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O doce cheiro de uma película restaurada
CINÉFILOS
09 mar 2014 | Por Jornalismo Júnior

Por Gabriel Lellis
g.lellis.ac@gmail.com

Nós temos o prazer e a honra de conviver com as maravilhas do cinema a mais de um século. Projetados na grande tela, já passaram desde histórias de amor contadas sem nenhum tipo de som, até os mais sangrentos conflitos futuristas.

Agora, imagine o quão triste seria se ao longo dos anos tanto material criativo se perdesse para todo o sempre? Desde o surgimento das mídias digitais, o fenômeno da multiplicação em massa, seja em cópias físicas ou eletrônicas, dificulta a morte de um filme. Ou seja, que este nunca mais seja encontrado para ser assistido.

Muito antes de ter som ou cor, os filmes já encantavam multidões. Hoje ainda é possível encontrar, em cinematecas e sites especializados, filmes raros, como “Viagem à Lua” , de George Méliès ou “O grande roubo do trem”, de Edwin Porter.

Comparação entre a versão original e a restaura de “Lawrence da Arábia

Os filmes citados foram gravados no clássico formato de película, que até hoje é usado em alguns processos de produção. A maioria dos cinéfilos tem uma paixão especial por esse formato de projeção. A película, comumente encontrada nos formatos 35mm (a mais usada pela indústria, também conhecida como Cinemascope) e 16mm, é amada pelo seu charme, seja devido ao som do rolo de filme rodando na bobina ou pelos pequenos pontos granulados que surgem na tela.

O cinema se modernizou, e a película cedeu ,aos poucos ,espaço para o digital. A transição de formato foi responsável por fechar diversos cinemas incapazes de sustentar os custos altos de adaptação. Entretanto, apesar da resistência dos fãs, o formato digital fornece uma segurança de conservação de material que a película não tem.

Comparação entre a película IMAX e a 35mm

A película sofre problemas pontuais quanto à sua conservação: a facilidade de combustão dos rolos de filme, a velocidade de decomposição e a perda de qualidade sonora e visual das cópias quanto ao material original. Segundo uma pesquisa recente feita nos EUA pela Associação Nacional de Preservação do Filme (NFPB), mais de dois terços dos flimes mudos rodados no país entre os anos de 1912 e 1929 se perderam. Infelizmente, a tecnologia para a restauração de filmes chegou tarde e não foi capaz de salvar esses casos.

A esperança dos cinéfilos

Com o mesmo ardor que os ativistas ambientais lutam pela salvação de espécies em extinção, núcleos restauradores de filmes batalham arduamente para restaurar e recuperar filmes e cenas aparentemente perdidos.

A perda da película original não significa necessariamente a morte de um filme. Muitas outras cópias podem ter sido espalhadas pelo mundo e estarem escondidas nas mãos de colecionadores particulares, cabendo aos restauradores identificá-las.

Hoje, já existem diversos centros especializados na conservação, recuperação e restauração de películas. Há exemplos como a Americas Film Conservancy e a Cinemateca Brasileira (responsável pelos famosos projetos de restauro do flime “Macunaíma” e do Acervo Glauber Rocha).

O processo de restauração tem diferentes etapas dependendo do estado que se encontra a película. Em alguns casos, um tratamento à base de elementos químicos já é suficiente para recuperar as principais nuances do filme.

Para casos mais graves, inicia-se o “salvamento” por meio de processos químicos e artesanais, passando em seguida para ajustes digitais. No caso da restauração de “Macunaíma”, por exemplo, primeiramente foi preciso encontrar as películas em melhor (ou menos pior) estado. Alguns fotogramas de cenas raras foram até mesmo colados com fita adesiva para que nada se perdesse. Em um pequeno “documentário registro” feito pela equipe de restauro, a supervisora do projeto, Patrícia de Fillippi, define todo o processo como “um jogo de busca, onde a delícia é ir atrás dos detalhes, das marcas”.

Macunaíma é um dos mais famosos processos brasileiros de restauração

Em seguida a essa etapa manual, a película é escaneada digitalmente e armazenada em um disco rígido. O filme digital ocupa, geralmente, mais de 1 Terabyte de espaço. Ou seja, ocupa o equivalente a 1024 Gigabytes de memória. Alguns filmes,são repartidos em mínimos detalhes de som e imagem, e chegam a bater a marca de 20 Terabytes.

Nessa etapa digital, os mínimos detalhes, como uma cor desregulada ou um microponto preto na tela, são corrigidos por meio de Softwares especializados. Ao final do processo, a película restaurada fica armazenada em local especial, e é criada uma matriz digital, distribuída para o mercado em seguida.

E qual é a duração de um processo de restauro? Essa é uma pergunta que varia de filme para filme, a depender do estado e quantidade do material disponível. O filme “Horizonte perdido” é um famoso exemplo. Este demorou 25 anos para ter completo o seu restauro.

Morte e vida no cinema

“A película vai acabar”, profetizou o astro Keanu Reeves. A frase dói no coração dos amantes da 7ª arte, mas é uma realidade cada vez mais próxima. Todo dia mais diretores aderem ao digital, também em parte pela necessidade de corte nos custos de orçamento. Apesar de alguns pontos negativos, o digital ajudará na preservação dos acervos, em parte pela facilidade de armazenamento e de cópia sem perda de qualidade.

A verdade é que ainda existem muitos filmes espalhados pelo mundo pedindo por restauro. O processo vai cada vez ficar mais barato, ágil e tecnológico, fato que apenas enriquecerá o mundo do cinema.

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