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Netflix: O acaso e a insanidade religiosa em ‘O Diabo de Cada Dia’
CINÉFILOS
01 out 2020 | Por Guilherme Caldas (guilhermecaldas@usp.br)

Uma cidadezinha do oeste americano, de predominância rural e histórias, estranhamente conectadas, contadas por um narrador de sotaque carregado. O cenário, apesar da semelhança com os de filmes dos irmãos Joel e Ethan Coen – como Bravura Indômita (1969) ou A Balada de Buster Scruggs (2018) – é de O Diabo de Cada Dia (The Devil All The Time, 2020), novo longa da Netflix. Na direção,  Antonio Campos, deixando claras as referências que usa, consegue contar a história com ar familiar e, ao mesmo tempo, original e autêntico.

A adaptação do romance The Devil All the Time (Editora Doubleday, 2011), de Donald Ray Pollock, convidado pelo diretor Antonio Campos para narrar o filme, tem já em sua primeira cena o tom familiar de uma película sobre o oeste americano. O narrador aponta no mapa as pequenas cidades de Knockemstiff, em Ohio, e Coal Creek, na Virginia, cenários de uma série de acontecimentos que, entre os anos 1950 e 60, une, por duas gerações, as histórias de um veterano de guerra, um xerife, um jovem pastor e um casal de serial killers.

Um dos principais fios condutores, que une quase todas as histórias da obra, é o fanatismo religioso que envolve os moradores das cidades retratadas. A devoção insana a um Deus místico e que demanda sacrifícios de todos os tipos em troca de graças guia as ações ocorridas em toda a primeira metade do longa. Ações essas que Campos consegue retratar com um tom bizarro, sem perder a cadência tranquila que prende muito bem o espectador, fazendo escapar dele um “não pode ser!” diversas vezes.

 

Robert Pattinson como o Reverendo Preston Teagardin em O Diabo de Cada Dia. [Imagem: Divulgação/Netflix]

Robert Pattinson como o Reverendo Preston Teagardin. [Imagem: Divulgação/Netflix]

Na segunda metade do filme, os fatos levados por essa relação que beira o absurdo com a religião são gradativamente conectados por acasos e coincidências que, novamente, mantêm o espectador preso à história e surpreendem a cada cena. Além dessas trágicas coincidências, uma violência despreocupada e instantânea cresce ao longo da história e carrega sua parte final, mudando um pouco o tom mais ameno com o qual filme inicia, ainda que a desafetação das cenas violentas impeça que ele perca sua essência.

Ainda que a narrativa seja extremamente envolvente, talvez o ponto alto de O Diabo de Cada Dia seja seu elenco – com nomes como Robert Pattinson, Tom Holland e Bill Skarsgard – que entrega tudo o que promete, sem decepcionar nem no carregado sotaque de Ohio e West Virginia, que poderia soar forçado. A atuação de Pattinson como o reverendo Preston Teagardin é impressionante pelo tom calmo, cínico e quase maníaco que dá ao personagem com enorme sutileza, o que dificulta ao espectador decifrar o personagem logo de cara, guardando mais um espanto para quando a índole do pastor é revelada.

Outro destaque muito positivo vai para Tom Holland. O ator retrata de modo extremamente realista e convincente o medo, a raiva e a angústia de Arvin Russel, protagonista do longa. Ao mesmo tempo que violento e com raiva, Holland transparece um nítido desejo do personagem de não estar ali fazendo o que está fazendo, o que aprofunda e engrandece sua atuação, além de transmitir o incômodo que o filme claramente quer que o espectador sinta.

 

Bill Skårsgard na pele do veterano de guerra Willard Russel [Imagem: Divulgação/Netflix]

Bill Skårsgard na pele do veterano de guerra Willard Russel [Imagem: Divulgação/Netflix]

 

A narração de Pollock, autor do livro em que a obra se baseia, é crucial para o andamento calmo e pacífico dos acontecimentos quase absurdos da história. Esse recurso aumenta ainda mais o incômodo para quem acompanha, além de transmitir um ar de realidade às narrativas do romancista que, como ex-caminhoneiro, viveu quando trabalhava na região de Knockemstiff.

Os quesitos técnicos do filme são muito bem executados. Jogos de câmera interessantes, enquadrando bem os atores e suas ótimas atuações, além dos cortes, ora rápidos, ora mais cadenciados, que dão à narrativa uma dinâmica interessante e, propositadamente, quase incômoda. Antonio Campos, apesar de deixar claras as fontes em que bebeu para roteirizar e dirigir O Diabo de Cada Dia, consegue achar, com seu talentoso elenco e com o modo que conduziu, um tom familiar e conhecido, ainda que autêntico e surpreendente.

 O Longa já está disponível para todos os assinantes da Netflix. Confira o trailer:

 

*Imagem de Capa: Divulgação/Netflix

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