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O choro de Ruanda
CINÉFILOS
15 maio 2013 | Por Jornalismo Júnior

Komeza Imihigo Ruanda dukunda/ Duhagurukiye kukwitangira/ Ngo Amahoro asabe mu bagutuye (Manter este curso, Ruanda amado. De pé, estamos comprometidos com você, para que a paz prevaleça no país).

O hino de Ruanda hoje prega a paz, buscando esconder o sombrio passado de um genocídio entre irmãos. O massacre dos Hutus sobre os Tutsis (os dois grupos étnicos predominantes no país) foi o responsável por um banho de sangue de mais de 500.00 mortes. Em cartaz no Cinusp Paulo Emílio, o filme Tiros em Ruanda (Shooting Dogs, 2005), dirigido por Michael Caton-Jones, retrata parte do conflito, contando a história real da Escola Técnica Oficial (ETO), localizada na cidade de Kigali; responsável por refugiar e proteger centenas de famílias Tutsis contra os horrores do massacre.

O foco principal está na figura dos padres Christopher (estrelado por John Hurt) e Joe (Hugh Dancy), coordenadores da ETO, e que tem de lidar com as pressões conflituosas da população, do governo local e das forças internacionais.

 A câmera se esforça o máximo possível para expor as cruéis facetas do conflito. Enquanto corpos jazem decepados no chão, o som incessante de gritos e golpes de faca povoa o ambiente. O ambiente é de filme de terror, acontece que os fatos narrados estão além da simples ficção.

As boas atuações, tanto dos atores principais quanto dos figurantes, perdem destaque frente o impacto visual do filme. Por mais profundas que sejam os diálogos acerca do real valor da vida, a imagem de um bebê morto a facadas tem maior peso na construção de uma reflexão pelo espectador.

 O filme nos leva a pensar sobre a responsabilidade do conflito. Fica claro que a ação desastrosa da ONU ajudou a perpetuar o massacre. Os soldados da força pacificadora se recusaram a atirar em defesa da vida do povo, mas mataram diversos cachorros locais como medida sanitária, visto que os animais estavam comendo os cadáveres (esta é a origem do nome “Shooting Dogs”, ou seja “Atirando em cães”). A saúde do povo podia estar garantida, mas a sobrevivência era algo incerto.

Mas não apenas a ONU pode ser considerada culpada. O governo local, comandado na maioria por representantes Hutus, venda os olhos e esconde suas reais intenções. A igreja, apesar de dar refúgio à população, acredita que apenas com os valores religiosos irão impedir a guerra ou diminuir o sofrimento daqueles fadados para a morte. Os estrangeiros, que estavam em missão voluntária na Ruanda, fogem ao primeiro sinal de tiro. Essa sucessão de erros hipócritas lavrou o chão ruandense com sangue.

 Ao pedirem aos soldados para serem baleados, ao invés de esfaqueados pelos Hutus, o povo Tutsi sintetiza toda a real dimensão do medo. É difícil entender de onde nasce tanto ódio; coisa que o filme não explica, já que se preocupa apenas em acusar alguns culpados. Ao menos, em meio ao caos, Tiros em Ruanda nos dá um fio de esperança, já que revela, durante os créditos, que alguns dos figurantes e produtores do filme são sobreviventes do massacre da ETO. Que a África viva sem mais nenhuma gota de sangue derrubada!

“Eram vinte e cinco homens espremidos, empilhados, esmagados de corpo e alma. Eram vinte e cinco homens colocados (…) para morrer. Para morrer aos poucos. Para morrer de forma que parecesse natural. Para morrer. Para morrer sem feder. Para morrer sem estremecer as relações internacionais dos cidadãos contribuintes. Para morrer simplesmente”. (Inútil canto e inútil pranto pelos anjos caídos – Plínio Marcos)

Por Gabriel Lellis
g.lellis.ac@gmail.com

 

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