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O centenário de um eterno Dorival Caymmi
Escuta Aí
13 ago 2014 | Por Jornalismo Júnior

“Minha meta de vida é 120 anos“, disse Dorival Caymmi em entrevista a Almir Chediak. Baiano de corpo e alma, o cantor e compositor teria completado, em 30 de abril, 100 anos.

Em seus 60 anos de carreira, Caymmi gravou cerca de 20 discos, mas suas canções, facilmente reconhecíveis pela temática baiana, foram eternizadas nas vozes de inúmeros intérpretes. Quem nunca ouviu a versão de Carmen Miranda para “O que é que a baiana tem” ou Novos Baianos cantando “Samba da minha terra”? Como disse Caetano Veloso, “Escrevi 400 canções e Dorival Caymmi 70. Mas ele tem 70 canções perfeitas e eu não.”

Mesmo que conhecido por seu jeito preguiçoso, Caymmi inovou a cena musical brasileira em diversos aspectos. Foi o primeiro a gravar um disco de voz e violão – a maioria de seus álbuns é feito para se sentar e ouvir – nos anos 1940, época em que era regra gravar com um certo número de instrumentos ou até mesmo com orquestra, para que a música fosse dançante. Ele compunha para ele mesmo cantar, sendo que, em geral, compositores criavam canções para artistas interpretarem.

De vendedor de barbante à cantor de rádio

Em 1930, ano de sua primeira música, “O sertão”, Caymmi largou os estudos para trabalhar n’O Imparcial como auxiliar. Quando o jornal fechou, o jovem tentou ganhar dinheiro vendendo bebida e até mesmo barbante. Em 1938, foi tentar a vida no Rio de Janeiro. Passou por alguns jornais, já que achava que esse era o ramo em que obteria sucesso. Mas sua carreira realmente promissora começou quando um homem foi à pensão onde Caymmi morava, após saber que ele cantava todas as noites para os moradores, chamá-lo para cantar em seu programa de rádio. Dorival nunca havia pensado que alguém pudesse se interessar por sua música.

O que é que a baiana tem?

Ainda em 1938, o filme “Banana da terra” estava sendo gravado quando Ary Barroso resolveu exigir 10 contos de réis para autorizar a inclusão de sua música “Na baixa do sapateiro” no filme. Foi aí que Dorival Caymmi e sua canção “O que é que a baiana tem” foram lembrados pela equipe de produção do filme. Foram atrás do cantor, gravaram-no cantando a música sem ele saber e mostraram à Carmen Miranda (estrela do longa), que aprovou sem hesitar. Assim, a parceria foi feita e Carmen pôde finalizar o filme que seria, para sempre, sua marca registrada.

O sucesso foi tamanho que gravaram um disco juntos. Ao ser vista cantando a música no Cassino da Urca, Carmen Miranda foi chamada para se apresentar na Broadway (e, a partir daí, sua carreira deslanchou). Caymmi teve suas canções gravadas no exterior por artistas extremamente famosos na época, como The Mills Brothers e a própria Carmen Miranda com o Bando da Lua.

https://www.youtube.com/watch?v=EehN9p-BCuc

Em 1940, o baiano compôs seu grande sucesso “Samba da minha terra”, saiu da pensão onde morava, foi morar com amigos, conheceu sua esposa – a cantora Stella Maris – e foi morar com ela. No ano seguinte, nasceu sua primeira filha, Nana, para quem Dorival escreveu seu tão conhecido “Acalanto”. Fez sua primeira turnê, pelo Nordeste. Quando voltou, já era um nome consagrado no mundo do rádio e da música popular.

Caymmi teve ainda mais dois filhos, apresentou-se fora do Brasil, e compôs mais outros tantos sucessos. Quando completou 70 anos, com seus três filhos já consolidados no mundo da música, fez um dos espetáculos mais emocionantes e elogiados da década ao lado deles. Suas apresentações já eram bem mais escassas, Dorival já se poupava, mas nunca parou de compor e nem de pintar.

Caymmi pintor

Desde criança Dorival era elogiado pelos desenho e letra muito bonitos. Na escola, o professor pedia que ele ensinasse os mais novos e seus amigos pediam que ele escrevesse o hino (dever de casa comum da época) para eles. No jornal O Imparcial, começou no escritório, depois passou a escrever nomes e endereços dos assinantes à mão, até chegar a revisor.

Durante toda sua vida Caymmi pintou. Aprendeu a desenhar antes mesmo de cantar. Era apaixonado pelo impressionismo, retratava a mesma Bahia que cantava em suas letras (o mar, as baianas, os coqueiros) e fazia autorretratos.

Segundo Tom Jobim, “O Dorival é um gênio. Se eu pensar em música brasileira, eu vou sempre pensar em Dorival Caymmi. Ele é uma pessoa incrivelmente sensível, uma criação incrível. Isso sem falar no pintor, porque o Dorival também é um grande pintor”.

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Autorretrato de Caymmi. Fonte: Acervo Jobim.

Homenagens pelo centenário

No decorrer desse ano, tem-se visto inúmeras homenagens ao baiano. Todo lugar tem sua contribuição para o cenário do centenário de Caymmi.

Em Salvador, no aniversário de 465 anos da cidade, Saulo Fernandes e Luiz Caldas uniram-se para cantar os sucessos de Dorival. Em Petrópolis, Danilo e Stella Caymmi, filho e neta do compositor, realizaram um encontro no Sesc para celebrar. Stella é autora de dois livros sobre seu avô, “Dorival Caymmi – O Mar e o Tempo” e o recém lançado “O que É que a Baiana Tem? – Dorival Caymmi na Era do Rádio”. Em Rio das Ostras, durante o Jazz&Blues Festival, a Orquestra Kuarup, com participação do Balé Baia Formosa, tocou clássicos do cantor. Em São Paulo, está para ser inaugurada a exposição “Caymmi 100”, no Centro Cultural Correios, que teve sua abertura adiada por tempo indeterminado.

Dorival Caymmi morreu no dia 16 de agosto de 2008 no Rio de Janeiro. Não nos deleitou com seus almejados 120 anos, mas deixou sua marca registrada na eternidade.

Ele tinha o sonho de um dia ver suas músicas se tornarem de domínio público, de “ser autor de uma ciranda-cirandinha, uma coisa que se perca no meio do povo”, disse a Tárik de Sousa, jornalista e crítico musical, em entrevista. Acho que é possível dizer que Caymmi teve seu sonho realizado, afinal, quem nunca se pegou cantando “Quem não gosta de samba bom sujeito não é/É ruim da cabeça ou doente do pé…” sem nem saber o nome da música?

Por Lana Ohtani Spolle
lanaohtani@gmail.com

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