Home Virou História O dia em que a Vila parou: Santos 4×5 Flamengo
O dia em que a Vila parou: Santos 4×5 Flamengo

Relembre a partida histórica que ocorreu há 10 anos

ARQUIBANCADA
27 jul 2021 | Por Damaris Lopes (damislopes@usp.br) e João Dall'ara (j.dallara@usp.br)

O futebol brasileiro é tão maravilhoso que uma partida para ser histórica não precisa decidir a final de um campeonato ou ser disputada por rivais estaduais. Em 27 de julho de 2011 ocorreu a maior prova disso, Santos e Flamengo proporcionaram aos amantes do esporte o maior espetáculo deste século em solo brasileiro, durante a 12ª rodada do Brasileirão. “Foi um jogo espetacular, é um dos mais incríveis que eu vi”, palavras de André Tozzini (Tozza), conselheiro e torcedor do Flamengo.

Os 13 mil torcedores presentes na Vila Belmiro foram privilegiados em presenciar o Santos de Neymar, campeão da Libertadores na época, contra o Flamengo de Ronaldinho Gaúcho, invicto até aquela partida do campeonato. Antes mesmo do juiz apitar, já se imaginava um jogão, mas o futebol sempre pode surpreender.                                                                                        

O jogador Diego Maurício, presente entre os reservas do Flamengo na partida, relembra o jogo  em entrevista para o Arquibancada: “Eu acho que aquele jogo ficou marcado não só no país, mas em toda história do futebol”. A afirmação do jogador se justifica porque a partida foi muito melhor do que o imaginado, não apenas pelo placar elástico de 5 a 4 para o Flamengo — o que já seria marcante, mas pela forma como o jogo se desenrolou.

Diego Maurício e Ronaldinho no campo [Imagem: Arquivo pessoal]

                                  

“Que coisa linda é uma partida de futebol”, a famosa música da banda Skank pode representar um pouco do que foi esse jogo memorável. Tiveram dribles, pênalti perdido,  hat-trick de Ronaldinho, um golaço de Neymar e muitas reviravoltas. Hoje, aniversário de 10 anos do duelo, vale a pena relembrar como ocorreu o enredo desse espetáculo.

 

Uma partida cheia de emoções

Antes do juiz apitar o início da partida, a Vila Belmiro já fervia como um verdadeiro caldeirão. O torcedor Erik Baete, presente no estádio no dia, relata: “Ninguém tem bola de cristal, mas com a atmosfera do estádio lotado a galera já sentia que seria um jogão.”

vila belmiro santos

Vila Belmiro [imagem: Reprodução/@santosfc]

       

E o apoio da torcida logo trouxe resultado, o Peixe abriu o placar aos 5 minutos, com um passe incrível de Elano para Borges bater cruzado e colocar mais fogo na arquibancada. Dez minutos depois, aproveitando um passe curioso de Neymar, o camisa 9 ampliou para o time da casa: o Santos estava imparável.  

Erik Baete na Vila Belmiro [Imagem: Arquivo pessoal]

O Flamengo até tinha a bola e explorava jogadas, tanto que, aos 20 minutos, Deivid se atrapalhou com a redonda e perdeu uma oportunidade incrível com o gol aberto. Minutos após esse lance Neymar, em uma jogada sensacional, aumentou a vantagem do Santos: 3 a 0. 

“Ao mesmo tempo que esse resultado trouxe confiança de que ninguém tiraria a vitória da gente, eu estava alerta, porque contra time bom você não pode vacilar”. Erik estava correto em manter-se alerta, pois o Flamengo não havia se entregado.

O Rubro-Negro reagiu rápido. Aos 28 minutos, o Bruxo marcou seu primeiro na partida e, aos 31’, Thiago Neves ampliou para Rubro-Negro. “O time do Santos era muito ofensivo, mas deixava erros na parte de trás que a gente soube aproveitar”, relembra Diego Maurício.

O Flamengo crescia no jogo, mas Willians quase colocou tudo a perder ao fazer um pênalti em cima de Neymar. Faltando cinco minutos para acabar o primeiro tempo, seria a hora do Peixão se reerguer na partida. Elano pegou a bola e fez uma batida terrível de cavadinha, que Felipe defendeu com tranquilidade e ainda tirou onda fazendo embaixadinhas. 

 

Como diria o professor Muricy Ramalho: A bola pune. Dois minutos depois de perder o pênalti, o Peixe teve de assistir Deivid, seu ex-jogador, empatar a partida. Assim se encerrou o primeiro tempo, sobre esse momento Diego Maurício relata: “Chegamos no vestiário falando pra rapaziada que tínhamos que fazer alguma coisa, queríamos ganhar o jogo e pior que tava não ia ficar”

O segundo tempo começou com tudo, o apoio da torcida fez a diferença mais uma vez e, aos 5 minutos, Neymar desempatou a partida para o time da casa. Mas o menino da Vila não era o único protagonista do jogaço. Ronaldinho Gaúcho mostrava a importância da experiência e ousadia dentro de campo.

E foi em uma falta na entrada da área, quando todos esperavam a batida por cima da barreira que o Bruxo mostrou sua inteligência no jogo. O camisa 10 tocou por baixo e enganou o goleiro e toda a zaga santista, novamente o placar estava empatado. 

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Ronaldinho batendo falta [imagem: Reprodução/Globo]

Então, com a defesa do Santos bagunçada, aos 35 minutos, em um contra-ataque mortal, Ronaldinho Gaúcho arrancou pela esquerda, invadiu a área e definiu o placar: 5 a 4 para o clube carioca. A Vila Belmiro se calou. Erik se surpreendeu com a resolução: “Não imaginava que de um placar de 3 a 0, o Santos tomaria uma virada daquela, nunca mesmo!”. 

O placar terminou amargo para o time da casa, os jogadores e torcedores saíram abatidos do estádio. A festa mesmo ficou para o lado do Rubro-Negro. “Depois do jogo foi só alegria, primeiro porque não era fácil reverter um resultado daquele dentro do caldeirão que é a Vila, segundo que a premiação pela vitória foi muito generosa”, recorda Diego Maurício, com um enorme sorriso no rosto.

 

Craques em campo: Neymar x Ronaldinho

Neymar e Ronaldinho  [imagem: Reprodução/Globo]

O contraste entre Neymar Jr e Ronaldinho Gaúcho foi um dos grandes destaques do confronto. Um garoto no início de sua carreira e um veterano consagrado. Um jovem que ascendia para o futebol brasileiro e um craque que retornava após passagem vitoriosa na Europa. um Menino da Vila sonhador e um experiente que já havia ganhado seus maiores títulos. 

Diego Maurício destaca a importância desses nomes: “Foi um jogo que reuniu duas estrelas do futebol brasileiro (…) tenho alegria imensa em ter jogado com os dois, um de cada lado. Joguei com o Neymar na seleção sub-20, e com o Ronaldinho Gaúcho no Flamengo.”

Apesar das diferenças, também podem ser destacados aspectos em comum: a sede pelo futebol bonito, a classe com a bola no pé e os dribles desconcertantes e geniais pelos dois lados. Além disso, o poder de decisão foi muito visto durante o jogo. Ronaldinho terminou a partida com 3 gols e 1 passe para gol e Neymar com 2 bolas na rede e 1 assistência.

De um lado, Ronaldinho fez mágica ao marcar o seu gol característico por baixo da barreira. De outro, Neymar fez um gol antológico, considerado o mais bonito do ano e levando consigo o prêmio Puskas. Ambos apresentaram o melhor de seu futebol e contribuíram diretamente para a mística e história do confronto.

Os dois atletas foram fundamentais e mostraram o futebol em seu estado mais puro naquela noite. Além de serem influentes diretamente no jogo, é possível dizer que inspiraram seus companheiros em campo. Diego Maurício relembra algumas frases do R10: “Vamos jogar com alegria, pode colocar pressão em mim, tô junto de você, eu vou te ajudar e te apoiar. Aqui é o momento mais importante da nossa vida, que é jogar futebol.”

Nessa partida fantástica, a experiência de Ronaldinho conduziu o Flamengo à vitória, com o gol decisivo marcado em uma chapada letal. “A atuação do Ronaldinho pra mim foi espetacular”, diz o flamenguista Tozza, ao relatar o que mais o marcou durante o jogo. 

No jogo do século, venceu o atleta que já foi campeão de uma Copa do Mundo e saiu derrotada a maior esperança do país para voltar a vencer a tão sonhada taça e conquistar o hexa para os brasileiros.

 

O gol mais bonito

Neymar na cerimônia FIFA Ballon D’or [imagem: Reprodução/@TNTSportsBR]

A partida memorável entre Santos e Flamengo possui diversos fatores que contribuem para que ela seja eterna na mente dos apaixonados por futebol. Um dos detalhes que enriquece essa história ocorreu no dia 9 de janeiro de 2012, na cerimônia de premiação FIFA Ballon D’or.

No início de 2012, o gol marcado por Neymar no confronto contra o Flamengo conquistou o Prêmio Ferenc Puskás — que premia o gol mais bonito do ano. O gol da joia brasileira superou o gol acrobático de Wayne Rooney durante o derby de Manchester e o gol raro de Lionel Messi, que marcou após encobrir com categoria o goleiro Almunia, em confronto com o Arsenal, pela Champions League.

O gol de Neymar foi único, toda a construção da jogada foi incomum, como relata o torcedor Erik: “Um gol daquele que o Neymar marcou, foi uma coisa surreal”. O lance começou com um drible de letra para passar entre os marcadores Willians e Léo Moura e seguiu com a objetividade do garoto ao buscar a tabela com Borges. Em seguida, ele penteou a bola e fintou Ronaldo Angelim e, por fim, concluiu com categoria para balançar as redes do Flamengo.

Neymar já era considerado por muitos a esperança para o futuro do futebol brasileiro, desde muito cedo atraiu os olhares de clubes europeus e a admiração nacional. Essa premiação deixou o nome da estrela ainda mais evidente no cenário mundial e contribuiu para eternizar o 5 a 4 do Flamengo sobre o Santos.

 

Uma mancha no espetáculo

Ainda que tenha o título de marco na história do futebol nacional, uma atitude criminosa passou despercebida na época. Alguns torcedores do Santos propagaram insultos racistas e deixaram uma mancha na partida e na vida de Diego Maurício, jogador do Flamengo em 2011.

Sobre o ocorrido, Diego relembra: “Pra mim foi até estranho, porque o maior ídolo deles é o Pelé, eu não entendi nada. Mas depois que eu vi as imagens dos ataques eu fiquei bem triste” e completa: “Não foram todos os torcedores, não posso generalizar, pois esse tipo de gente tem em todo lugar”.                                           

Dez anos depois da partida, no Brasil e no mundo, infelizmente, ainda existem indivíduos com atitudes racistas no esporte. Para eles, Diego Maurício deixa o recado: “Eu digo para essas pessoas que são racistas e mau caráter, que a gente vai continuar lutando e vencendo. Não vamos parar.”

 

 Para além do confronto entre Santos e Flamengo

Em uma perspectiva mais ampla, a partida pode ser abordada sob diversas facetas que caminham em conjunto com o futebol e com o brasileiro. O jogo recheado de lances pode ser visto como uma resposta ao  complexo de vira-lata que assombra o país. A expressão popularizada por Nelson Rodrigues ilustra a inferioridade na qual a população nacional se coloca em relação ao restante do mundo.

O brasileiro tem o costume de supervalorizar o futebol praticado na Europa em detrimento do nacional. É evidente que os clubes europeus têm mais verba e prestígio, o que viabiliza a compra dos melhores atletas, inclusive brasileiros. Entretanto, esses fatos não excluem a possibilidade de bons jogos serem disputados no Brasil. 

O jogo entre Santos e Flamengo representa isso: uma partida que possui inúmeros lances marcantes e jogadores vitoriosos em campo. Ronaldinho, Neymar, Thiago Neves, Borges e companhia mostraram um nível elevado naquela noite. William, membro da página Santos Depressivo, comenta: “Vamos valorizar um pouco mais o futebol nacional e o jogador brasileiro. A gente acaba valorizando muito mais quem é de fora do que o próprio cara que nasce aqui.”

Em contraste com essa esperança revigorada no brasileirão de 2011, é preciso que sejam apontadas críticas ou questionamentos. Onde estão os craques brasileiros ou por que partidas como essa não são mais recorrentes na história?

Grande parte das estrelas que vestem verde e amarelo não atuam no Brasil, e estão brilhando no velho continente. O poder financeiro e a relevância das ligas europeias, no cenário mundial, contribuem para essa evasão de talentos precoce do futebol nacional. 

O santista William exemplifica: “Antigamente, por exemplo, em 2002, a gente revelava jogadores e conseguíamos mantê-lo por um bom tempo. Mesmo naquela época em 2011, o Santos foi uma rara exceção por ter segurado o Neymar por um longo período.” 

Jogadores brasileiros podem apresentar um futebol de alto nível, como foi demonstrado em Santos e Flamengo. O problema não é o atleta, mas para que esses grandes confrontos sejam mais recorrentes, é preciso valorizar o esporte em solo brasileiro.

 

 

Arquibancada
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