o filme tenha um personagem marcante, eles são mal construídos e não apresentam motivações claras. A protagonista, em especial, não tem motivos para acreditar em um estranho que a aborda para contar uma história ou para arriscar a sua vida e a de sua família. As relações entre esses personagens naturalmente não apresentariam muita profundidade. O único romance não tem qualquer “química”, a protagonista e sua mãe são praticamente estranhas entre si e relações inusitadas surgem sem razão.

À parte da trama, a proposta da direção é um grande trunfo. Roberto Andò explora diferentes ângulos de câmera e abusa de uma fotografia poética. As cenas em que aparece o quadro Natività são bastante emocionantes, a pintura torna-se mais que uma pintura, mas um grande símbolo carregado de significados dependendo do personagem que a vê. A trilha sonora não é um destaque, sendo quase toda instrumental, mas funciona muito bem com os acontecimentos da história. O maior mérito do longa reside na sua metalinguagem. O diretor usou com maestria a premissa de um filme sobre a confecção de um roteiro e, consequentemente, de um outro filme. Ele brinca constantemente com essas “camadas” de filme e é bem plausível pensar que o espectador vai sair do cinema sem saber se está dentro de um.

O Caravaggio Roubado tinha um grande mistério nas mãos que poderia resultar em uma também grande história, mas decepciona. A habilidade e visão do diretor não foram capazes de tornar o filme menos enfadonho.

O longa chega aos cinemas brasileiros no dia 23 de maio. Confira o trailer:

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O Cinéfilos é o núcleo da Jornalismo Júnior voltado à sétima arte. Desde 2008, produzimos críticas, coberturas e reportagens que vão do cinema mainstream ao circuito alternativo.
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