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O Chaplin do interior de Minas
CINÉFILOS
14 jan 2014 | Por Jornalismo Júnior

por Mariana Fonseca
fsc.mariana@gmail.com

Em meio a um mercado cinematográfico povoado de revoluções tecnológicas, blockbusters e aventuras que jamais serão vividas surgiu, ao longe, uma caminhonete atrapalhada e esbaforida, buzinando. Dela, sairia uma trupe, que fincaria estacas de madeira e estenderia as lonas da Esperança – que não é só o sentimento, mas também o nome do circo que os integrantes montam e desmontam de modo frenético. Foi assim que o filme O Palhaço, dirigido e protagonizado por Selton Mello, adentrou as salas de cinema.

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A trupe do Circo Esperança mescla o humor leviano com momentos de melancolia e pobreza diante da força da sociedade

Apesar de sufocado entre os hollywoodianos e os filmes nacionais feitos pelo trio comédia, sexo e violência, O Palhaço alcançou reconhecimento internacional. A fórmula de Selton Mello para conquistar o respeitável público é ser, simplesmente, simples.

O filme não traz nada de novo nem causa nenhuma revolução no cinema. Na verdade, seu tom é mais saudosista do que de algum tipo de vanguarda. O personagem principal, o palhaço Pangaré (de nome real Benjamin), é uma mistura de Carlitos (personagem de Chaplin) – nos momentos de comédia silenciosa do filme – e da protagonista de A Estrada (La Strada, filme de 1945 de Federico Fellini), Gelsomina, também uma palhaça. Os três personagens têm em comum a coexistência do humor com a melancolia, que é percebida na produção cinematográfica das três personagens. Essa mistura de sensações é apenas o reflexo das facetas intrínsecas à condição humana, e é o que torna O Palhaço uma história tão empática ao público.

O enredo, apesar de conter algumas simbologias (o ventilador como sinal de ventos de mudança, a profecia do pai de Benjamin sobre encontrar sua vocação), consegue sobreviver plenamente pelo essencial. A falta de pirotecnia ou de reflexões excessivas não faz do filme pior, senão apenas uma reprodução do propósito do próprio circo Esperança – o de agradar o espectador pelos aspectos mais primitivos e necessários contidos no homem, como o riso, o deslumbramento e a comoção.

As atuações reais e emotivas, especialmente por parte de Selton Mello e Moacyr Franco, representam bem esse propósito. É a melancolia, mas sem dramatismo excessivo ou exagero. É a beleza em seu pleno estado, coexistência da dor e da alegria, como um palhaço que tropeça para o riso da plateia – esta que seria a salvação da sua própria rotina excruciante, tão bem vivenciada pelo próprio Benjamin ao longo de sua revolução pessoal na trama (Eu faço o povo rir, mas ai quem é que vai me fazer rir?).


Benjamin sai à procura de seu próprio destino, como saiu à procura de um ventilador

O filme também apresenta picos de tensão. Tensão porque a cada momento o trabalho da trupe do circo Esperança parece estar se desmontando – um tufão ou uma intervenção legislativa pode acabar com o futuro de seus integrantes a qualquer instante. Como forma de fugir, eles geralmente entregam o dinheiro que resta em seus bolsos furados aos vários exploradores que aparecem ao longo da trama. E o reencontro de Benjamin com seu destino é também o reencontro da trupe com seu próprio trabalho, no clímax emocionante do filme – a reunião de Benjamin e seu pai.

A trilha sonora combina muito bem com o filme e é altamente bem produzida. A equipe passou vários meses convivendo com uma trupe real de circo para captar os trejeitos dos artistas, bem reproduzidos na obra e dando a sensação real das técnicas circenses (até com piadas evidentemente sem-graça). Embora haja no texto trocadilhos aqui e acolá (nada de especial), a essência do longa não está no riso, que aparece em piadas que se repetem ao longo do filme, como a do sutiã grande, mas sim na própria felicidade e na busca de realização.

Selton Mello disse que a ideia de O Palhaço surgiu a partir de uma crise existencial que viveu em 2009, quando estava insatisfeito como ator, e deu origem a uma trama sobre um rito de passagem. Benjamin representa esse rito, evidentemente, e, pelas idas e vindas de sua crise existencial, resolve seguir o que lhe faz feliz e o que ele vê como a sua vocação, como o rato come o queijo e o rato bebe o leite.

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O Cinéfilos é o núcleo da Jornalismo Júnior voltado à sétima arte. Desde 2008, produzimos críticas, coberturas e reportagens que vão do cinema mainstream ao circuito alternativo.
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